Filmagem não é pescaria.

Fernando Meirelles

Na quinta feira passada fizemos uma reunião aqui na O2 sobre a nossa pós e entre outros assuntos nos foram dadas duas informações curiosas:

1 — A O2 completou este mês um petaby te de capacidade de memória, isso é 4 vezes mais do que a memória da UOL ou 1/4 do que tem o Google mundial. Não é pouco.

2 — Falta memória disponível na O2.

Diante desta situação paradoxal foi feito um levantamento e vimos que quando rodávamos em película os filmes obedeciam uma proporção média de aproveitamento de 35 para um. Para digitalizar este material rodado gastávamos 1 hora mais ou menos.

Ao passar para o mundo digital nossos filmes saltaram para uma média de 550 para um ( neste mês houveram 2 projetos onde foi rodado 1.000 para 1)

Para digitalizar material rodado em digital é preciso 3 vezes mais tempo do que o que é telecinado pois o rendering/conformação é lento e depois disso ainda há a digitalização normal. Ou seja, estamos rodando 16 vezes mais material e gastando 100 vezes mais horas de equipamento por projeto, fora o material bruto que para ser arquivado em LTO, precisa de mais 3 vezes o tempo do material para a nova conformação.

Além do problema de memórias astronômicas, rodar esta infinidade de material tem criado um segundo gargalo,o trânsito destas imagens. (para não falar na infelicidade dos montadores que trabalham muito mais e fazem filmes piores pois gastam 90% do seu tempo jogando fora o lixo e apenas 10% montando).

Para resolver estes problemas vimos dois caminhos: Sair comprando mais máquinas para dar conta deste fluxo ou racionalizar o fluxo. Vamos fazer um pouco das duas coisas. Das novas máquinas o Paulo Barcelos e o Tamis estão se encarregando, este email é para propor uma maneira de diminuirmos a produção de lixo imagético,vamos chamar assim. Proponho abaixo uma pequena mudança no nosso método de trabalho.

Vamos lá:

O MÉTODO:

1 — No mundo digital não faz mais sentido nos referirmos as nossas tomadas& gt; como se fossem filmadas. Faremos uma nova claquete onde deve constar o tipo de camera, o número do cartão ao invés do rolo, o número do clipe geradopela câmera no lugar do take e o número da cena como é hoje. Vamos manter um espaço para colocar o número de take de cada cena para quem achar queajuda a rever o material no set. obs 1 — O número do clipe gerado pela câmera vem com umas letrinhas tipoAZX 023. O que vale é sempre o número final: 23.

obs 2 — Cada câmera tem um padrão, a Silicom, por exemplo, dá a data ehorário de cada take como um time code. Cabe ao ASSISTENTE DE DIREÇÃO, no set estabelecer qual número será usado por todos.

A primeira decisão: De hoje em diante todo mundo usa os mesmos números. O som direto canta a cena, o número do cartão e o número do clipe não mais acena, o rolo, e o take. “- Cena 4, cartão 2, clipe 23…ação.”
 
 2- Vamos voltar aos anos 60 quando no set o diretor dizia “ copia essa”,ao final de cada take que lhe parecesse razoável. Agora o DIRETOR dirá “loga essa. “

Esse é o momento mágico que vai fazer toda a diferença no volume que chegará ao montador.

A segunda decisão:

Ao final de cada take o DIRETOR deve avisar o ASSISTENTE DE DIREÇÃO se o take rodado deve ser logado ou não. O ASSISTENTE DEDIREÇÃO escala alguém para fazer o relatório de câmera onde esta informaçãovai anotada ou faz isso pessoalmente. Assim que o cartão estiver cheio ele é entregue para o LOGGER junto com este relatório de câmera com o qual o LOGGER vai separar o material que vale do lixo. Cada cartão tem seu relatório.

3 — Os takes bons devem ser separados pelos LOGGERS numa pasta chamada
 “SELECT”. Esta pasta deve ser copiada num HD Vermelho chamado SELECT e este será o único material transferido para a ilha de montagem e depois arquivado em LTO.

Como segurança o material bruto também deve ser copiado pelo LOGGER num outro HD, laranja, chamado “BRUTO” que será guardado caso seja preciso ver
 mais material. Este bruto no entanto não passará por todo o processo de conformação, digitalização etc e será apagado assim que o filme for ao ar.

Cada HD deve ser mandado pelo PRODUTOR para a produtora acompanhado dos respectivos relatórios de filmagem. Na produtora haverá um coordenador destes arquivos que transfere o material do HD vermelho e deixa de lado o laranja.
 
 A terceira decisão:

O logger deve fazer duas pastas, o SELECT e o BRUTO.Cada pasta desta é copiada num HD diferente. Ve rmelho para o SELECT e LARANJA para o BRUTO. Só o HD vermelho faz todo o processo até as ilhas de edição e depois o arquivo em LTO. Os HDs devem sempre ser acompanhados dos relatórios de câmera.

4 — Com a gravação digital, muitos sets praticamente aboliram a palavra “corta”. Como a câmera só registra um novo número de clipe quando é cortada, apesar de ser chato, é fundamental que depois de cada erro diga-se “corta”, para que o que foi gravado até então, o lixo, seja jogado fora. Sem isso os clipes ficam imensos e dificultam muito todo o processo que se segue: Logar, conformar, digitalizar, montar e conformar para LTO para arquivar.

A quarta decisão:

Corte sempre após cada erro ou entre cada novo take.Perde-se um tempinho no set fazendo claquete mas salva-se um tempão em todo o resto do processo e melhora a qualidade do trabalho do montador.

5 — Será cobrado de cada filme o valor de R$ 500,00 por hora de 
 Material que chega na ilha de edição.

(algumas finalizadoras como a Casablanca cobram R$ 1.500,00).

Ao fazer o orçamento os diretores serão perguntados quantas horas de material querem ter na ilha, como no tempo do negativo.

obs: não estamos acrescentando um custo apenas separando este ítem do custo do resto do processo de pós.
 
 A sexta decisão:

Os filmes pagarão por hora de material transferidos para a ilha de edição.

Observações finais:

Este esquema vale para filmagens com uma câmera ou com múltiplas câmeras
sempre que todas usem a mesma claquete e que sigam a ordem de cortar e logar dada pelo diretor. Nestes casos a claquete trará a informação de quais estão rodando a mesma cena, assim o montador sabe que tem a mesma imagem por outro ângulo.
 
 No caso de câmeras soltas que buscam imagens independentes do DIRET OR e do ASSISTENTE, passa a ser função do CÂMERA-MAN desta 5D (ou seja
 lá qual sistema estiver sendo usado), no final de sua diária, entregar para o LOGGER junto com seu cartão, um relatório organizado de tudo o que
 fez com a indicação do que deve ser logado ou não. Isso dará mais trabalho aos CÂMERA-MEN-espírito-livre, mas também ajudará a disciplina-los ensinando-os a ser mais objetivos. Filmagem é uma coisa, pescaria é outra.

Fernando Meirelles

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