O uso de “choro” como argumentum ad hominem

Para quem assiste a série Girls In The House, a referência é a personagem Duny. Eu me identifico com ela. Muito. Não tenho paciência, e grande parte disso devo ao fato de ter tido uma vida majoritariamente presente dentro do mundo real. Comecei a utilizar computador e internet em 1995. Sabia que a primeira rede social foi o mIRC? Pois é, eu o utilizava. Em 1999, já tinha meu ICQ. No começo dos anos 2000, já tinha o Windows Messenger, posteriormente chamado de MSN. Mas somente em 2004 que o Orkut surgiu em minha vida e, só pra lá de 2006~2007, que isso tudo começou a ter uma relevância no mundo real.

Sabe como as coisas são resolvidas no mundo real? No olho no olho. Não tem como fingir ser o que não é. Ou você é desbocado e impaciente, ou você é tímido e quieto. Claro que há áreas cinzas, mas falarei de extremos, porque essa é a diferença do mundo virtual e o real: os extremos são mais visíveis no olho a olho do que por trás de uma telinha.

É um tanto quanto óbvio constatar que as novas gerações, habituadas a viver em um mundo virtual com uma personalidade, mas sendo covardes no olho a olho, passam a maior parte do tempo da formação de suas personalidades e caráter por trás de telas. E isso é um saco. Não sou do tipo velho de ficar falando “ah no meu tempo era melhor”. Não, não era. Era pior até. Porque a dominância era pelo mais forte. A opressão era maior. A internet é maravilhosa. Grupos se unem em prol de melhorias, muitos tabus são expostos, debatidos e direitos sempre renegados passam a ter que ser reconhecidos. Só que, como tudo na vida, vai do uso que você faz. Um xamanista que utiliza entorpecentes alucinógenos com fins espirituais costuma obter muito mais positividade disso do que o cara urbano que utiliza para fugir da realidade, tornando-se viciado e muitas vezes destruindo a própria vida. Tudo vai do uso. A internet, bem como a droga, são somente ferramentas.

Mas me irrita. Como me irrita. Você diz: “olha, isso tá errado por A + B + C”. Resposta: “O CHORO É LIVRE HUEHUEHUE”.

Pensamento automático que vem depois disso. Isso se não é dito.

É uma tática covarde você querer utilizar a fala da outra pessoa contra ela mesma, mas é válida, se usada com inteligência. Mas chegamos a uma infantilidade tamanha que se você falar “opressão”, vão partir pra “HUEHUE TUDO É OPRIMIDO AGORA. VAI LÁ MORTADELA. HUEHUEHUE”.

Os jovens, de idade ou de mente, não sabem discutir. Simplesmente pelo fato que a grande maioria deles nunca PRECISOU discutir. É muito simples a vida virtual: incomodou? Bloqueia. Irritou? Deleta. E partem em direção às suas ilhas de fantasia virtual onde você seleciona seu ambiente ao redor até chegar ao ponto que todos pensam como você.

É isso que o algoritmo do Facebook faz. Você sabia? Se ele percebe que você curte muitos posts políticos de determinada ideologia, como por exemplo, posts mais ligados à “direita”, ele vai ocultar posts de “esquerda”, e só aparecerão posts de “direita” para você. Resultado? Ilha da fantasia. Por que o ódio? Porque se você passa dias, semanas ou meses recebendo só A como assunto, e de repente surge um aleatório com um assunto B, esse B torna-se minoria na sua ilha de fantasia, e como essa geração trata a minoria/diferença? Xingando e, posteriormente, bloqueando/deletando.

Isso me preocupa. Isso me preocupa seriamente. Porque até aí, beleza. Mas o que aparenta estar saindo disso é um mundo extremamente retrógrado e conservador, onde as coisas se resolvem na porrada. Sabe quando as coisas se resolviam na porrada? Justamente antes da liberdade de expressão que ferramentas como a internet propiciam. Mas é uma porrada nova, fantasiosa. Não é a violência do mais parrudo da turma, é a violência do mais psicótico, onde ele posta: tem que bater, tem que matar mesmo. E toda sua trupe o segue, tal qual o rebanho segue seu pastor. E, ainda pior: não há discussão. Não existe argumentação. Você não curte o que a pessoa está dizendo? Você diz: o choro é livre. Chora mais. Fica no sarcasmo, na ironia, na passivo-agressividade. Isso é covardia. Isso é mau-caratismo. E isso é incentivado pela nossa sociedade.

