falso domínio

Eu passei muito tempo tendo a mais plena e absoluta certeza de que eu mandava em mim e no meu corpo. Mesmo sabendo que era mentira: minha mãe sempre podou qualquer coisa que eu quisesse fazer que fosse diferente do que ela achava normal ou bonito. 
Quando aprendi a me “rebelar”, fiz algumas tatuagens sem o consentimento dela, e nada aconteceu. Segui fazendo coisas que eu queria, como cortar o cabelo.

Alimentei a ilusão de que eu tinha domínio do meu próprio corpo.

Comecei a fazer parte de uns grupos mais voltados pro feminismo no facebook e desconstruí muita coisa na minha cabeça. Comecei a ter outras visões sobre o mundo e cada vez mais certeza de que eu mandava em mim, que eu conseguia dizer tudo que queria ou não, e que as coisas aconteceriam do jeito que eu queria.
Até que passei por uma situação que foi o meu divisor de águas entre o eu anterior, que acreditava no “meu corpo, minhas regras”, pra um eu consciente do mundo, consciente que nem tudo que está na internet é fácil de aplicar na vida real.

É realmente muito legal e interessante ensinar não só às meninas, especialmente crianças, que elas devem ser donas de si mesmas, e também aos meninos que eles devem respeitar as decisões alheias e isso deve ser feito, mas não esperem que os adultos reajam da mesma forma.

O que aconteceu comigo foi uma situação comum, e algumas coisas foram alteradas pra não causar constrangimento:
eu conversava há um tempo com um cara, que conheci na internet, mas amigo de outros amigos, daqueles que a gente vai atrás dos amigos pedir referência (já caí em umas ciladas que se eu tivesse falado com os amigos antes, não teria nem perdido o tempo), e de fato uma pessoa ótima. Depois de um tempo conversando, começaram os flertes, troca disso e troca daquilo, um dia rolou a oportunidade de encontrá-lo com outros amigos, e depois ficamos sozinhos, mas não tinha rolado aquele sentimento de “agora vai”, desde o inicio eu sabia que não ia dar certo, e também não tava muito afim. Mas é aquela coisa, né? Como vou dizer que não depois de flertar tanto tempo? Beijamos. Que beijo horrível. Transamos. E aí no meio do negócio eu comecei a pensar que eu era uma pessoa horrível por sequer conseguir dizer não. E eu tenho certeza que se eu tivesse dito que não queria, o cara teria parado e ficado de boa, mas ainda existia a culpa.

Eu sei que não tinha obrigação de ficar com ninguém. Eu sei que eu podia ter dito não, eu sei de tudo que eu tinha direito, mas ao contrário de tudo que eu queria na hora, que era ir embora, eu só fingi que tava gostando. Em momento algum foi ruim pela pessoa, só foi ruim pela situação que fui colocada e que não consegui sair porque me senti fraca. E nessa hora eu percebi que, por mais que eu queira, não tenho total domínio sobre meu corpo.

Hoje eu provavelmente consiga evitar que essa situação se repita, mas também não tenho certeza, porque infelizmente eu ainda sinto obrigação de retribuir em algumas situações.

Eu falei pouco sobre essa situação, mesmo com amigos, porque no dia seguinte passei o dia inteiro me sentindo mal comigo, me sentindo suja, e me sentindo mal com a pessoa também, porque não fui honesta com ela (até hoje não consegui ser) e eu espero que eu consiga dizer o que quero, na hora que quero, quando for preciso.

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