Uma Verdadezinha

Dei por mim, olhando para as páginas do livro que lia e sentindo as letras passarem de dentro do papel para atrás dos meus cristalinos, como onda de luz que perpétua se começara dentro de alguém, fora pra fora e agora está dentro de mim. Mas estava sozinha com todas aquelas letras em volta da minha cabeça, tantos pensamentos soando feito acordes que camuflavam a verdadeira face da minha solidão. Não contente, fui até o banheiro, lavei o rosto e transpirei meu sentir: peça do quebra-cabeça sem encaixe que estivera zanzando até agora, poderia eu? finalmente encontrar um espelho ali. E cuspi no vidro. Da saliva, vinha escorrendo meu rosto borbulhando de oxigênio caçado pela boca que num golpe grosso, feriu-me quase intransitivo. Silenciosa eu olhava o vidro embaçado e ouvia as vozes do outro cômodo como em serenata ululando meu sumiço do resto do resto. Num pequeno espaço vazio, cheio de mim, me dei conta do fluxo dos meus lutares anestesiados. O tempo estava começando a se dar conta que eu o havia parado quando olhei de volta ao vidro babado e encontrei alguém: gritei. Em susto, o vulto fez a careta mais esdrúxula e azeda, mas voltou a fitar-me. Em choque, quis o silêncio descendo meu esôfago; quanto mais fluía, mais eu perdia a sensação de ser alguém. Era errado, era completamente vazio, desfeito-tempo!, mas eu, sendo nada, parada no desenrolar da paredes para perto de mim, rolava os olhos parados na esteira destruída dos instantes. A luz era amarela. O toque esfriado e molhado me deu dimensão: e se eu atravessasse-a? Transpor-me a barreira da própria solidão, obrigando-a a ser minha companheira, amarga que costuma ser, presa e captada somente com a presença parda de um bulbo elétrico ligado e um vidro tratado para dizer mentiras fórmicas. Tentei dar-lhe a mão; quentinha e macia, descascada do sol e do vento, mas ainda convidativa. Os dedos, mexendo conforme eu estendia o braço — Parei. Respirei. — até o fundo dela, ali. Jubilei com o não. Clivamos juntas à impossibilidade de tal encontro. Pensei em todas as músicas que cantaríamos se pudéssemos não ser uma, ou mesmo todas as estórias que inventariamos e contaríamos e riríamos e comeríamos e cozinharíamos e beberíamos e viveríamos. Mas ela só pôde olhar de volta pra mim e me acompanhar numa triste derrocada aquosa ocular, onde o único consolo era o pedacinho ligeiramente mal-cortado de papel higiênico branco; e seco. Respirei fundo e fechei os olhos: devo vê-la se estiver aqui dentro! mas escuro. E se eu saísse um pouco de órbita? Se pudesse largar um pouco a casca e ir transpor o vidro? Como energia flutuante de um corpo sentado no chão, me olhar e me abraçar para sorrir, talvez? Pois qual o medo de tentar? Retornar, seria? Quantos pontos de interrogação até sair e descobrir eu mesma que já não havia reflexo. Mesmo transpassado o espelho, ela já não estava mais ali. Presas! e ao mero sinal de luz, notei minhas garras; cada uma na ponta de cada dedo… que rasgasse a pele e deixasse escapar meu intenso desejo de estar junto! E um pingo rubro grosso ferrôneo e mortífero escorreu, como que descesse uma escada pelas dobradinhas e juntinhas da minha pele. Ela também desistiu. Mas pelo menos estávamos ali. Enquanto eu estivesse ali, ela não estaria sozinha, a não ser que a luz apagasse e nos deixasse na única escuridão possível de mim mesma: meu só e único som vital cu-tum-cutum acordeando-se em desarmonia, me indicando um único estar vertiginoso; frágil, mas inegavelmente existente companheira Solidão.

Estive escondendo a vontade de fazer com que a solidão estivesse sempre ao meu lado porque pode parecer extremamente ruim e amargo para outras pessoas, mal sabendo elas que seria leve como pena carrega-la comigo onde vou. O som das conversas e cochichos, juntos com os segredos criados com as minhas costas dadas, aquele, doloroso, me incomoda mais. (E) a coragem de dar este passo passou por mim conforme acendia a luz novamente, para olhar com mais clareza. Se os dias fossem como correntes de vento de verdade, eu talvez ficasse levada por eles, esperando a resposta para os surtos que acometem minha psique, mas quem diria que o cuspe ainda estaria ali: minha marca preciosa de tentativa e tentativa e vã tentativa. Porque se fosse ali, o extremo de mim viveria explodindo como bexiga, já que de mim nada vaza. Se dura minha pena é e tenho que lhe dar por carregada, não me importaria cortar as mãos e que soco! soco! quebrasse ela em pedacinhos na minha frente. Sem coragem de ver, fiz. As mãos agora sentiam o ardor de realizar o maior desejo; concretizei. Gozei. Descia quente o sabor da vitória sobre mim mesma conforme os estilhaços, outrora unidos, se desagrupavam pelo chão: eu remexia seus cacos e apanhava o maior. Tive medo de tê-la matado, mas lá ela estava: ainda a olhar para mim aflita como se jamais tivesse sido golpeada. E com carinho, ela me perdoa. Que dura é tu agora, Solidão, se estás caída em pedaços no chão? Ridícula. Senti-me. Apalpei os braços me pintando de vermelha, mas o sorriso leve e despreocupado ainda cobria o rosto dela. Manchei-a pegando-a nas mãos como um bebê. E um bebê tão agressivo que acabara de nascer, cortando levemente meus braços conforme eu a carregava até a cama. E sinos vieram cobrir meus ouvidos de tontura e inconsciência. Venci. Trouxe-a para mim, embalada, fiz carinho em suas bordas até que pequenas rachaduras se abrissem nas pontas dos meus dedos e banhassem ela da minha vida. A cama estava se tornando eu, rubra de vergonha ela, por ter negado o que me era de direito. Ter comigo mesma a mim, deitada e estilhaçada como sou, afagada pela dor em anestesia; a sensação de me ter nos braços, perdoada pela violência antes guardada em sorrisos. E para cada olhar que viesse observar meu coito com a solidão, eu apenas piscaria e sorriria, já que agora eu a posso tocar e abraçar e esquece-la logo depois, se assim quisesse. Tocar-me, olhar-me; ser sozinha com ela em meu colo e apenas desfrutar da companhia suave dos vazamentos que ela me proporcionava. Enfim, vazia, sonhei sob o pedaço de espelho assim que as luzes dormiram, esperando que ao acordar, o sol me deixasse vê-la mais uma vez antes de fazer ataduras nas caricias que ela me fizera, a noite toda.

Me assusta, me deixa apavorada, perdida, atordoada. Leve feito onda que oscila em Z, vagante pelas ruas dos meus próprios pensamentos já que estes ainda não me deixaram; o sopro de vida, indício que ainda enche meus pulmões com ar todas as vezes que me dou por acordada. Mas sozinha, ainda, amei meu fragmento de espelho porque ele era ela, disfarçado de mim.