Ainda não estou pronta?

Mozana Amorim
Jul 28, 2017 · 3 min read

Ontem eu conversava com uma amiga, fazendo chover ideias e mais ideias para um projeto nosso. À certa altura do papo, ela me disse que não se sentia preparada: “Ainda não estou pronta. Ainda falta aperfeiçoar…” .

Nesse instante, eu pensei que ela já era fabulosa naquilo que faz e não tinha mais nada que precisasse dominar que não o medo de mostrar o seu talento ao mundo. E fiquei refletindo sobre quantas vezes a gente empaca, achando que ainda falta aprender ou saber algo mais para, somente então, estar preparado para o próximo grande passo? O nome disso? Auto-sabotagem. Ou medo. Sim, senhoras e senhores, damos tanto ouvido ao medo-paralisador-de-novos-caminhos que congelamos a informação preciosa do que vivemos e aprendemos até o ponto onde já estamos. Acho que a gente nunca vai estar completamente preparado para nada. Sempre estamos a caminho, chegando, passando, atravessando.

E nesse estado gerúndio a vida acontece, como pode acontecer.

Claro que precisamos de aprofundar, estudar e aprimorar. Não seremos levianos, sem dúvida. Porém, aprender mais é processo da vida inteira.

Desde que eu me tornei consciente disso, aliviei o peso que dava ao não saber cem por cento determinado assunto. Também eu acreditava que somente após o total e completo domínio de um tema, assinado por um ainda mais top mega especialista, eu teria o direito de fazer ou falar sobre aquilo. Eu estava equivocada.

Ainda hoje, escrevendo este texto, lembrei do meu saudoso amigo Cícero, uma da pessoas que muito cedo me estimulou a escrever. Ele insistia que eu deveria seguir em frente com a escrita. E um dia eu falei a ele que não me sentia preparada, que não gostava de mostrar a muita gente porque tinha vergonha de não ser boa naquilo. E ele, com seu sempre olhar profundo e sensível, me disse: “Mô, às vezes o que te parece pouco, pode ser grande para tanta gente, pode ser tudo o que aquela pessoa mais precisa naquele dia, naquele momento”. Nunca esqueci dessa conversa.

E se hoje eu partilho o que sinto e penso, devo muito a ele. E devo ainda à sede e à fome. As minhas, de fazer contato com o que me rodeia, chama e enternece. De emergir o que em mim transborda. De entregar o que me parece o meu melhor.

Que posso eu saber das outras fomes todas? Só sei que existem e as percebo. E também por elas escrevo. Nunca sei em que lugar intenso ou raso ela, a palavra chegará. Em que momento pode acertar em cheio a necessidade ou a festa. Apenas a deixo ir assim, como uma oferenda que se deita respeitosamente ao mar. Com toda a alma, e sem certezas.

Cada vez mais, é menos sobre agradar e mais sobre entregar de mim. Sim, eu quero que você goste de me ler. E ficarei feliz com isso. Mas, antes, bem antes disso, eu preciso ter me permitido me lançar, como num salto em queda livre, correndo todos os riscos e, a um só tempo, experimentando a delícia do vôo. Eu preciso ter reconhecido as minhas próprias asas antes de mostrá-las a você.

Por isso, eu entendi a minha amiga. E disse à ela que o mundo será menor sem as suas asas, sem o seu arriscado salto, desprovido de quaisquer garantias, e repleto da tessitura encarnada de suas vivências, e de seus erros e acertos. Que a boniteza mora justamente nesse friozinho na barriga que lembra que estamos aqui para experimentar este gerúndio de viver.

27.07.2017

#30textosem30dias

Mozana Amorim

Written by

Sou tantas. Comunicadora, astróloga e facilitadora. Inquietamente interessada no Humano. Levando a sério esse lance de escrever.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade