A depressão me deu uma criança

Ketyanne Silva
Nov 4 · 3 min read

Isso mesmo

Antes de tudo essa não é uma história para romantizar a depressão ou demonizar a maternidade, é sobre as várias faces dessa doença e sobre todas as realidades do se tornar mãe.

Para começar 2012 sem sombras de dúvidas foi um dos piores anos da minha vida, foi tanta coisa fora do controle que estava dando errado que acabei desenvolvendo uma das piores faces da depressão, a auto destruição ou como minha psicóloga um dia disse “comportamento de risco”, eu entrei em um túnel de vício sexual tão intenso que eu tinha vários parceiros sexuais, pouco prazer nas relações mas muito prazer no risco.

Meu desempenho acadêmico beirou a 0, eu quase reprovei um semestre, ia bem no estágio pois tinha uma pequena consciência de que precisava pagar o aluguel, comia tão mal que minha anemia por pouco não me matou, conversava pouco com as pessoas, estava sempre irritada e mentia compulsoriamente, na época não tinha acesso a tratamento mesmo já tendo sindo diagnosticada com depressão,ansiedade e uma vez com distimia anos antes, eu não estava em tratamento, meu tratamento era sexo e seus riscos.

Não podia pagar por ajuda profissional e a psicóloga que o Sus tinha me encaminhado parecia incapaz de entender qualquer uma de minhas emoções, desisti dela, desisti dos remédios, conseguia Rivotril de formas clandestinas e só os tomavas em casos extremos de picos de ansiedade e pânico.

Tive um relacionamento abusivo que acabou um pouco antes desse quadro, o que pode ser um dos fatores que o desencadeou , eu tinha 22 anos e tudo era sentido ao extremo, eu já tinha sobrevivido a 3 tentativas de suicídio e não tentaria outra vez, o sexo com estranhos era meu suicídio,as violências que sofri que me faziam sentir uma culpa tão profunda que trazia a tristeza e com ela mais situações de risco.

Conheci o pai da minha filha em uma situação bem idiota, transar com ele era a vingança ao meu ex que nem sabia o que estava acontecendo comigo, na minha mente essas ações o atingiria, silenciosamente eu torcia para qualquer um dos caras com que eu transava me matasse, mais isso não aconteceu claramente, ao contrário, eu engravidei, eu sei exatamente o dia, porque foi o último, meu quadro começou a estabilizar e eu parei repentinamente de ver meus “companheiros sexuais”, naturalmente voltei a ter noção da realidade, foram dois meses em que vivi interpretando uma personagem, robotizada e que tinha acabado.

Um dia acordei vomitando, e eu sabia que estava grávida mas não quis aceitar, fiz o teste uma semana depois, deu positivo, eu tinha acabado de voltar a “normalidade” aquilo me destruiu, tentei alguns procedimentos abortivos que deram errado, então desisti de abortar, desisti de comer e emagreci 15kg, só vomitava e passava horas no escuro do meu quarto, apesar disso me arrastei para um pré-natal onde eu mais irritava a G.O do que fazia o que tinha que ser feito, escondi a gravidez por 7 meses de todo mundo, só minhas colegas de apartamento que sabia, eu não ia muito para aula, fui demitida do estágio, e um dia quando minhas colegas de apê tinham que voltar para casa dos pais me forçaram a ir pra casa da minha mãe, elas não confiavam em mim sozinha, na real eu causei um grande estresse nelas também, hoje fazemos piadas disso.

Fui pra casa da minha mãe, tive várias infecções urinárias, meu ginecologista me acusava de rejeitar a criança, com 8 meses quase a perdi, dias internada “para segurar”, fugi do hospital, 5 dias depois pari uma linda menina, meu quadro depressivo melhorou, pelos 2 anos seguintes.

Hoje ele ainda é oscilante, mas consigo identificar os sinais, nunca mais tive compulsão sexual, ao contrário, hoje tenho tanto medo de sexo que evito ao máximo.

As pessoas acham que depressão é só tristeza, cansaço, irritação e preguiça, as pessoas acham que por fim a vida depressiva é só com o suicídio, existem tantas formas de se matar em vida, os vícios… as drogas, o álcool, a violência,a submissão, as compulsões, enfim, tantos. Eu só quis contar esse relato para novamente alertar, alertar sobre as pessoas a sua volta, como elas realmente estão se comportando? e você? como estão suas atitudes? sua rotina?

Hoje tento ser uma boa mãe, com isso tento não me matar todos os dias, tem dias que falho e morro de algumas formas, mas continuo tentando porque minha filha merece, e você porque ainda tem tentado?

Ketyanne Silva

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Escrevendo sem saber o porquê.

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