Aforismos

Filosoficamente, os tecnocratas do Vale do Silício rumam pelo caminho oposto de um Sêneca ou de um Buda: têm especializado a miséria humana. Do budismo, pegam emprestado as práticas meditativas e distorcem seus objetivos; meditam por interesses exclusivos: querem mais desempenho, produzir mais, ter mais eficiência. Do mesmo budismo que tanto admiram, são incapazes de aceitar e assimilar a lição primeira dessa tradição: a realidade da velhice, da doença e da morte. Por isso continuam alimentando seus terrores e perseguindo seus desejos infelizes e irrealizáveis: querem migrar as próprias consciências para os computadores e, assim, se tornar imortais no universo…


Esperaremos, inertes, que a biosfera estraçalhe todas as nossas ilusões?

Ainda ontem era possível dizer: “O tempo é agora; não podemos mais perdê-lo”. Hoje, com o pesar da calamidade que, dia após dia, torna o planeta mais hostil e ameaça praticamente todas as formas de vida, a constatação é de que cada minuto sem ação radical, transformadora, o preço da catástrofe é multiplicado em muitos números.

Muita coisa já foi perdida. Nas duas últimas três décadas, por exemplo, cerca 75% dos insetos voadores, os polinizadores da vida vegetal, podem ter desaparecido, desencadeando um fenômeno que cientistas chamam de “armagedom ecológico”. …


chuva vem, sol vai
chuva vai, sol vem
vai e vem de roupas no varal

cura caiçara:
sol e sal
que sara

choveu nas praças:
agora encharcadas, lindas
e cheias de garças

inquieto, pinico:
a cada janela aberta
uma tropa de mosquitos

cupins contidos
na madeira carcomida
comem, cagam, caminham

céu estrelado
chiado de grilo:
estribilho do mato

nem polícia faz parar
a festa das abelhas
na latinha de guaraná

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rapto, ruptura
rato: bueiro aberto
na avenida
calçada encardida
telas, vitrines
gente, indigente
algazarra, sirene
combustão, sorvete
nenhuma planta
nenhum bicho
exceto os divididos
entre gente, indigente
nenhuma planta
nenhum bicho
exceto o jardim
do condomínio
cães, gatos
ratos, baratas
e até as moscas
têm sumido.

rastro, rachadura
ralo: debaixo da camada
encardida e dura
corria um riacho
acima da camada
encardida e dura
gente transita
calçando saltos, borrachas
tomando sorvete
comprando vitrines
acima da camada
encardida e dura
indigentes cochilam
e ponto —
porque se não compram
não interessam
como o riacho soterrado.

rápido, raparigas
rapazes: o sol
do meio-dia
amanhã
será mais quente:
vai torrar indigentes
rachar vitrines
derreter sorvetes.


miniconto

De Porto Alegre a Florianópolis, mochila estropiada nas costas, cinquenta e seis quilos, trinta e dois anos, quinze de dependência química percorrendo o sangue, os nervos, as vísceras.

Cinco dias na rua, penando, mal dormindo no duro — ossos do corpo magérrimo em contato com concreto e ferro; Papelão? Pouca utilidade, porque molha — regime intenso de chuvas na capital catarinense. Carne úmida e fria. Os tênis esburacados e encharcados, cheirando a carniça: a cada passo, o barulhinho irritante: squish. Abrigo? Tem trauma. Certa vez, ainda na capital gaúcha, roubaram-lhe tudo enquanto dormia.

No sexto, arranja bico: ajudante de pedreiro…


E até que ponto os/as marxistas brasileiros/as consideram o colapso ecológico e as rupturas tecnológicas?

Por influência do jovem historiador pernambucano Jones Manoel, Caetano Veloso leu três livros do filósofo italiano Domenico Losurdo e deu uma guinada intelectual: como ele mesmo disse, se tornou “menos ‘liberalóide’ do que era há dois anos”. Influência, direto da fonte, do pensamento marxista contemporâneo.

Muito interessante; importante, em vários aspectos. No entanto, lamento que seja justamente de pensadores que têm muito pouco a contribuir para os dois principais desafios deste século: catástrofe ecológica (que pode colocar, dentro de poucas décadas, junto com praticamente todas as espécies, o ser humano em risco de extinção); e as rupturas tecnológicas (da…


A pretensão de ser um frasista, escritor de máximas, articulador de tiros curtos, desviando, assim, do senso tacanho da literatura brasileira, que tem um olho no mercado e o outro na reputação e, por isso, pouco aposta, apega-se à garantia do que é vendável. Destruir e construir com o estilo lacônico. Morrer sem ter ganhado um centavo com meus aforismos; viver na plenitude do exercício, exalando sinceridade, franqueza perante à vida.

Clareza é um estado de espírito. A ideia afiada é engendrada numa mente treinada a ser cada vez mais límpida. Todo aforismo é matéria aguçada. Todo aforismo é balde…


Tem muitas bocas que discursam em prol da preservação da Amazônia enquanto a devoram

Não é nenhum exagero afirmar que, caso a produção e o consumo de carne brasileiros não começarem a reduzir drasticamente, a partir de agora, o futuro é hostil. Há estreita relação entre a dieta onívora e a devastação ambiental. As ameaças ou consumações dos atuais extermínios indígenas também estão diretamente vinculadas ao bife que chega no prato de milhões.

Aos números: cerca de 80% do que é desflorestado na Amazônia, Pantanal e Cerrado torna-se pasto — amplas zonas inférteis amontoadas de bois, vacas e soja que, em grande parte, serve para alimentar os animais. …


venta e chove
sem guarda-chuva em casa
senta e chora

sábado equânime:
um gato e dois cachorros
descansam na varanda

solo: encaixo
ralé: sou — a vida é
mais embaixo

cintilam os olhos da cadela:
minha infância foi igual
aos olhos dela

abdicar do drama:
corpo quer gargalhar
e brincar na grama

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Aqui, usamos nossas mentes e mãos afiadas, autônomas ao máximo que podem ser

A casa é de madeira, muito velha, singela, charmosa. Foi construída na década de 50, por um marceneiro, pai e avô. E agora é uma editora. É onde moramos desde novembro do ano passado; é onde, em três, dividimos a vida com afeto, amizade, parceria, planos. É onde nós, agora, trabalhamos — escrevendo, editando, revisando, diagramando, desenhando, cortando, dobrando, vincando, colando, encadernando; errando, batendo cabeça, esfolando os dedos, fritando a mente na frente do notebook. Por fim, aprendendo toneladas a cada dia, acertando, satisfeitos, empolgadíssimos, contentes com os resultados finais.

Lar e editora — a Casatrês. Número 2668, casa 3…

Felipe Moreno

Haicaísta com ternura, prosador com afiação (e vice-versa). Autor de “A humanidade está na praia” (Casatrês, 2020): tinyurl.com/y984tfbk

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