A Biblioteca do Futuro

texto de Lydia de Queiroz Sambaquy, publicado na Revista da Escola de Biblioteconomia da UFMG, v.1, n.1, 1972.

O mundo inteiro vive a emoção de importantes transformações, não apenas científicas e tecnológicas, mas também econômicas e sociais. Trabalhamos em época extraordinária, sem precedentes, de revisão de processos tradicionais, de criação e estabelecimento de novos métodos e sistemas, em todos os campos da atividade humana. Os problemas antigos estão sendo equacionados de maneiras diferentes, na procura de soluções inéditas e surpreendentes.

Métodos tecnológicos e científicos que, no século XIX e na primeira parte do século XX, tinham, somente valor relativo passam a ser de vital importância para todos os tipos de atividades dos homens modernos. As descobertas e invenções crescem, atualmente, em progressão geométrica, acelerando os processos civilizatórios, acelerando a própria história da humanidade, modificando os modos de vida, alterando as concepções, as convenções, as tradições e as crenças, transformando até mesmo, a conduta humana. E a crescente rapidez com que as descobertas e intervenções se sucedem uma às outras pode ser encarada como, apenas, uma das feições em que os acontecimentos históricos se desenrolam, trazendo modificações fundamentais à vida do homem comum.

Afirma recente relatório da UNESCO, que as atividades técnico-científicas das sociedades modernas, com todas as suas consequências econômicas e sociais, estão se duplicando em intensidade, cada dez anos.

Diz, ainda o mesmo relatório da UNESCO, que, atualmente, o número dos cientistas vivos é igual a 90% de todos os cientistas e tecnologistas que existiram desde o início da História.

Isso implica no crescimento vertiginoso da documentação escrita, que precisa ser controlada, adquirida, reunida, classificada, catalogada e colocada a serviço de ensino e da cultura em todas as suas formas.

O que essa documentação registra é realmente fantástico. A capacidade desenvolvida pelo homem na busca do conhecimento da natureza, do Universo e do próprio homem já ultrapassou de muito a própria imaginação.

Algumas realizações dos homens modernos são bem expressivas como características da evolução dos nossos tempos, tais como:

Na Física, a desmaterialização da matéria, ou desintegração nuclear, como a queiram chamar;
– a emprego da luz coerente, ou do raio laser, com aplicações as mais surpreendentes.

O aperfeiçoamento da eletrônica, em que o prodígio dos computadores levou o homem a realizar maravilhas, nos campos os mais variados;
– a microscopia, pela qual o homem descobriu, na célula e no átomo, um microcosmo:
– as viagens interplanetárias, pelas quais o homem ampliou, de maneira extraordinária, suas possibilidades de observação e estudo do Universo, que cresceu extraordinariamente em seus limites e em sua beleza;
– as pesquisas feitas em condições artificiais, tais como em temperaturas extremamente elevadas ou extraordinariamente baixas, em pressões muito altas, ou no vácuo quase absoluto;
– a física dos sólidos, que mostrou ao homem que a matéria é constituída, em todos os seus aspectos, da forma mais espetacular.

Na Biologia e na Medicina, em que estão sendo feitas coisas realmente fantásticas, tais como os transplantes e curas de moléstias que eram consideradas como invencíveis e fatais.

Na Astronomia, em que o homem ultrapassou a fase dos corpos celestes como unidades, para entrar na época em que já conta a existência e estuda a formação e os movimentos das galáxias.

Na Química, na Agricultura, nas Ciências da Terra, nas Ciências Sociais, em Arte, em Literatura, cresce de maneira surpreendente o cabedal de realizações e de informações que precisam ser reunidas, analisadas, estudadas, resumidas e, sobretudo, organizadas para serem colocadas, de forma adequada, a serviço de toda a humanidade.

Esta é, apenas, uma pálida e limitada imagem do bibliotecário como guardião, zelador ou conservador do patrimônio cultural que nos foi legado pelo passado, que foi reunido, no tempo e no espaço, pelos povos de toda a Terra. Nobre, difícil e valiosa é também a tarefa que lhe compete como divulgador, hábil e oportuno, das informações reunidas e das obras científicas, literárias e artísticas de que lhe cabe cuidar. É difícil ou quase impossível superestimar-se tão elevada missão.

