Como a UFRJ foi parar na Ilha do Fundão

[trecho de “UFRJ: subsídio à sua história” de Francisco Bruno Lobo. Publicado pelo Serviço Gráfico da Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1980.]

Duas palavras sobre a Cidade Universitária. Uma portaria Ministerial datada de 17 de setembro de 1935 criou o Escritório do Plano da Universidade. Este escritório esteve subordinado a uma Comissão, nos termos da Portaria de 19 de junho do mesmo ano, para elaborar um Plano da Universidade Nacional que permitisse, simultaneamente, a Instalação da Cidade Universitária.

A organização deste Escritório Técnico foi reexaminada, posteriormente pelo Ministro da Educação e foi assinada a Lei nº 447 de 20 de outubro de 1948, que abriu crédito especial para a realização das obras e referiu-se expressamente ao Escritório Técnico da Cidade Universitário da Universidade do Brasil, o ETUB.

A partir de 1949 o ETUB passou a funcionar sob a orientação da Comissão Supervisora do Planejamento da Cidade Universitária da UB — a CSP — que posteriormente ampliou-se transformando-se na Comissão Supervisora do Planejamento e Execução, a CSPE.

Criar Comissões, ampliá-Ias, reduzi-Ias, não foi difícil. Difícil foi escolher o local para a construção da Cidade Universitária.

Um arquiteto italiano, Marcelo Piacentini, foi convidado pelo governo e, em 10 dias, apresentou relatório expondo estudos topográficos que realizara sobre os terrenos em cogitação, isto é, da Praia Vermelha, Quinta da Boa Vista e adjacências, Leblon, Gávea, manifestando sua preferência em primeiro lugar pela pela Praia Vermelha e em segundo pela Quinta da Boa Vista.

Após vários estudos realizados pela Comissão governamental foi aprovada pelo Governo a escolha da Quinta da Boa Vista e adjacências, isto é, a zona compreendida entre a Quinta, as ruas São Francisco Xavier, São Luiz Gonzaga e morro do Telégrafo, sendo este ocupado em sua totalidade. Esta solução não agradou à Comissão que, então, propôs ao Governo outra localização. Queria fosse construído em pilotis sobre a Lagoa Rodrigo de Freitas, local até então não cogitado. Le Corbusier, chamado a opinar, opinou, mas não solucionou o problema. Entretanto, o projeto foi afastado e foram escolhidos os terrenos integrantes da Vila Valqueire, em Jacarepaguá. Apesar disto continuou a ser examinada a possibilidade da localização na Quinta da Boa Vista, desta vez incluindo os terrenos do antigo Derby Club, sem que estes estudos conseguissem afastar a ideia da Vila Valqueire.

“Noves estudos foram realizados para escolha do terreno (em virtude da oposição à localização na Vila Valqueire) visando Manguinhos, Ilha do Fundão e outras adjacentes. Ilha do Governador, Niterói, proximidades de Maricá, etc. Até os exíguos terrenos que margeiam o morro da Viúva e já carregados de prédios foram sugeridos e examinados, pretendendo-se novos aterros que quase fechariam a entrada da bela enseada de Botafogo. Nesta nova fase, Manguinhos teve o primeiro lugar”. (E. Souza Campos. Universidades. Cidades Universitárias. São Paulo, 1945).

Finalmente, em 1944, o DASP tomou o empreendimento a seu encargo pretendendo, agora, lançar a obra nas ilhas do Fundão, Pindaí do Ferreira, Pindaí do França, Bom Jesus, Sapucaia, Baiacú, Cabras e Catalão, a serem reunidas por meio de aterro. Feito o aterro a Ilha Universitária do Fundão deveria ficar com uma área de 5.596.000m², mas de acordo com dados atuais tem aproximadamente 4.500.000m² de área útil.

A Ilha do Fundão, situada ao Sul da Ilha do Governador, é a que Candido Mendes diz, segundo Monsenhor Pizarro, a Ilha dos Gatos. Com seus 1.300 metros de comprimento é conhecida há muito dizem Abreu Lima em sua História do Brasil e De Simoni nos seus “Gemidos Poéticos”, ter sido em sua costa que se afogou o valoroso Ararigboia.

A Ilha do Bom Jesús, Coqueirada ou dos Frades, tinha 2.500 metros de extensão. Nela os Franciscanos tiveram um convento construído nos primeiros anos do Século XVIII. Este convento foi aproveitado para Hospital da Marinha e posteriormente abrigou os lázaros durante as obras realizadas no Hospital de São Cristóvão. Serviu também como depósito para colonos e Hospital para coléricos, quando da epidemia que assolou o Rio de Janeiro. Em 1867 foi adaptado para servir de Asilo aos Inválidos da Pátria e a um Museu Militar. Uma parte serviu, no Governo de Arthur Bernardes, como prisão para presos políticos .

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Em 1964 a Lei nº4.402, de 10 de setembro de 1964, transferiu para a Universidade os encargos das obras e serviços de implantação, ocasião em que foi reformulado totalmente o Plano Diretor da Cidade Universitária, de acordo com a reforma já em elaboração.

Depois disto a Universidade recebeu dotações que permitiram acelerar as obras . Em decorrência disto o Hospital Universitário pôde ser parcialmente terminado e já está em funcionamento.

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Necessitando, porém, a Universidade de sede condigna, pois não podia continuar em salas da rua Uruguaiana, o Reitor Pedro Calmon reivindicou e conseguiu fosse cedido à Universidade o prédio do antigo Hospital de Alienados, na Praia Vermelha. Recuperou o belo e monumental edifício, que se encontrava praticamente em ruínas, e lá instalou condignamente a Reitoria. Passou a ser o Palácio Universitário.

Entremente continuavam as obras de construção da Cidade Universitária no Fundão. Obra ciclópica, ainda não terminada. Mas as obras continuam.

Posteriormente foi criada a Comissão Especial Supervisora de Aplicação de Recursos — CESAR — integrada pelo Reitor, seu presidente, e representantes dos Ministérios da Educação e Cultura, Fazenda, Planejamento, um representante do Conselho Universitário e um membro de livre escolha do Reitor que seria o vice-presidente. Seriam atribuições desta Comissão cuidar dos assuntos pertinentes às obras, fluxograma de recursos e aplicação dos mesmos. Seria assessorada por uma secretaria e uma contabilidade, tendo como órgão executivo o Escritório Técnico da Universidade — ETU — supervisionado pela Sub-Reitoria do Desenvolvimento.

No momento a Universidade Federal do Rio de Janeiro — UFRJ — ex-Universidade do Rio de Janeiro, ex-Universidade do Brasil, já instalou na Ilha do Fundão a sede da Reitoria, provisoriamente em prédio destinado a unidades do Centro de Letras e Artes e várias outras unidades. Note-se que 65% das obras projetadas já foram terminadas. E o Hospital está funcionando de forma primorosa.

Visando enriquecer a Cidade Universitária com instituições científicas ou culturais, completando ou integrando as próprios atividades da Universidade, mediante convênios de cessão de uso de áreas de terreno, já estão ali (localizados ou em construção) o Instituto de Engenharia Nuclear da Comissão Nacional de Energia Nuclear, o Centro de Pesquisas e Desenvolvimento da Petrobrás, o Centro de Pesquisas da Eletrobrás, da Companhia Vale do Rio Doce e da Companhia de Pesquisas de Recursos Minerais.

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