Eu na voz passiva

Mozana Amorim
Jul 23, 2017 · 2 min read

A vida exige da gente posturas. A sociedade espera da gente atitudes. Os observadores aguardam o nosso próximo erro. Quase como se nós não tivésssemos nenhuma parcela de contribuição em cada uma dessas coisas, seguimos terceirizando responsas. Porque ver lá fora é mais fácil do que cá dentro ou porque é esse um pouco do modelo reinante e eu o sigo. Mas, sempre chega a hora do espelho. A vida me integra e vice-versa. A sociedade idem. Os observadores precisam que eu os valide para que me tenha peso o seu crivo. Desse modo, parece que eu participo ativamente da minha passividade.

Não sou contra ser passivo é por isso que escrevo. Sofrer a ação do verbo é um ato profundo de permissão. E mais ainda de compreensão. A vida precisa de mim em estado permeável para ocorrer. O que mais me caberia se eu tivesse todas as certezas? Que aprendizados me traria ser sempre a primeira da fila? Que habilidade conseguiria desenvolver se jamais errasse? Quais vínculos me seriam possíveis se fossem sempre minhas todas as iniciativas?

Parece haver beleza também na voz passiva, embora todo o universo esteja sempre a me dizer: vá lá e faça, corra, vença, ganhe, fale, comece, feche, escolha, mostre. Porém, aqui dentro algo me diz que nem sempre precisa ser essa a minha atitude. Gosto dos espaços de escolher. Onde quem eu posso ser varia conforme cada momento. Gosto de plural e singular. Vejo coexistência com bons olhos e preciso aprender mais sobre isso, certamente.

Apesar de o dicionário mostrar o passivo como algo secundário e impotente, eu preciso discordar dele especialmente porque o passivo pode ser poderoso ao me levar a um container de sabedoria. Entendo a voz passiva talvez com uma outra lente. Nela eu recuo e cedo espaço. Através dela posso me ver em mais papéis, que não unicamente o da personagem principal. Acesso outras vozes e conheço outros recursos em mim mesma. Isso não me apequena. Pelo contrário, me liberta, me torna versátil e permeável ao que me rodeia e acho isso extremamente poderoso. Não faço apologias a cruzar os braços e deitar eternamente em berço esplêndido, afinal somos pura capacidade e acredito nisso como base de enxergar o Humano. Não valido sermos atravessados ou invadidos pelo que vem de fora, de jeito algum. Mas, a permeabilidade me interessa, sim. E vejo os imperativos de toda natureza com ressabiada cautela.

Por isso, hoje eu fui puxada pela cadeira, e pensada pela ideia de não ser ativa o tempo inteiro. E, assim, pude repousar na delícia de ser descoberta por outras faces de mim que eu nem desconfiava.

Mozana Amorim
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