Crescendo o registro dos conhecimentos científicos, tecnológicos, artísticos, literários, cresce, consequentemente a dificuldade e a importância da Biblioteconomia e Documentação como profissão. Cumpre aos bibliotecários conviver e cultuar a memória dos filósofos, dos artistas de todas as Artes, dos cientistas de todas as Ciências, dos literatos de todas as Letras, dos historiadores de todas as épocas e de todos os assuntos, enfim de todos os que criaram, imaginaram, compreenderam, investigaram, escreveram, ensinaram e, até mesmo, dos que simplesmente compilaram, para fazer com que continuem sempre a auxilia à criação, à imaginação, ao descobrimento, à invenção, ao ensino e à educação; para fazer com que continuem sempre a estimular o pensamento em todas as suas formas pura e construtivas, de modo que a humanidade cresça em Saber, em Bondade, em Justiça, em Amor, em Liberdade e, sobretudo, em Felicidade e Paz.

Lembro-me sempre, com sagrado horror, dos livros, das obras de arte, da poesia e da história que foram, desgraçadamente, destruídos pela incúria dos homens, por suas guerras, por seus preconceitos, por sua intolerância, por seu fanatismo. Outros seriam o bem-estar e a fortuna intelectual da humanidade se Isso não tivesse ocorrido tão frequentemente e em tão enorme dimensão.

É portanto, assim que vejo a BIBLIOTECONOMIA, em suas tarefas, e os BIBLIOTECÁRIOS, em sua gloriosa missão.

Que devemos fazer para facilitar e aperfeiçoar o cumprimento de nossas tarefas? Quais serão as metas das Bibliotecas e dos Centros de Documentação nos próximos 30 anos?

É externamente sedutora a posição do visionário, daquele que estuda e idealiza o futuro; daquele que pode ser considerado como o programador do progresso. Pelo menos, acredito que essa posição, no que se refere à Biblioteconomia não seja das mais difíceis.

Os norte-americanos, já há alguns anos, num trabalho semelhante, construíram, com o concurso de numerosos bibliotecários e técnicos em automação, a Biblioteca 21, em Seattle.

Que apresentava essa Biblioteca norte-americana de extraordinário? O pavilhão da Biblioteca, da Feira Mundial do Século 21, incluía num bloco circular, de linhas arrojadas, um computador eletrônico UNIVAC, da Remington Rand, que fornecia determinadas informações com a maior rapidez.

Para que o leitor não ficasse assustado, ante as perspectivas de uma Biblioteca do futuro, onde pareceria não haver lugar para os livros, foi montada, o segundo bloco destinada à Biblioteca, uma coleção de referência que funcionava da firma tradicional. com, aproximadamente, 1.000 obras selecionadas, atendidas por um grupo de bibliotecários que procurava demonstrar a eficiência das bibliotecas atuais e futuras.

Não conhecemos bem o sucesso que obteve essa primeira demonstração, objetiva, da Biblioteca do ano 2000. Acredito que não tenha sido muito grande, ou quase nenhum. Serviu, talvez, apenas, para divulgar as possibilidades da automação da informação a serviço das bibliotecas. Nessa biblioteca faltava muita coisa de essencial que não poderia ser improvisada, nem substituída pela atuação de um computador. A Biblioteca 21, conforme foi concebida pelos norte-americanos parecia apenas um sistema de educação programada.

Serão assim nossas Bibliotecas, daqui a trinta anos? Quero crer que não.

Quisera eu possuir uma “máquina do tempo”, para visitar uma Biblioteca do ano 2000.

Aparentemente, não veríamos grandes diferenças. Com exceção, talvez, de encontrarmos bibliotecas com melhores instalações, em ambientes maiores, mais centrais, com mobiliário de linha mais simples e colorida. Com certeza, as novas instalações das bibliotecas serão beneficiadas pelo aperfeiçoamento da técnica de iluminação dos interiores e pela divulgação de materiais de construção e de decoração interior de mais fácil limpeza e conservação.

Contudo, graças a Deus, nas belas salas das bibliotecas futuras deverão ser encontrados os nossos livros de hoje e mais aqueles que serão produzidos de agora em diante. Os livros existem desde as épocas mais remotas; cresceram em número com a invenção da imprensa e continuarão a crescer em número até o século 21 e nos séculos futuros. Naturalmente, o progresso da Ciência e da Tecnologia não poderá privar o homem do prazer extraordinário de ler um livro, de folheá-lo, examiná-lo, de relê-lo tantas e tantas vezes quanto o desejar, anotando as mesmas palavras, as mesmas frases, os mesmos ensinamentos. Evidentemente, no futuro, não seremos privados dos nossos bons e silenciosos mestres. Sabemos, portanto, de antemão, que encontraremos ainda, na Biblioteca do futuro, quilômetros e quilômetros de prateleiras cheias de livros, a aguardar, pacientemente, inteligências curiosas e interessadas em aprender. Mas, certamente, estarão os livros abrigados em estantes limpas e accessíveis, em sua maioria, controladas mecanicamente, como já pode ser feito hoje em dia. Para retirar um livro da estante e remetê-la ao leitor em perspectiva, é suficiente que seja apertado um botão, no balcão de controle da sala de leitura, e o livro é deslocado, automaticamente, e transportado em caixas de plástico, em esteiras rolantes, chegando, em poucos minutos, às mãos do leitor. Esse processo já está em uso em algumas bibliotecas norte-americanas mas, para que milhões de volumes sejam agasalhados dessa maneira, serão necessários ainda bastante tempo e dinheiro. Com certeza, no ano 2000, teremos conseguido essa revolucionária melhoria em nossas bibliotecas.

