Protege-te, mulher!

O perigo da vagina para a sociedade actual.

Vivemos na Era da democratização sexual. E apesar disso, continuamos a abordar certos tópicos tal e qual como o faríamos há 60 anos atrás, na altura em que a violência doméstica era “coisa de marido e mulher”, que o abuso sexual era silenciado, que se ligava directamente a virgindade de uma mulher ao seu carácter. Isto não se passou há 60 anos, desenganem-se; isto passa-se hoje.

A nível sexual (e não só) o papel da mulher está estagnado nas mesmas concepções pré-históricas de sempre. É mulher é livre, até certo ponto, sendo geralmente esse ponto o que une o desconforto do outro com a sua liberdade. E o desconforto manifesta-se de várias formas, mas a principal é o julgamento, aquela capacidade bacoca de atribuir rótulos que ficam por tempos infinitos cravados na pele da mulher.

Ao mesmo tempo que agraciamos a “virgindade”, cada vez mais exigimos do sexo feminino uma afirmação da sua sexualidade. Cada vez mais queremos mulheres independentes, que sabem o que querem e que buscam o que querem. Nenhum homem quer uma mulher frígida (o quanto detesto esta expressão), uma puritana, uma estrela do mar. Mas ao mesmo tempo, tememos as mulheres resolvidas, as mulheres entendidas e que sabem o que fazer para obter aquilo que pretendem.

E vê-mo-nos assim, como mulheres, presas a este limbo que ora cai para o yin, ora cai para o yang, e nunca tem a oportunidade de ser um todo. Apoiamos com veemência a pratica do obscuro, da hipocrisia, do “podes falar mas não aqui”, “podes fazer mas não comigo”, “podes ser mas às escondidas”. A dissimulação sobrepõe-se à verdade porque a verdade é incómoda e não se guia pelos padrões arcaicos que são ainda enaltecidos.

São esses mesmos padrões que culpam a mulher vítima de abuso sexual de usar uma saia curta, como se uma saia fala-se mais alto que as palavras que saem da nossa boca, como seres humanos dotados de raciocínio e vontade própria.

Nenhuma mulher em situação alguma está “a pedir”. Não está a pedir a mulher de decote, nem a de calção, nem a de vestido justo, nem a de saltos altos, nem a que faz jogging nua pela calçada. Nenhum homem em situação alguma “não se consegue segurar”, porque a evolução, segundo Darwin, permitiu-nos a aquisição do controlo básico sobre os nossos impulsos, permitiu-nos continuar a tê-los mas com a capacidade de os racionalizar e isso impede-nos de atacar fisicamente a outrem. Somos uma forma evoluída dos macacos mas não somos símios na altura do cio.

O problema é que a sociedade continua a preconizar a ideia de que a mulher vítima é uma mulher que “pede”, a mulher que merece por não ter tido o discernimento de se proteger. Sim, na sociedade actual continuamos a dar mais relevância à educação para a protecção, que damos ao educar para o não abusar — mais importante, para compreender o que é um abuso. Dizemos às nossas raparigas que devem ter cuidado na noite e não se devem embriagar, mas não avisamos os nossos rapazes do perigo de se envolverem com alguém embriagado e sem total capacidade de tomar decisões, e as respectivas implicações morais e emocionais para ambas as partes. Dizemos às nossas raparigas para não andarem muito expostas mas não explicamos aos nossos rapazes que independentemente da sua indumentaria, todas as mulheres têm no seu corpo um templo que não deve ser invadido (física ou verbalmente), que padece de um convite formal para ser transposto e não está à mercê de vontades ou desejos de outros.

E a mesma sociedade que exige o recato feminino, exulta-se contra “Leis do Piropo”, ou outras que tal, porque o pudor é bonito, mas é só para alguns.

E quem acha que o piropo não ofende nunca foi a menina de 13 anos ou a mulher de 33, invadida pelas palavras que têm bem mais se escárnio que de «elogio», porque são palavras que doem, incomodam, e é nessa situação que te apercebes o quanto podem fazer-te sentir suja, arrastada para uma intimidade ilusória e apesar disso tão agressiva que te faz ficar para sempre alerta, que te faz mudar de lado da rua, que te faz pensar duas vezes quando olhas para o teu armário, que te faz antecipar e defender de cada olhar mais ou menos fixo, mais ou menos intenso.

Quem não compreende a legislação do piropo não compreende a violência emocional. Não compreende a vivência feminina. Não compreende a história da Mulher. E acima de tudo não se compreende como um ser humano capaz da reflexão que está para lá do chauvinismo intitulado.

Ter vagina é ainda um perigo e requer coragem. Só deixará de o ser quando pararmos de exigir das mulheres que se defendam e começarmos a exigir da sociedade que pare de nos atacar.

RF