Vinte e poucos anos.

Minha relação com o tempo nunca foi das melhores. A sensação de tempo perdido, de continuar perdendo tempo, de não ter a possibilidade de voltar para corrigir ou reviver momentos, o envelhecimento, tudo isso sempre me apavorou desde o primeiro momento que tenho recordado em mente. Lembro de ouvir os mais velhos proferirem “há quarenta anos me casei”, “somos amigas há mais de trinta anos” e essa sensação de tempo decorrido me causava imenso pavor.

Já me disseram que ou envelhecemos, ou morremos. E é verdade. A ideia de morte me apavora mais ainda, mas isso é assunto para um outro dia. Hoje é o momento de falar das minhas duas décadas e dois anos. Daqui a dois meses completo vinte e dois anos. Vinte e dois. Vinte e dois. Vinte e dois. Esse maldito número ecoa na minha cabeça como uma sentença. O tempo continua passando, continuo com a sensação de perda e mais perdida que aos dezoito, quando achava que sabia de tudo, mas não sabia de nada. Continuo não sabendo de nada, mas hoje tenho consciência disso. E isso é desolador.

Passei boa parte da minha vida com a certeza de que seria médica, dermatologista, para ser mais exata. Aos quinze me dei conta de que era muito boa em redação e gostava de português. Tá aí, vou fazer Letras. Caramba, não quero ser professora. Direito. Vou ser promotora. “Vai ser uma ótima advogada”, eles diziam. Mas o coração batia forte mesmo nas aulas de literatura. Vai ser Letras, tá decidido. E foi Letras, terceiro lugar numa das melhores universidades. Futuro promissor, tudo para dar certo.

Deu tudo errado. Melhor dizendo, saiu tudo completamente fora do planejamento. Novamente minha relação com o tempo surge das cinzas para me atazanar. Se não tivesse largado a faculdade duas vezes, já estaria adiantada, encaminhada. Mas como proceder como já não se sabe mais o que fazer, nem do que se gosta? E o tempo não para até que consertemos nossos corações, curemos nossas feridas e decidamos que caminho seguir. Vinte e dois anos.

Com vinte e um anos e dez meses já não me sinto mais tão nova quanto deveria sentir. Os erros do passado são como espíritos que não conseguem desencarnar e encontrar a luz, o medo do futuro me aprisiona numa rede de incertezas e hoje já não sei mais do que gosto e do que não gosto. Mas sei o que não suporto: não gostar mais de nada. Às vezes sinto a obrigatoriedade de já ter sucesso aos vinte e poucos, ou ao menos algum tipo de perspectiva. As certezas que tinha aos dezoito desapareceram, todo aquele encanto que só a maioridade proporciona já se dissolveu.

Não sei se terei crises de idade novamente aos vinte e três ou só aos trinta, mas a crise dos vinte e dois chegou para provocar questionamentos: ainda há tempo para a preguiça, a falta de foco, para desistir na primeira dificuldade, para ainda não conhecer a glória de conquistar algo pelo próprio sacrifício? Que daqui a dez anos, durante a minha crise dos trinta e dois, eu consiga olhar para o tempo decorrido sem me apavorar e pensar que valeu a pena toda a confusão desses malditos vinte e poucos anos.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.