Ainda não estou pronta?

Ontem eu conversava com uma amiga, fazendo chover ideias e mais ideias para um projeto nosso. À certa altura do papo, ela me disse que não se sentia preparada: “Ainda não estou pronta. Ainda falta aperfeiçoar…” .
Nesse instante, eu pensei que ela já era fabulosa naquilo que faz e não tinha mais nada que precisasse dominar que não o medo de mostrar o seu talento ao mundo. E fiquei refletindo sobre quantas vezes a gente empaca, achando que ainda falta aprender ou saber algo mais para, somente então, estar preparado para o próximo grande passo? O nome disso? Auto-sabotagem. Ou medo. Sim, senhoras e senhores, damos tanto ouvido ao medo-paralisador-de-novos-caminhos que congelamos a informação preciosa do que vivemos e aprendemos até o ponto onde já estamos. Acho que a gente nunca vai estar completamente preparado para nada. Sempre estamos a caminho, chegando, passando, atravessando.
E nesse estado gerúndio a vida acontece, como pode acontecer.
Claro que precisamos de aprofundar, estudar e aprimorar. Não seremos levianos, sem dúvida. Porém, aprender mais é processo da vida inteira.
Desde que eu me tornei consciente disso, aliviei o peso que dava ao não saber cem por cento determinado assunto. Também eu acreditava que somente após o total e completo domínio de um tema, assinado por um ainda mais top mega especialista, eu teria o direito de fazer ou falar sobre aquilo. Eu estava equivocada.
Ainda hoje, escrevendo este texto, lembrei do meu saudoso amigo Cícero, uma da pessoas que muito cedo me estimulou a escrever. Ele insistia que eu deveria seguir em frente com a escrita. E um dia eu falei a ele que não me sentia preparada, que não gostava de mostrar a muita gente porque tinha vergonha de não ser boa naquilo. E ele, com seu sempre olhar profundo e sensível, me disse: “Mô, às vezes o que te parece pouco, pode ser grande para tanta gente, pode ser tudo o que aquela pessoa mais precisa naquele dia, naquele momento”. Nunca esqueci dessa conversa.
E se hoje eu partilho o que sinto e penso, devo muito a ele. E devo ainda à sede e à fome. As minhas, de fazer contato com o que me rodeia, chama e enternece. De emergir o que em mim transborda. De entregar o que me parece o meu melhor.
Que posso eu saber das outras fomes todas? Só sei que existem e as percebo. E também por elas escrevo. Nunca sei em que lugar intenso ou raso ela, a palavra chegará. Em que momento pode acertar em cheio a necessidade ou a festa. Apenas a deixo ir assim, como uma oferenda que se deita respeitosamente ao mar. Com toda a alma, e sem certezas.
Cada vez mais, é menos sobre agradar e mais sobre entregar de mim. Sim, eu quero que você goste de me ler. E ficarei feliz com isso. Mas, antes, bem antes disso, eu preciso ter me permitido me lançar, como num salto em queda livre, correndo todos os riscos e, a um só tempo, experimentando a delícia do vôo. Eu preciso ter reconhecido as minhas próprias asas antes de mostrá-las a você.
Por isso, eu entendi a minha amiga. E disse à ela que o mundo será menor sem as suas asas, sem o seu arriscado salto, desprovido de quaisquer garantias, e repleto da tessitura encarnada de suas vivências, e de seus erros e acertos. Que a boniteza mora justamente nesse friozinho na barriga que lembra que estamos aqui para experimentar este gerúndio de viver.
27.07.2017
#30textosem30dias
