Quando bipolaridade passa do ponto

O azedume tem se tornado uma constante menor. Mas quando chega, aff…

Lá se vão 33 dias desde que tomei a decisão de largar o cigarro.

eu, no caso, sou ela. ele é o cigarro. foto: site Cultura Mix

Talvez não tenha ficado claro em meus textos anteriores, mas o cigarro forjou toda a minha personalidade. Tenho uma amiga que odeia cigarro e que odeia que eu diga isso com tanta sinceridade. A história dela com o cigarro é uma história ruim, pois a mãe fuma e ela identifica o cigarro como bloqueio para a relação entre as duas.

Mas o fato é que, nessa hora, eu não consigo me colocar no lugar da filha, e sim no da mãe. O fato é que minha geração de amigos está tendo filhos cada vez mais tarde e são poucos os que os tem, como eu. E eu já não me coloco mais no lugar do filho na hora do conflito geracional, mas no lugar do pai, pois hoje eu sou bem mais pai do que filho.

Quando o meu nasceu, decidi sumariamente que ele não veria o pai dele fumando.

aham Cláudia, senta lá. foto: reprodução Youtube

Durou uns pouquíssimos dias e ser pai é uma experiência tão inédita, tão inovadora, o ser humano novo só sabe chorar e o meu veio com um plus energético para o desenvolvimento dessa atividade e um mega fone afiado. E lá estava eu, novamente, fumando um cigarrinho pra relaxar.

Ah, mas tudo é desculpa então?

Siiiim. Tudo. Absolutamente tudo. É assim que nos relacionamos com o mundo. Tô feliz? Fumar. Triste? Fumar. Efusivo? Fumar. Deprimido? Fumar. Aí, belo dum dia, já de volta ao trabalho com o filho com pouco mais de um mês e meio de vida, juntamos um mesão pra tomar um café à tarde. Fui acender um cigarro. Uma amiga me solta:

Pode fumar à vontade, você não ama mais seu filho mesmo, né? Porque o discurso de que pararia de fumar era cheio de amor, então já que não parou, não tem amor também.

Meu cu.

Primeiro: você desconfia levemente de como é o amor de pai e filho quando você tem um sobrinho. É o caso das duas amigas aqui citadas. Ambas, daquelas tiazonas mesmo, sabe? O lance é que eu sei como é isso. Meu sobrinho já tinha três anos quando meu filho nasceu e eu não só o vi nascer como vivi com ele até completar seu primeiro ano, quando me casei. Não adianta comparar. Você não tem a menor ideia do que é a capacidade de amar de um pai para um filho. É quase impossível descrever, e aí a natureza foi sábia o suficiente pra manter esse mistério de amor entre os envolvidos. Vale, provavelmente, para filhos adotados, mas não tenho legitimidade pra falar a respeito por eu mesmo não ter um. Mas é mais ou menos assim:

1 — me jogaria facilmente na frente de uma bala, um fuzil, um trabuco ou debaixo de uma bigorna para salvar sua vida

2 — seria capaz de sentir qualquer dor para evitar que ele as sinta

3 — posso matar qualquer ser humano ou ser vivo que o esteja ameaçando também. se eu for bem sucedido, vou preso sem peso na consciência

É após o filho que você reconfigura todas as definições sobre limites que você tenha na sua vida. Além de ganhar uma bateria extra de energia que te impulsiona a fazer muito mais coisas, afinal, tem alguém pra sustentar agora.

O meu objetivo aqui nem é entrar tanto na qualidade da educação que dou a ele, mas como já escrevi esses três tópicos aí, cabe dizer que estou falando, obviamente, de situações extremadas. Meu objetivo é, sim, dizer que tá errado medir amor de pai/mãe para com o filho com a régua que se mede o vício.

Ah sim, o vício.

foto: blog Dominio Brambilla

Se fosse mera escolha, você acha que alguém escolheria ser viciado em cigarro?

Quando dei meu primeiro trago, 20 anos atrás, havia ainda uma atmosfera subversiva no cigarro e os adolescentes mais revolts eram os que fumavam. Mas também foi quando as campanhas anti-tabagistas começaram a ganhar força. Logo, eu sei do alcatrão, do monóxido de carbono, da nicotina, do enxofre, da pólvora, dos outros 436 mil tóxicos presentes, desde que comecei a fumar. E todos sabem. Os que fumam e os que não fumam.

eu sei, kiridinha(o). foto: reprodução Youtube
Ah, se sabe, então você é MUITO IDIOTA pra continuar

Só pra pegar leve: idiota, idiota MESMO, é julgar o coleguinha. Você provavelmente toma Coca-Cola, consome açúcar em excesso, não regula a alimentação, canastra na academia, fala mal dos outros ou é chato pra caralho. Uma dessas coisas faz, pelo menos, sabendo que não é bom. Então, bora crescer e parar de achar isso? Vício é irracional, físico e psicológico e qualquer argumento racional não surte efeito nenhum. Ok?

Ok. CHEGAAAAAAAAA!!! foto: site Ultra Curioso

Então tá, chega. Esse texto foi escrito só pra pedir desculpas pro meu povo do teatro. Ontem eu acumulei problema em casa + abstinência e, no bar pós-teatro, fui dum azedume desnecessário com alguns dos meus migos. Apareci no snapchat da @fefacentra (perfil do Twitter) sendo bem chato, e por coisa besta. Fiz a Tiana achar que tava sendo, ela, a chata e inconveniente. Nos falamos por mensagem de zap, ainda bem que tá tudo bem, mas se você for conviver comigo pelos próximos tempos, já antecipadamente, te peço:

foto: Lisa Images/Shutterstock, aqui (clique)

…………………………………ME DESCULPA?