Cruyff era uma pessoa justa

Só vi Cruyff jogar em vídeo, mas quem viu, diz que ele era incrível. Agora, dá pra fazer uma análise interessante no depoimento carinhoso do Romário: o Cruyff “era uma pessoa justa”.

Ele também era uma pessoa justa. Lembro que eu sofria um pouco pela distância de casa. Naquela época, eu era o único jogador do Barcelona de fora da Europa. Ele, então, me concedia alguns dias a mais de folga para que eu pudesse descansar em casa.

Faltou dizer que ele, Romário, não recebia folgas a mais que os colegas simplesmente porque morava longe do trabalho, mas sim porque no dia de jogo, independente das folgas e noitadas, marcava 2, 3 gols. Ou seja, o chefe reconhecia sua habilidade fora de série e estabelecia essa condição.

Esse senso de justiça só faz sentido se o resultado for evidente (estou me sentindo meio liberal hoje, então vamos chamar “meritocracia”). Se do contrário o Romário recebesse folgas mesmo sendo improdutivo em campo, os colegas eventualmente questionariam por que não recebem folgas equivalentes, independente das suas próprias atuações nas partidas. E aí a desigualdade estaria estabelecida.

Cruyff, chefe e craque, praticante do futebol total, sabia que justiça não é sinônimo de igualdade, então assumia o risco.

No pior cenário, destes que a gente encara todos os dias, na política, no trabalho, na academia, na sociedade enfim, existe desigualdade promovida pela ausência de justiça, quando um grupo de jogadores, às vezes fora de série, às vezes medíocres, estabelece para si privilégios, sem que exista um sistema de justiça artificial para equilibrar (ou dirimir) esses privilégios entre os demais jogadores.

No âmbito individual, acho que falta um pouco de empatia e senso crítico dos medíocres ou fora de séries em perceber como que provocam a situação de desigualdade ante os colegas ou pares. Mas é muito mais problemático quando o sistemão reforça essa atitude e se isenta da responsabilidade de promover o equilíbrio e a justiça “social”.

Não dá pra extrapolar muito, mas me chama atenção que o jargão midiático no Brasil mudou em poucos anos, de “impunidade” para “corrupção”, o que me parece no mínimo, um passo atrás. Porque a corrupção, em determinados níveis, é resultante de uma justiça que não elimina desigualdades e que não pune (no Brasil, muitas lei, pouca punição. Ou lei e punição apenas para os sem-privilégios). E que termina por nutrir ainda mais corrupção.

Criou-se uma geração inteira de chinelinhos. Agora não adianta chorar 7 x 1.

Um salve pro Cruyff, jogava fino.