Por que (ainda) voto em Marina?

Moysés Pinto Neto
Sep 22, 2018 · 5 min read

No século XXI, estamos diante de um "fim de mundo" cujas características são tão evidentes quanto negadas. O "fim do mundo" é a constatação de que a alavanca que movimenta nossas sociedades para o progresso não cabe mais dentro do planeta. Em outras palavras, continuar considerando que o crescimento econômico— motor para a justiça social, a redistribuição de renda, o enriquecimento ou a meritocracia, como se queira — é possível ao infinito é ignorar os limites materiais que o Planeta dispõe.

Apesar de comprovada por mil e uma razões, das mudanças climáticas à vida insuportável nas metrópoles congestionadas, o tema insiste em não integrar nossos debates políticos.

É como se simplesmente não existisse.

Por todo o mundo, a onda populista ignora simplesmente qualquer dimensão ecológica na maneira de pontuar os problemas e. quando propõe um modelo alternativo, é para voltar no tempo numa distopia reacionária. Os tecnocratas que controlaram o ciclo político até 2011 igualmente agem como se não houvesse limites — na melhor das hipóteses, compartilham um certo otimismo tecnofílico que permitiria superar os obstáculos objetivos derivados da simples proposição de que um modo de vida como o levado pelos norte-americanos precisaria de mais alguns planetas para existir.

Os povos que não compartilham nosso modo de vida sabem bem disso. Eles percebem que a Terra vai se despedaçando como um corpo exausto, minguando com a sucção da sua energia sem qualquer respeito aos ciclos que envolvem não apenas a diversidade cultural, mas a própria possibilidade de existência de novas gerações.

O discurso ambiental, portanto, não é de esquerda apenas. Ele pode ser de esquerda. Nesse sentido, o filósofo Slavoj Zizek está correto quando diz que a preservação do meio ambiente, embora compartilhada por movimentos sociais e críticos da sociedade contemporânea, não leva, por si só, a uma posição de esquerda. Apenas a inclusão da pauta da justiça social, ou da igualdade material (sociedade sem classes, etc.), seria capaz de diferenciar a esquerda da direita. Propostas como o "capitalismo verde" ou versão muito fracas da sustentabilidade seriam prova disso.

Zizek tem razão. A pauta ecológica não é só da esquerda. O que Zizek, no entanto, não parece deixar claro é que a pauta ecológica pode não ser condição suficiente, mas que é condição necessária para qualquer dos debates políticos. É o óbvio ululante constatar que sem planeta não tem justiça, distribuição nem riqueza para ninguém.

Portanto, em um certo sentido, a pauta ecológica realmente não é apenas de esquerda. Ela ultrapassa a própria polaridade — situada, tradicionalmente, no campo do sistema social — e envolve as condições de possibilidade para toda e qualquer transformação.

Quem afirma que a pauta é de esquerda é, paradoxalmente, a extrema direita. Utilizando técnicas de distorção e confusão, a extrema direita ideologiza temas que ultrapassam posições conjunturais e envolvem, por exemplo, saúde, ciclos biológicos, etc. Afirmar a lesividade dos agrotóxicos é de direita ou de esquerda? Essa pergunta deveria ser declarada nonsense. É irrelevante saber se a pessoa aposta num modelo conservador e tradicional, ou individualismo e meritocrático, ou solidário e transformador, para responder isso. A resposta é sempre a mesma, desde que feita com honestidade.

Mas as ameaças não vêm apenas da direita. A esquerda também continua tendo em seus quadros aqueles que associam ecologia aos hippies, como se fosse uma preocupação chique das classes médias e altas esclarecidas e nada tivesse a ver com o povo e suas necessidades prementes. Testemunhamos um ciclo entre 2008–2014 que nos mostrou essa experiência — e nada indica que os outros projetos seriam diversos.

Marina Silva é uma candidata que irá solucionar esse problema?

