As redes sociais como espaço de autonomia

Desde 2013, vemos o surgimento de uma onda de protestos e ações coletivas de ocupação de espaços públicos nas cidades brasileiras. Para o meio acadêmico, surgiram diversas oportunidades de pesquisa procurando compreender qual o papel das redes sociais nestas manifestações coletivas e o que motiva tantas pessoas a saírem deste ambiente virtual e tomarem as ruas com suas reinvidicações. Para iniciar este debate, trazemos algumas discussões trazidas por Manuel Castells em seu livro Redes de indignação e esperança onde analisa o papel das redes em grandes revoluções ao redor do mundo, gerando a percepção de diversos fatores comuns apesar das distantes realidades.

Primeiramente, entendemos aqui as redes sociais como um espaço de autonomia onde a lógica do consumidor de mídia passivo é quebrada para dar espaço a um co-autor com ferramentas disponíveis para criar conteúdo e passar adiante de forma facilitada. Sabe-se que os canais de comunicação de massa, como a televisão e rádio, estão a priori a serviço do Estado e de grandes empresas gerando uma manipulação simbólica através da construção de um ideal de sociedade e de pautas de opinião pública que vão na mesma direção dos interesses das classes dominantes. Assim sendo, a mídia tradicional entra como mais uma instituição moldada conforme os valores e interesses dos detentores do poder.

Neste sentido, o ciberespaço funciona como um espaço seguro, por garantir um certo anonimato e afastamento físico das instituições de poder, onde o usuário pode participar de comunidades que discutam suas pautas de interesse e superar o medo do confronto com a violência inerente à qualquer manifestação. Nas redes sociais temos as ferramentas que propagam estes eventos e todas as emoções a eles associadas, propiciando um encontro caloroso de insatisfeitos que a partir da união transformarão este sentimento em um positivo como a esperança de mudança.Segundo Castells, esse medo de estar só lidando com a coerção por parte das instituições é superado a partir de percepção de um grande grupo de indignados que transformam este medo no entusiasmo da mudança social. A partir dai, a raiva(emoção) se transforma em ação e a ocupação de espaços, através da manifestação física das pessoas nas ruas acaba por ocorrer carregando o simbolismo de que a rua pertence aos manifestantes e que sua pauta será ouvida.

O que ocorre nestes grupos é a sensação de um empoderamento individual ao ver sua opinião refletida nos demais e da formação de um grupo relativamente coeso no que diz respeito a sua indignação. Por este grande potencial transformador, Castells afirma que as redes sociais e de telefonia celular não são somente ferramentas, mas formas de organização e expressões culturais que servem de maneira satisfatória para a autonomia política.

Por fim, podemos dizer que historicamente nas revoluções a noção desta dicotomia entre o medo(desespero) e esperança sempre se fez presente, sendo que o primeiro faz a revolução necessária e o segundo transforma a revolta em um movimento visionário capaz de transformar de fato a sociedade. Na era do ciberespaço vemos ainda mais oportunidades de potencializar estes sentimentos ambíguos e complementares através destes novos espaços de autonomia e agrupamento de esperanças coletivas.