O capitalismo mata?
Fabiano Nascimento
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Então vamos lá

Antes de responder, é bom a gente contextualizar toda essa questão para não virar algo do nada (caso alguém leia isso rsrsrs). Um twitter de um partido de direita, ao criticar a situação da Venezuela, sugeriu que todas as pessoas que se simpatizam com o socialismo deveriam pedir desculpas à humanidade. Respondi que não vejo motivo pra isso e que nem culpo as pessoas que admiram o capitalismo pelas mortes que este sistema causa. Levantar uma culpa histórica ou generalizar a responsabilidade de um crime, que foi praticado em virtude de um devaneio mental de um indivíduo, e não por uma ideologia que defende justamente o bem comum, é, no mínimo desonesto. Mas o que pegou na resposta foi dizer que o capitalismo mata, e por isso fui desfiado por você a argumentar sobre este tema. Dito isso, segue o raciocínio.

O pouco que estudei e que conheço sobre o Capitalismo me dá elementos suficientes para que, assim como você, possa enxergar coisas boas e ruins nesses sistema. Claro que eu também me beneficio das coisas boas que o capitalismo proporciona, isso não nego. E nem vejo, nessas alturas, como um sistema tão enraizado poderia ser eliminado da vida de 7 bilhões de pessoas de uma hora pra outra. Então o negócio é conviver com ele, penso eu. No mais, a questão não é debater se capitalismo é pior ou melhor que outro sistema (pelo menos não agora). Isso não significa, no entanto, que eu durma tranquilo sabendo dos efeitos colaterais desse sistema. E quais ou o que seriam alguns estes efeitos? Você mesmo ja deu algumas dicas e só vou discorrer sobre eles e acrescentar alguns outros.

- O Capitalismo basicamente visa o lucro. Todo e qualquer avanço tecnológico é obtido através deste objetivo, o que não seria ruim se estes avanços não fossem buscados a qualquer custo. O lucro, sabemos, é a maximização do resultado no menor custo possível. Esse menor custo pode significar desde baixos salários até limitação nos investimentos em segurança, trazendo consequências imediatas. Um exemplo recente: Samarco. Vidas se perderam porque a empresa calculou que valia a pena reduzir o investimento em segurança para aumentar o lucro. Essa situação se repete o tempo todo nas mais diferentes áreas: a fábrica que polui, a cia aérea que reduz as folgas dos pilotos, a transportadora que não faz a manutenção correta de seus caminhões, etc . E não é o risco de imagem que vai inibir essa situação porque as empresas se reinventam ou pouco sofrem com isso. Quase ninguém lembra qual a marca de leite que teve adição de ácido anos atrás, e duvido que muita gente rejeite comprar carne da JBS se o quilo dela custar um real a menos. Agora, imagine se não houvesse a fiscalização do braço do governo (que aliás, se fosse um pouco mais eficiente certamente descobriria coisas piores), como saberíamos dessas coisas? Pra pensar.
 — O Capitalismo vive da exploração de recursos naturais, que não são infinitos. Salvo uma ou outra iniciativa, não há planejamento e nem investimentos no sentido de minimizar os impactos dessa exploração e/ou racionalizar estas atividades de forma a torna-las sustentáveis e não causar a escassez destes recursos, que em muitos casos são vitais para nossa sobrevivência. Não há como mensurar como isso tudo já nos afeta, mas a própria OMC já emitiu um relatório alertando para o risco de uma tragédia de grandes proporções por conta do crescimento acelerado do consumo, isso sem falar nos constantes alertas da ONU e outros estudos científicos nesse sentido. A busca desenfreada pelo lucro está prestes (numa escala histórica do tempo, claro) a causar a eliminação de milhares de espécies da face da terra, incluindo a nossa.
 — O Capitalismo é responsável por muitas das guerras ocorridas no último século, e consequentemente pela morte de milhões de civis inocentes. Algumas dessas guerras com interesse puramente econômico (Guerra do Iraque, por ex), outras com viés ideológico em defesa do capitalismo (e contra o avanço do Comunismo, como na Guerra do Vietnã e outras na América Central), pra citar só algumas. Estima-se (vi isso numa pesquisa rápida que fiz ha alguns dias) que foram mais de 100 milhões de mortes em consequência destas guerras no século passado. Particularmente acho que há um exagero nessa estimativa e na atribuição disso tudo somente ao capitalismo, mas mesmo uma estimativa menos alarmista não deixa de ser assustadora.
 — O Capitalismo, como é hoje, e conforme o próprio texto já levantou, é responsável por um absurdo abismo social, concentrando metade de toda riqueza do mundo nas mãos de meia dúzia de pessoas. E, com exceção de alguns países ricos, essa desigualdade é replicada na maioria das nações, num sistema em que quem nasce miserável nunca terá a oportunidade de ter uma vida digna um dia (lógico que estamos falando de estatísticas e não de casos isolados, como a imprensa gosta de citar para mostrar que a meritocracia é uma questão de vontade. Nesse caso, não é). O ciclo da miséria é algo do qual é difícil de se escapar, pois não há uma estrutura social e nem econômica que permita um indivíduo nessa situação a mudar de vida. Ele será sempre a mão de obra barata tão útil ao modelo capitalista. A educação pública pra ele é restrita e limitada e mesmo que ele tenha a sorte de nascer numa família que o apoie nos estudos, não será capaz de competir com um cidadão de classe média que teve acesso a bons colégios. Podemos estimar que, no Brasil, mais da metade da população se enquadra nesse perfil. Mas digamos que metade dessa galera realmente se empenhe nos estudos, receba incentivos de governos locais ou fundações publicas e particulares, e superem a expectativa no que se refere a formação acadêmica. Haverá empregos neste nível para todos? Óbvio que não. Por isso aquela mulher do twitter, num ataque cínico de sinceridade, revelou que nem todo mundo pode terminar a faculdade, porque o mundo precisa de lixeiros (se ela soubesse que tem “Gari por aí que é formado engenheiro” — Jorge, Seu — nem se preocuparia )… . É isso que move o capitalismo, queiramos nós ou não. E a tendência é piorar. O liberalismo econômico prega o fim da intervenção do estado na economia e também o fim dos investimentos sociais básicos, repassando essa “responsabilidade”, pasme, para a iniciativa privada. É sórdido demais esse pensamento. Enquanto a cada dia esse sistema mata cada vez mais, seja pela ausência de saúde, pelo aumento do crime, pela fome (gente morrendo de fome, é mole?) a propaganda diz que o livre comércio equalizará essa desigualdade. Como, se ela só tem aumentado enquanto o capitalismo avança?

Enfim, caberia ainda uma infinidade de argumentos e citações que comprovam que o Capitalismo mata , e que tem capacidade para matar ainda muito mais. Sim, ele também melhora as condições de vida das pessoas, mas numa escala insuficiente para beneficiar todos os indivíduos que são a base para este avanço. O cara que trabalha na fábrica da Indonésia, que fabrica o chip que vai naquele tomógrafo computadorizado talvez morra de uma doença que poderia ser tratada se fosse diagnosticada a tempo com o uso daquele mesmo tomógrafo, cujo preço do exame não estava ao alcance do seu mísero salário. E claro, o socialismo ou comunismo também matou e ainda mata muita gente, mas como você disse, por conta da ganância de poder de alguns líderes, e não porque isso seja uma consequência direta destes sistemas.

Minha conclusão é de que, como já disse, hoje o capitalismo em si já é algo estabelecido e não há como simplesmente substitui-lo. Se um hecatombe destruir o planeta e sobrarem dez socialistas, acredito que eles repovoarão o planeta num sistema baseado no capitalismo atual. Porém, se mesmo com todas as regulamentações de mercado que existem ele produz disparidades socioeconômicas e se torna cada vez mais uma ameaça ao futuro de muita gente, não concordo em hipótese nenhuma com o liberalismo econômico que os donos do capital tanto apregoam e que, logicamente, será muito bom pra eles. A regulamentação se faz necessária, inclusive com mudança nos regimes de tributação. Nenhum Joesley Batista vai morrer de fome se seu faturamento tiver um imposto um pouco maior e nenhum dono de universidade particular vai deixar de trocar de carro todos os anos se houver investimento em universidades publicas com o dinheiro dos impostos. Isso (regulamentar, tributar) vem a ser o que se chama de “Socialismo” nos dias de hoje pelos defensores do mercado. Coloca-se um terror na sociedade dizendo que esse socialismo (que as vezes chamam também chamam de comunismo, pra confundir mesmo) acabará com o modo de vida do jeito que ele é hoje. Oras, se a China, o maior país dito comunista cresce vertiginosamente em função dos benefícios do Capitalismo (e ninguém usa a China como exemplo pra falar mal do comunismo/socialismo. Só Cuba e Venezuela) onde está a lógica desse discurso?. Você poderá me acusar de ser contraditório naquilo que penso em detrimento da forma como eu vivo. Admito que sim. Sou consumidor de produtos que só o capitalismo poderia proporcionar e fico satisfeito com isso. Mas não é porque eu pertença a este sistema que eu não possa apontar defeitos graves nele e indicar possibilidades de melhorias para que ele cause menos estragos. Da mesma forma um capitalista lança mão de elementos socialistas para sobreviver. Quando anda de avião, você está inconscientemente dividindo com outras pessoas o custo de um serviço que seria inviável pagar individualmente, tornando esse ato um ato coletivo, com necessidades “comuns” às de outras pessoas. É o mesmo quando você mora num condomínio ou assiste um show. A pessoa do seu lado pode ser um grandessíssimo filho da puta, mas vocês estão se ajudando mutuamente a pagar menos por um produto ou serviço. Agimos coletivamente o tempo todo e temos essa necessidade a fim de sobrevivermos. Mas na hora de tomar decisões, cada um só pensa no seu eu e age como se todos ao seu redor fossem apenas competidores querendo deixa-lo pra trás.