Todos Corações do Mundo de Murilo Salles

Estadão, Caderno 2 , 96 Entrevista de Luiz Carlos Merten
“A montagem durou seis meses, e resgatou a emoção do jogo.” José Rubens conta como foi doloroso fazer os cortes para chegar à versão final .
Na edição de José Rubens Hirsh de “Todos os Corações do Mundo” podemos observar como o ritmo crescente soma-se à também crescente necessidade de imagens. Conforme vamos caminhando para o final, mais imagens, mais emoção, cortes mais rápidos até culminar na vitória brasileira.
Em vários trechos desse documentário temos exemplos da edição como determinante na construção da historia; afinal, o roteiro é o alinhavar dos jogos, a tensão, as vitórias e derrotas.
Só para ver o material rodado pela equipe de Murilo Salles para documentar a Copa do Mundo de 1994, o montador José Rubens Hirsch demorou mais de 20 dias.
Havia mais de 400 horas de material rodado: Hirsch via, anotava e fazia a separação preliminar por blocos. Daria para fazer diversos filmes.
Trabalhando com o roteiro estabelecido por Salles, Hirsch chegou à versão em cartaz nos cinemas, empolgante até para quem não gosta de futebol.
Aos 41 anos, ele não esconde a satisfação: “Conseguimos captar toda a emoção da copa.”
C2 — Foi muito difícil chegar à versão definitiva de Todos os Corações do Mundo?
Hirsch — Foi preciso muito trabalho. Comandando uma equipe de montadores, trabalhei durante seis meses ocupando cinco ilhas de edição. Foi um trabalho intenso, mas a receptividade do público e dos críticos mostra que fizemos a coisa certa.
C2 — Antes de chegar à versão definitiva, quantas montagens você fez?
Hirsch — Foram seis montagens. Chegamos a 2 horas e 15 minutos. Foi o corte mais doloroso: chegar a 1 hora e 45 na final.
C2 — O que existe de mais fascinante é que se trata de um filme com final conhecido e, mesmo assim, vocês conseguiram criar um suspense extraordinário no jogo entre Brasil e Itália.
Hirsch — Tínhamos 12 câmeras naquele jogo. Cobrimos todas as jogadas de perigo e elas não foram muitas. A solução foi dramatizar a participação do Roberto Baggio.
C2 — Impressiona muito o fato de vocês terem conseguido fugir ao formato do jogo via TV ou mesmo das coberturas futebolísticas do Canal 100.
Hirsch — Essa era a intenção desde o início. Não queríamos as melhores jogadas da copa, como faz a TV. Queríamos as grandes emoções.
C2 — Qual a sua formação?
Hirsch — Montei diversos longas, entre eles o Barrela*, mas montei principalmente muitos comerciais. Foi quando conheci o Murilo, que também é um diretor conceituado no meio.
C2 — Você se considera um montador prático ou teórico? Há muito da montagem de atrações de Eisenstein em Todos os Corações do Mundo. Duas imagens justapostas criam uma terceira no inconsciente do público.
Hirsch — Acho que, no Brasil, não dá para fugir disso: considero-me um montador prático. Mas toda prática está sempre embasada numa teoria. Admiro muito o trabalho de Eisenstein e acho até que sofro algumas influências dele. Mas o meu objetivo é a emoção.
C2 — A Fifa produziu documentários sobre as copas anteriores, mas eles não chegaram ao Brasil. Você assistiu a algum?
Hirsh — Todos. Eram muito fracos, muito ruins. Mesmo assim, sempre dá para destacar algumas coisas. Os cinegrafistas ingleses são bárbaros. Centram a teleobjetiva na bola e captam lances incríveis.
C2 — Você trabalha muito com imagens de câmera fechada.
Hirsch — Principalmente no final, para realçar a dramaticidade das cenas com o Baggio.
C2 — As cenas do futevôlei para explicar o estilo do Romário também são sensacionais. Elas foram rodadas depois, não?
Hirsch — É uma idéia do Murilo. Ele acha que o Romário é um grande cabeceador porque veio do futevôlei, do futebol de praia, em que a cabeçada é um elemento decisivo nas partidas. As cenas do futebol de praia foram rodadas depois. Para ilustrar a tese do Murilo.
C2 — A divisão do filme em blocos contribui para a sua riqueza estrutural. Um dos blocos mais interessantes é o da Bulgária.
Hirsch — Tenho orgulho desse bloco. Acho um dos melhores.
Todos Corações do Mundo de Murilo Salles. Filme oficial da XV Copa do Mundo da FIFA.1995. Videolar da Amazônia