A diferença e a diversidade são válidas. Vou te contar um segredo, sabe como é uma das melhores formas de você desenvolver sua criatividade e ter novas ideias? Perguntando a opinião de uma pessoa que você detesta, não suporta. Afinal, você a odeia por julgá-la alguém muito diferente de você. Logo, ela pensa de uma forma diferente de você. E o que é criar algo novo se não observando as coisas por uma perspectiva diferente?

Eu realmente acredito que nenhum sentimento é certo ou errado. Eles não existem para serem classificados e julgados, existem para serem sentidos. Por isso é abstrato, por isso é um sentimento. Se fosse pra ter certo ou errado, não seriam sentimentos.

Então o ódio é sim válido, bem como a tristeza, o medo, e tantos sentimentos que nossa cultura costuma desprezar e tentar afastar. Mas precisamos analisar o que os gera. Não julgá-los, mas validá-los, senti-los. Na maior parte das vezes, o ódio nada mais é do que uma projeção de um lado oculto de si mesmo.

Isso explica a homofobia, por exemplo, que é o confronto entre dois homossexuais: o que se assumiu para si mesmo e o que não se assumiu para si mesmo.

Afinal, se você não é homossexual e está seguro disso, por que iria querer causar algum tipo de malefício a quem é? Sendo bem primitivo e bárbaro na argumentação, seria o mesmo que dizer que “há menos concorrência para você”.

Mas quando o mundo incentiva a criação da covardia, mau-caratismo e o uso de uma tela como fator que permite que você seja um monstro real, um demônio onde pode soltar toda sua negatividade sem pensar nas consequências, o que acontece é um retrocesso de tudo que ciências como a Filosofia conquistaram ao longo dos séculos: a racionalidade humana.

Não há nada de racional em contra-argumentar alguém com “chora, chora mais”. É perder a oportunidade de ficar calado. É mostrar que você não possui respeito por si mesmo, porque é um atestado de burrice, de QI baixo.

A regra das mídias sociais é agir pensando no que os outros pensarão de nós, ao invés de gastar essa mesma energia pensando na sua opinião sobre si mesmo. É necessária uma validação.

E se você quer ser visto pelos outros como alguém ignorante, burro e de mente limitada: ok, vá em frente. Podem até te apoiar e dar risada, mas por dentro, é isso que pensarão de alguém assim.

Mas se você quer evoluir como ser humano e ser alguém, no mínimo, digno: pare de pensar tanto sobre o que os outros pensarão de você, e comece a pensar mais em si. Se você quer sentir os outros, você precisa saber sentir a si mesmo primeiro.

A vida é movimento, e uma postura passiva é sobrevida, é sobreviver, não é viver.

Só você pode se aprimorar, ninguém fará isso por você. E pelo jeito que anda o mundo, o mais difícil que você irá encontrar por aí é alguém que irá querer te ajudar a ser alguém melhor. Se a batalha é solo, comece o quanto antes. Colhemos o que plantamos, e eu espero, do fundo do coração, que você não precise colher os frutos de ser alguém de mente limitada para aprender a lição. Sinta. Permita-se sentir medo, tristeza e ódio. Mas entenda-os, não os renegue por ter uma ferramenta que te permite fazer isso.

Mas, com sorte, você encontrará alguém como eu e a Duny. Que ao invés de ter covardia da ilha da fantasia, não irão devolver na mesma moeda da passividade-agressiva que não leva a nada, ou pior, ao escárnio irracional. Não são santos, possivelmente mandarão com gosto um ou outro

Contudo, irão explicar o porquê. E, no meu caso e de muitos outros, continuarão abertos ao debate saudável com base na troca, desde que a abertura para isso seja mútua, obviamente. [;

O choro pode até ser livre, mas infelizmente a interação inteligente está bem encarcerada.