A grande e significativa diferença que prevejo, nas bibliotecas do ano 2000, será encontrada na parte relativa ao controle dos assuntos de que trata a documentação reunida.

E impossível pretendermos continuar selecionando, registrando, catalogando, classificando as ideias, as informações contidas na documentação impressa, segundo os processos tradicionais. Todos sabemos isso. Não é novidade. A prova é que, de há muito, vêm sendo estudados novos sistemas de arquivamento e recuperação da informação. O caminho para a solução desse problema foi indicado, há bastante tempo, e vem sendo percorrido rapidamente.

Os computadores, em modelos especialmente adaptados para o trabalho de documentação, serão, com certeza, a grande e benéfica solução do bibliotecário de amanhã.

Atualmente, os computadores são utilizados em larga escala, para a composição de bibliografias correntes e de catálogos. A Bibliografia Brasileira, editada pelo IBBD, constitui experiência significativa nesse sentido. Tudo indica que, no ano 2000 centrais de informações funcionarão, compondo catálogos gerais, que estarão a serviço, indiscriminadamente, de todas as bibliotecas e centros de informação, mesmo dos mais especializados.

É por isso que aponto sempre — e continuo a indicar — a cooperação entre bibliotecas como a forma mais eficiente e progressista do trabalho bibliotecário:

1) o controle e domínio na literatura existente dependerá, essencialmente, da cooperação entre bibliotecas;
2) a localização das obras desejadas também dependerá, fundamentalmente, da cooperação entre bibliotecas;
3) a utilização da documentação existente, por meio de empréstimos, ou pela obtenção de cópias fotográficas, também dependerá, principalmente, da cooperação entre bibliotecas.

E tendo tudo isto em vista, que acredito que, no futuro, as bibliotecas serão mantidas por grupos de entidades que trabalhem em assuntos afins, ou serão custeadas pelos cofres públicos, como sistemas de bibliotecas a serviço de toda a comunidade e perfeitamente integradas num programa comum.

Serão muitos e maravilhosos os equipamentos eletrônicos utilizados para a comunicação de ideias e para a troca de dados e de informações. Circuitos fechados de televisão e de telecomunicação, para contatos orais e para a transferência de textos e de figuras, constituir-se-ão a maravilha do mundo bibliotecário e documentário do amanhã.

Deve-se esperar que a reprografia, conjugada à telecomunicação, seja utilizada em larga escala.

Precisa-se de um texto, procura-se o sistema de bibliotecas da cidade, pessoalmente ou através das formas modernas de telecomunicação — TELEFONEVISÃO — e o texto desejado será entregue, pessoalmente, pelo correio, ou por telegrafia especial. Pode-se esperar que o texto transmitido apareça numa tela e seja automaticamente reproduzido no local a que se destina.

Será bem mais fácil estudar, pesquisar, produzir com o auxílio dos futuros sistemas de bibliografia e telecomunicação, mantidos pelas bibliotecas do porvir.

O problema das traduções automatizadas estará, então, plenamente resolvido. Será, assim, simples e rápido o atendimento de um pedido feito pelo nome do autor, pelo título e assunto, com a determinação da língua desejada. Mesmo que, em futuro não muito distante, venha a ser utilizada, neste planeta, uma só linguagem para a Ciência, para a Técnica e para as comunicações educacionais em geral, haverá sempre o problema das línguas que tenham sido utilizadas no passado, em relação à documentação que lhes corresponde.

A eletrônica representa a grande esperança dos estudiosos e dos bibliotecários dos tempos modernos e, principalmente, dos tempos futuros e não muito distantes.

A telecomunicação também poderá auxiliar muito a reuniões. Talvez, daqui a trinta anos, sentados em nossas poltronas, instalados confortavelmente em nossas casas, possamos fazer funcionar nossos aparelhos de TELEFONEVISÃO sintonizados de comum acordo, e possamos dar início a congressos brasileiros de Biblioteconomia e Documentação ou mundiais de Sistemas de Documentação e Informação Científica Intercontinentais.