Como um livro deve soar? E as notas de rodapé?
Por Andrew Newman
Quando David Foster Wallace, lendo a versão audiobook [livro gravado em áudio] de sua recém publicada coleção de ensaios “Consider the Lobster” (Time Warner Audiobook) chega a uma das muitas notas de rodapé, os ouvintes podem sentir necessidade de ajustar o volume — sua voz soa instantaneamente distante, como se ele tivesse caído em um poço. Então, terminada a nota de rodapé, sua voz retorna, também repentinamente, ao normal. Mas não mexa no volume. A manipulação de voz para o qual o produtor de audiobooks John Runnette utilizou um “filtro de fone”- um efeito de retorno de voz usado em novelas de rádio — foi uma tentativa de convencionar a densa e discursiva prosa das notas de rodapé de Wallace.
Ou como ele diz na introdução do audiobook, “às vezes eu uso notas de rodapé nesses ensaios, o que representa um grave transtorno para um audiobook: onde colocar as notas de rodapé? Não existe um final de página em um audiobook, obviamente”.
Para Runnette, com experiência de 15 anos na gravação de audiobooks e ganhador de três prêmios Grammy, essa é a primeira vez que ele tem que refletir sobre como soa uma nota de rodapé. Mas a indústria incessantemente aplica uma dessas questões que exigem pensamento rápido. Como é o som de uma ilustração? Ou um gráfico? Um mapa? Uma foto? Uma página em branco?
Já que um audiobook é essencialmente uma performance, existe mais diversidade de opção do que uma resposta certa. Outra produção, a novela de Susanna Clarke, “Jonathan Strange & Mr. Norell” também gravou notas de rodapé. Como Wallace, o narrador do livro, Simon Prebble, lê as notas de rodapé sempre que aparecem, mas o produtor, Paul Ruben, não alterou sua voz. Ao invés, o narrador diz “nota de rodapé” antes de pronunciá-las por completo. As notas possuem sua própria faixa no CD. Os ouvintes que desejam ouvir as notas não devem fazer nada. Aquele que querem pular as notas podem apertar o botão para a próxima faixa.
Na revisão dessa gravação, o AudioFile, revista bimestral que cobre a indústria, elogia o narrador, mas colocou que as notas copiosamente acadêmicas de Clarke forçam Prebble a interromper diversas vezes, alterando a fluência da narrativa. De fato, em suas próprias leituras, Clarke simplesmente pula as notas, diz Yelena Gitlin, publicitária da Bloomsbury, a editora do livro. Em leituras públicas, Wallace opta por pular as notas de rodapé, lendo como se elas estivessem junto ao texto principal, ou — na “pior das hipóteses” — quebra as notas dizendo “início da nota” e “fim da nota”.
“Eu gasto mais tempo tentando fazer com que a escrita se adapte à gramática na página do que como uma pessoa respirando e transpirando, lendo, para uma audiência”, disse Wallace, com sua voz de som inusitadamente rodapediana. “Muitas poesias são escritas para fluírem com a respiração, e ser capaz de ouvir o poeta ler é um tipo de revelação e torna a poesia mais viva. Mas com certos escritores narrativos literais, como eu, nós queremos que a escrita soe como uma voz mental, como o som da voz dentro da cabeça, e a voz mental é rápida, é ausente de respiração, se sustentando gramaticalmente ao invés de sonoramente”.
Tão único é o senhor Wallace, que tem 43 anos, em relação a como o trabalho parece sobreposto a como soa, que em sua primeira leitura pública no final dos anos de 1980, ele “ditava a pontuação”, lembra: “Eu lia uma vírgula e dizia ‘vírgula’. Ou eu diria ‘novo parágrafo’ e ‘recuo’. Agora olhando para trás eu posso ver que tipo de silêncio isso significa para mim”. Em uma parte de “Consider the Lobster”, Wallace encontra reticências e lê “ponto, ponto, ponto”, o que os produtores dizem ser prolixidade [verboten?]. “Parte disso se deve ao fato de eu não ser um ator e não saber como me desvencilhar, me tornando de certa forma um autista”.
