buckminsterfulereno
Quando eu tinha uns 12 anos de idade, escrevi uma carta pra mim mesma pra dizer o quanto aquele dia estava triste. Deitei no chão de barriga pra baixo, tentando me deixar mais aliviada com a caneta glitter-gel laranja e a folha rosa, o dia estava um tanto fechado, ou eu que deixei ele fechado na memória.
Eu não sabia como lidar com pequenas mudanças bruscas. não mutáveis. que ali por diante seriam a minha pequena verdade cotidiana.
Eu, como há quase 12 anos escrevi…”virei mocinha”, fui ao banheiro e vi sangue. Fiquei triste, perturbada e ainda tinha que ir pra escola e eu não queria ir na escola agora…tudo tinha mudado, num instante assim tão determinado as coisas tinham mudado e por anos eu teria que lidar com uma coisa que eu nunca havia presenciado.
E só a gente sabe como realmente as coisas mudam…delicadamente agressivas.
Na mesma semana minha mãe me avisou… “O pitty morreu”
Como poderia meu cachorro morrer ao mesmo tempo em que outras coisas aconteciam e por que ele morreria? se ele só tinha vivido 5 anos. Achei que bichos viviam mais, ficavam mais com a gente e esperariam um dia bonito pra avisar… eu vou morrer.
Pitty estava na escada quando na segunda série… eu arrumava minha mala e falava que ia fugir de casa…e sem ter pra onde ir, ficava na escada, olhando pra rua deserta daquela cidade que era o puro silêncio que me atordoava.
Quando visito minha vó, dou um abraço, muitos beijos e falo “te amo”, ela é a única pessoa que eu falo “Te amo” da minha família. Algumas vezes ao mês me preparo pra receber um telefonena dizendo que ela morreu. Tento me preparar cotidianamente pra que aos poucos eu vá sofrendo e não doa tanto quando só restar uma memória de tudo…quando a gente montava o quebra-cabeças do bananas de pijamas…quando eu elogiava seu feijão…ou quando eu limpei a casa dela com as amigas e ela ficou brava por usar tanto produto de limpeza.
Hoje, minha mãe me ligou e disse que o Buck morreu. e eu não me preparei tanto e desde o dia 12 de Julho ele já não está aqui. Esconderam de mim quase 1 mês e eu não me preparei. Eu odeio cachorros porque eles sempre vão embora muito cedo, porque eles sempre fazem cocô no tapete. O buck era o meu oposto, ele não tinha muita energia, mesmo eu escolhendo o nome Buckminsterfulereno, 60 átomos de carbono unidos em forma de bola de futebol. Ele veio quando eu tinha 15 anos de idade, num agosto.
Ele odiava outros cachorros, gostava de andar de carro e ficar esparramado no tapete vermelho que tem lá na sala, onde era pra ser meu quarto.
Eu odiei o Buck uma vez, porque ele não ficou triste quando o Polônio morreu, e o Polônio era filho dele! O polônio era eu em forma de cachorro, ele não parava, parecia meio retardado de tanto que ele corria e pulava, e ele espirrava muito e molhava nossa cara, e me deixou desolada quando morreu de cinomose.
O buck morreu hoje e o último dia que a gente se viu foi dia 22 de Abril, antes de eu pegar o ônibus pra Juiz de Fora.
Minhas irmãs estão com outra cachorra, eu não conheço, mas ela é a cara do Buck e como diria meu pai ela chama “Orora”.
