Este país não é para jovens.

(e outras divagações sobre o ensino superior e o mercado de trabalho em Portugal)

A experiência de ser um jovem habilitado na casa dos 20 a tentar iniciar uma carreira profissional em Portugal é, no mínimo, caricata.

Ainda vais a meio do segundo ano do teu mestrado integrado de cinco, e já discutes com os teus colegas o quão desempregados vocês vão ser depois disto tudo. Dão-se uns risos, nervosos, de quem só pode brincar com a ansiedade que será veres-te, após largos e angustiantes semestres (em que a tua dieta diária — por força da propina — passa a ser, basicamente, noodles japoneses do Pingo Doce), na fila de horas de um qualquer IEFP a assistir aos teus sonhos e esperanças a desintegrarem-se a cada sinal sonoro que anuncia a próxima senha.

Esta é a realidade dos jovens portugueses. Gostaria de estar a exagerar, gostaria que fosse uma ficção. Mas é um conjunto de histórias reais que tenho ouvido e reunido ao longo do tempo desde que integrei o ensino superior. Histórias essas que me assombraram e que foram tornando-se minhas também.

A taxa de jovens diplomados em Portugal é alta. Por comparação, em 1991 registava-se um total de 18.671 jovens diplomados em Portugal. Em 2015 registou-se um total de 76.892 jovens diplomados no nosso pais (Fonte: DGEEC/MEd — MCTES, PORDATA, 2016). Em 24 anos quadruplicámos esses valores e, correlacionada estará, ou não, a taxa de desemprego que subiu de 4,6% em 1990 para 12,4% em 2015 (Fonte: INE, PORDATA, 2016).

As ligações entre estas estatísticas não são foco deste artigo, não sei sequer o suficiente de economia para indagar sobre esses assuntos. O que eu sei é o que sabe o jovem diplomado de “20 e tal anos” empurrado para “o bolo” dos 12,4%. O que eu sei, e bem, é a desvalorização desse mesmo jovem neste país. O que eu sei é que não há, ou não querem que haja, dinheiro para pagar por trabalho especializado. O que eu sei, é que nos doze anos de escolaridade básica e secundária fomos impingidos e inquietados com a ideia de termos que escolher aos 14 anos uma área de estudo que vai definir o nosso rumo profissional; que temos que ter boas notas nos exames para a média de acesso à faculdade; que temos que ir para a faculdade ou não vamos ter nenhum emprego prestigiante; que quem não vai para a faculdade é um “perdido”, um “sem rumo”, um “desocupado”. E para quê? Para no final de tudo, de termos feito tudo o que devíamos ter feito porque é assim que se deve fazer, nos disserem que somos sobre-qualificados para ingressar uma vida activa. Que há muitos diplomados e este país não chega para todos. Que não “trabalhas porque sais caro”.

Nem o próprio Kafka descreveria tão bem a injustiça, o bizarro e a distorção como o jovem português que se vê cingindo a esta conjuntura. Os jovens diplomados são os novos parasitas da sociedade. Mortos-vivos que se arrastam de estágio curricular em estágio curricular, entrevista em entrevista, a mendigar oportunidades, a correr atrás tal e qual os zombies da televisão que correm atrás de cérebros, com a mesma “fome”, o mesmo desespero, a mesma agressividade (latente) e o coração padecente.

O jovem diplomado português raramente é bom para alguma coisa. A não ser trabalhar “de borla”. Porque é importante ganhar experiência. Mais importante ainda é o que a empresa poupa por ter alguém que sabe de facto fazer o trabalho sem ter que lhe pagar. Porque ele, o jovem, precisa é de ganhar experiência. E experiência ganha, passa bola, soma e segue, e chama-se outro. E ficas tu, “cheio de experiências” na fila do centro de emprego.

Quando vês, angustiadamente, que a tua única hipótese de teres um sustento mínimo é resignares-te à moda dos callcenters, das door to door e outras vendas no geral, percebes que, após o impacto emocional de tudo o que tens passado e da sensação de incompletude já quase patológica, não podes queixar-te. Não podes. Não podes achar que mereces melhor. Não podes sequer ansiar, perspectivar, desejar por mais. Porque “com o desemprego que há em Portugal? Devias é dar-te por feliz por teres alguma coisa!”.

E vês-te assim, meio caminho dos 20, meio caminho dos 30, forçado a conformares-te pois todo o teu esforço, tempo útil, empenho físico e emocional valeram zero para a economia deste nosso Portugal. Porque, como disse Garrett, “o país é pequeno e a gente que vive nele também não é grande”, e tu, sim tu jovem diplomado de 20 anos, não podes ser grande também.

RF

Referências: