Como Hitchcock dilatou o tempo em “Festim Diabólico” (Rope)

Talvez a melhor maneira de nos darmos conta da elasticidade do tempo seja quando somos os espectadores de uma apresentação, seja um filme, peça teatral, concerto ou uma palestra. A duração real da performance e sua duração mental são duas coisas diferentes.

Para ilustrar os fatores que contribuem para essa experiência do tempo, não me ocorre um exemplo melhor do que o filme “Rope” (Festim Diabólico, Brasil), realizado por Alfred Hitchcock em 1948, e uma obra tecnicamente sui generis, por ter sido filmado em tomadas continuas, ou seja, não editadas, de 10 minutos cada uma; nenhum outro filme jamais foi inteiramente produzido usando essa técnica. (…)

Hitchcock inventou essa técnica por um motivo específico. Ele estava filmando uma peça que a apresentara sem descontinuidade no tempo. Mas Hitchcock estava limitado pela quantidade de filme que podia ser colocado dentro da câmera, quase o suficiente para 10 minutos de ação.

Examinemos agora, como o tempo real em Festim Diabólico se desenrola em nossas mentes. Em uma entrevista concedida a Truffaut em 1966, Hitchcock diz que a historia inicia as 19:30 e termina as 21:15, 105 minutos depois.

Entretanto o filme consiste em oito rolos de 10 minutos cada num total de 81 minutos, quando incluímos o tempo de exibição dos créditos no inicio e ao final. Para onde foram os 25 minutos de diferença? Será que vivenciamos o filme como sendo mais curto do que 105 minutos? De modo algum.

O filme nunca parece mais curto do que deveria, e o espectador não tem a percepção de que alguma cena tenha sido apressada ou cortada. Ao contrário, para muitas pessoas, o filme parece mais longo do que seu tempo de projeção.

Vários aspectos explicam essa alteração no tempo percebido.

Em primeiro lugar, a maior parte da ação acontece na sala de estar de um apartamento de cobertura durante o verão, e a silhueta dos prédios de NY é visível através de uma janela panorâmica. No inicio do filme, a luz sugere um fim de tarde; ao final, já é noite.

Em nossa experiência diária vemos o céu escurecer ao fim do dia, e isso nos faz sentir a representação em tempo real como demorada o suficiente para que a vivenciemos como várias horas tivessem se passado ate a chegada da noite,quando na verdade essas mudanças na luz são aceleradas artificialmente por Hitchcock. Da mesma maneira, a natureza e o contexto das ações representadas provocam outras percepções automáticas sobre o transcurso do tempo.

Depois de um assassinato — marca registrada das obras de Hitchcock -, que acontece no começo do primeiro rolo do filme, a historia se concentra em um elegante jantar oferecido pelos dois repugnantes assassinos, e do qual participam os parentes e amigos da vitima. O tempo real durante o qual o jantar é servido consome cerca de dois rolos.

Mas os espectadores atribuem mais tempo a essa seqüência porque nos sabemos que tanto os anfitriões como os convidados, que se comportam de maneira tranqüila e polida, sem qualquer afobação, não engoliram o jantar tão apressadamente.

Quando a ação, mais tarde, passa a se desenrolar em dois ambientes — alguns convivas conversam na sala de estar, frente à câmera, enquanto outros se reúnem na sala de jantar para admirar livros raros — nós atribuímos uma duração mais longa a esse episódio.

O conteúdo emocional do material pode também fazer com que o transcurso do tempo se desacelere. Quando estamos incomodados ou preocupados, freqüentemente sentimos o tempo passar mais devagar, porque nos concentramos nas imagens negativas associadas a nossa ansiedade.

Estudos realizados em meu laboratório mostram que o cérebro gera imagens a freqüências mais altas quando estamos vivenciando emoções positivas e reduz a freqüência de formação de imagens enquanto estamos experimentando emoções negativas. (…)

Para ligar cada segmento ao seguinte, Hitchcock terminou cada tomada com um close-up de um objeto. Na maioria das vezes, a câmera se aproxima das costas de um ator que usa um terno escuro e a tela fica preta durante alguns segundos; a tomada seguinte começa com a câmera recuando de um close nas costas do ator.

Embora a interrupção seja breve e não tenha a intenção de sinalizar um salto no tempo, ela pode, mesmo assim, contribuir para a dilatação do tempo, porque estamos acostumados a interpretar rupturas na continuidade de percepção visual como um salto na continuidade temporal.

Técnicas de edição cinematográfica freqüentemente fazem com que os espectadores infiram que algum tempo se passou entre a tomada precedente e a seguinte.

Em Festim Diabólico, cada uma das sete emendas retarda o tempo real em uma fração de um segundo. Mas para alguns espectadores, o efeito cumulativo dessas transições pode sugerir que mais tempo tenha se passado (…) há uma discrepância entre o tempo real e a percepção do tempo pelos espectadores.

Assim o filme ilustra como a experiência de duração do tempo é um constructo.

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Scientific American Brasil # 5 Editora Duetto

Antonio R. Damasio.

Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina da University of Iowa.