Entre a luta e a ignorância

Porque uma coisa não tem nada a ver com a outra…

Somos parte de uma geração que é testemunha do terror. Pela simples menção dessa palavra, nossas mentes resgatam lampejos dos aviões colidindo com os prédios do World Trade Center, dos atentados de Londres, do massacre da corrida de Boston e agora do tiroteio na boate Pulse de Orlando. As ações de violência e seus discursos de ódio se fundem com seus pares ao longo da história. As menções e hashtags agregam as mensagens de medo, o sentimento de luto e a esperança, que ainda está entre nós, quase silenciosa. Ao mesmo tempo, a ignorância e o preconceito também circulam na mesma proporção.

Acusar a comunidade LGBT de usar o massacre para se promover é um absurdo até para digitar no teclado. Não é difícil ligar os pontos para constatar que o alvo foi escolhido simplesmente porque se trata de uma boate frequentada pelo público gay e simpatizantes. Outro ponto problemático é afirmar categoricamente que há seletividade quanto ao próprio sentimento de indignação. O terror afeta a todos os seres humanos. Sentimos empatia. Do nosso jeito, nos colocamos no lugar do próximo. Sentimos o dever de promover a solidariedade. Qualquer ato de violência motivada por um discurso de ódio provoca indignações de maneira igual, seja pelos tiros na boate ou pelas execuções cruéis em série realizadas por grupos terroristas e divulgadas pela internet.

Para piorar, não foi difícil encontrar a frase “mas eles estavam numa boate, se estivessem em casa nada disso teria acontecido” numa busca rápida pelas redes sociais. Tal premissa se baseia numa opinião que culpa as próprias vítimas. Nenhum dos membros da Igreja da comunidade negra de Charleston esperava que um homicida, com motivações racistas, iria invadir a congregação e matar nove pessoas. Ninguém que estava na maratona de Boston esperava um ataque, muito menos os alunos da escola de Realengo. Nunca é culpa da vítima.

Os exemplos citados demonstram a importância de promover a bandeira da tolerância. É alcançar o ponto no qual uma legislação não consegue atingir. Levantar a voz pelos que foram silenciados e compartilhar empatia. Infelizmente, estamos em um cenário problemático no qual o enfrentamento do terrorismo ainda está longe de produzir resultados satisfatórios. Pelo menos, a mudança mais necessária precisa acontecer a partir das nossas atitudes. A primeira delas é pensar muito antes de escrever.


Tiago de Moraes é estudante de jornalismo, músico e um dos criadores do coletivo ZACH.