Nos resumos, onde até 70% de um livro é comprimido, as curiosidades tipográficas são destroçadas antes. Mas a editora Recorded Books nunca faz resumos, forçando sua produtora executiva, Claudia Howard, a lutar contra cada página. “Um audiobook é um monólogo que deve permanecer intacto” ela diz. “O problema é que um livro não é um monólogo. A parte visual deve ser trabalhada de alguma maneira, então você gasta quantidade de tempo tentando transformar as imagens em palavras”.
No início de “The curious incident of the dog in the night-time”, está a passagem: “Quando eu conheci Siobhan, ela me mostrou esse desenho”, que é um smile face invertido e abaixo dele o texto: “e eu sabia que isso significava ‘triste’, que foi como eu me senti quando encontrei o cachorro morto”. Na versão da Recorded Books, o narrador, Jeff Woodman lê: “quando eu conheci Siobhan, ela desenhou uma face, e eu sabia que era uma face triste. E triste foi como eu fiquei quando encontrei o cachorro morto”.
“Extremely loud & incredibly close”, que a Recorded Books produziu em 2005, foi um obstáculo, cheio de fotografias, páginas em branco e outras páginas ilegíveis. Onde está escrito “isso foi tudo o que vi”, seguido de três páginas em branco, um dos narradores, Richard Ferrone, lê: “Isso foi tudo o que vi: página em branco, página em branco, página em branco”. Em um capítulo que tem no título as palavras “botas pesadas” rasuradas e “botas mais pesadas” embaixo, outro narrador, Woodman, lê: “Botas pesadas. Não, botas mais pesadas”. (A senhora Howard explica que “nós poderíamos ter dito ‘Botas pesadas — que fora rasuradas. Botas mais pesadas’. Mas isso tiraria o ouvinte do monólogo”)
Quando um personagem se pergunta “qual é o resultado da minha vida?”, uma seqüência de dígitos se estende por duas páginas e meia. Ferrone lê os primeiros 15 números e — ainda bem — substitui “e seguiu e seguiu” para o restante. Howard explica: “Ler tudo aquilo teria durado sete ou oito minutos, o que seria uma ótima maneira de espantar o público. Os leitores enxergam e percebem o ponto do autor bem rapidamente”. A gravação ignora fotografias e páginas ilegíveis.
Em sua versão impressa, o livro de Jon Stewart, “América”, foi apresentado como um livro texto — cheio de tópicos de discussão e projetos para exercício — mas como um livro como esse [acadêmico] soa? John McElroy, que produziu o livro para TimeWarner AudioBooks, introduz atividades em sala de aula tocando carrilhão, remanescente de filmes educacionais. E ao invés de tratar sua audiência como “ouvintes”, Stewart abre com um sarcasmo: “bem-vindo não-leitor”.
O narrador de “The pleasure of my company”, livro de 2003 do comediante Steve Martin, cria quadros elaborados da vida do autor. Quando Martin lê o livro para a gravação da Hyperion AudioBooks, ele simplesmente as descreve.
E a introdução de “Quebrando o Código da Vinci”, de Darrel L. Bock, adverte os ouvintes a “ver glossário” para “ter certeza de onde você está”. Mas como anunciado em uma revisão no audiobookcafe.com, web site dedicado a livros gravados, a gravação não possui um glossário. (A editora Oásis Áudio não havia percebido o erro até que esse reporte anotasse, e rapidamente puseram o glossário disponível no site).
Em alguns casos, os editores estão contornando o problema inserindo elementos gráficos em cds adicionais que podem se vistos no computador ao mesmo tempo em que se escuta o livro. Mas como isso funciona na prática é uma questão em aberto: de acordo com uma recente pesquisa da revista AudioFile, 53% dos consumidores de audiobooks escutam os livros enquanto dirigem.