Claro que não. O problema envolve a própria viabilidade do capitalismo — assim como especulativamente dos seus modelos antagonistas — para dar conta do problema de que a prosperidade, hoje, se encontra enredada em mecanismos cuja reprodução absorve mais recursos da Terra do que ela pode aguentar. Ou, fugindo da metáfora antropomórfica, o equilíbrio que possibilitou a emergência e diversidade da vida se encontra ameaçado por outros estados cujos resultados não podem ter certeza — colocando em risco a própria vida como um todo.

As propostas de Marina estão, sem dúvida, muito aquém do que os desafios demandariam.

No entanto, Marina continua sendo a única das candidaturas que coloca o problema. Mesmo que as respostas possam ser ineficazes ou pequenas diante da questão, Marina ao menos a reconhece. É um começo.

Certa vez, um antropólogo (não cito porque é um manifesto pró-Marina, poderia ser desonesto fazê-lo) declarou que a crise do século XXI era uma oportunidade para o Brasil. Na medida em que todos os demais modelos entram em colapso e se veem inviáveis a longo prazo, dado o imaginário prometeísta e a ignorância sobre os impactos materiais da produção e consumo, se abriria para nós a janela de propor, com base na nossa experiência, outro modelo. Em vez das teleologias progressistas que colocam o Norte como nosso farol, poderíamos inventar um modelo com nossos valores, problemas e objetivos. Talvez até boa parte do mundo nos seguisse.

Sem dúvida, quando apoiamos Marina em 2010, nossa centelha utópica era imensa. Chegamos a ser apelidos pelos então governistas de "sonháticos" e "minorias com projetos ideológicos irreais". Produzimos a #ondaverde e dela emergiu também um ecossistema que mais tarde iria explodir quando somado a outros. A campanha de 2014 teve seus mil e um problemas, a começar pelo próprio fato de a candidatura não ter sido planejada, mas ainda havia alguma energia ali. Hoje, esse movimento está extremamente enfraquecido, quase morto.

Acho uma pena.

Não surgiu ainda liderança com a capacidade de articular esse problema — a imbricação entre ecologia, diversidade e projeto de desenvolvimento — com a mesma energia.

A meu ver, Marina praticou uma sequência de erros conjunturais, táticos e estratégicos ao longo dos últimos. Fez apostas erradas no seu público e na articulação de um centro político. Seu partido é um fracasso organizacional e político, apesar da contribuição para algumas cassações importantes na Câmara, como no caso de Eduardo Cunha.

Com todos esses erros, ainda daria para justificar o voto?

Eu justifico.

Acho que Marina tem como mediar, desde que reconhecida sua legitimidade por uma votação expressiva, segmentos diferentes da sociedade em torno a um projeto comum. Não é tão radical quanto o projeto que gostaria, mas ao menos é um projeto que vai na direção certa.

É por isso que, apesar de não achar a liderança mais talentosa na articulação política, formação de alianças, estratégia comunicacional e mesmo nas posições conjunturais, continuo com Marina. Apostando que é possível que ela possa, com o apoio popular, iniciar um processo de desenvolvimento no Brasil que não seja apenas baseado na inflação de números, mas na qualidade de vida; que não extermine nossa diversidade humana e não-humana, como fez quando reduziu drasticamente o desmatamento na Amazônia e com a demarcação de terras indígenas e quilombolas; que possa colocar em diálogo novamente quem não suporta mais viver dividido por uma fratura fake que divide quem poderia trabalhar junto (observados os limites disso); enfim, acho que Marina mereceria uma chance de governar o Brasil porque consegue equilibrar de modo inteligente muitos campos e ideias antagonistas sem cair no vazio, articulando a sustentabilidade como eixo que estruturaria uma virada de página cujos efeitos poderiam contaminar o mundo inteiro.

    Moysés Pinto Neto

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    Blogueiro, escreve normalmente sobre política, música, futebol, filosofia e outros temas próximos. Migramos do blog 'O ingovernável' para essas bandas.

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