Errar pode?

Quem nunca? Eu tenho medo de errar. E você? Já tive muito mais. E já foi bem dolorido reconhecer isso também.

Aprendemos que acertar é bom. Aliás, acertar é o certo. Errar jamais. Aplaudimos quem acerta desde cedo, nos primeiros passos da criança. Aprovamos quem diz o que tinha de ser dito. Assim foram desenhadas as avaliações das escolas. E desse jeitinho moldamos o nosso olhar: o certo encaixa. E errado destoa.

Caímos no intrincado jogo dos julgamentos, culpas, vexames e das bordas. Gente pra dentro e gente pra fora delas.

Assim nasce mundo separado. Quem cabe e aprova, quem desafina e cai fora. Em uma dualidade insossa, passamos a nos dividir nas categorias certo ou errado. Pena. Perdemos tempo pra caramba.

Hoje, com os modelos disruptivos ganhando espaço nos ambientes profissionais, o erro reconquistou um status que se diz parte do olhar estratégico: Erre logo, erre rápido, aprenda fazendo, aprenda errando. O erro passa a ser visto como algo bom de acontecer, necessário para ir mostrando caminhos e possibilidades de melhoria. Soa libertário pensar nisso, e é de fato, quando realmente existe uma cultura orientada para acolher o erro como parte do processo de crescimento das organizações. Na prática, no entanto, o comum ainda é se gastar horas infindáveis de reuniões, conchavos e feedbacks desregrados escarafunchando detalhes, culpados e porquês e punições. Conheci de perto espaços de culto à inovação com capacidade zero de olhar o erro como forma efetiva de aprendizado. No velho esquema teoria versus prática, a retórica serve para separar competentes de incompetentes, fiéis de inadequados, e criar abismos.

Precisamos reconsiderar nossa maneira de olhar para o erro e fazer isso de verdade. Dizemos que errar é humano, mas parece que isso só se aceita mesmo no dito popular. Na prática, a gente usa para excluir e rotular aos outros e a nós mesmos.

Errante é o ser que caminha. Ele está em movimento. Ele tenta porque vivo, porque potente, porque sabe que existe trilha, sempre haverá. Errar não deveria jamais ser fardo que envergonha, mas etapa de celebrar inteligência. O erro cava espaço de compreensões novas e com elas eu ganho horizonte.

Vida limitada a das certezas todas. Vida contida. Respostas, respostas, respostas. Antes disso, visitemos as perguntas. Subamos nas escadas que elas erguem e atravessemos para o lado de lá.

Onde viver é preciso, errar também é. E, se o errante se permite, desvenda dentro e fora, desprovido de fronteiras e escudo. Ele é mais fértil e criativo.

Para mim, hoje, pós-sofrência de não ser perfeitinha e levar todas, acerto e erro são apenas caminhos de chegar. Dois. Sem melhor ou pior. Sem drama ou festa. É algo assim como uma calma consciente de que tudo compõe. E que no final sempre foi sobre crescimento, descoberta e vulnerabilidade.

05.08.2017

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