Mevirando

Com o que você trabalha?

Frequentemente eu me vejo tentando jeitos e jeitos de melhor responder a esta pergunta, de explicar o que atualmente eu faço.

Faz mais ou menos quatro anos que inaugurei uma etapa tão inédita na vida e no trampo que sequer eu consigo dar a ela um nome definitivo. Antes, era fácil: uma palavra. Comunicação na empresa Tal. E ali se iniciavam ou não as interações, os interesses, as possibilidades. Ali podia medir ou ser medida. Resumidamente.

Agora, minhas respostas nunca se resolvem em três palavras. Talvez porque o meu trabalho não seja mais resumo. Talvez porque não seja um só. Talvez porque não seja apenas eu. Eu aprendi a me virar como nunca. Eu aprendi que eu podia escolher. E me ver diante desse portal tão aberto me trouxe pânico, a princípio: sério mesmo que eu posso ser o que eu bem quiser agora? Liberdade. O quanto lutamos por ela. O tanto que nos apavora quando a conquistamos. Eu não escolhi pelo dinheiro. E muitas vezes me arrependo disso. Eu não optei por mais segurança. E isso às vezes é cansativo pacas. Eu não optei pelo trilho. E disso me orgulho todos os dias. Em lugar dos conselhos que eu recebi, das apreensões da família, da pressão do mercado exigente, eu resolvi escutar com sinceridade os meus sentimentos. Eu pausei um tempo apenas para absorver. Foram dias e dias sem qualquer resposta. Sim, eu vivi um longo tempo de espera. E ainda vivo. A todo instante sempre a sensação macia de algo que está por vir. Mal sei explicar.

Fato é que agarrei meus talentos pelo colarinho e decidi que era com eles a caminhada. E como se acorda de um sono demorado, eu despertei outra. Mais aberta, mais corajosa, mais a fim de ir para o mundo por meus próprios pés.

Deixei as esteiras que me dirigiam para trás, deixei os sapatos também. Deixei as certezas resumidas. E fui. Buscando histórias e jornadas de pé no chão. Sentindo ranhuras, fendas, quente e frio. Pele, sentido e afetos. Fui descobrir caminho.

E achei tanta novidade quanto desafio. Gente boa e generosa. Gente de pouco caráter também. Grana muita-pouca-muita-pouca. Portas abertas e portas fechadas. Muitas pessoas e poucas portas. Muitas portas e poucas saídas. Muitas possibilidades.

Saí do resumo para a imensidão. E ela é tanta que às vezes me enfastia. Ela rasgou a minha autodefinição e junto as minhas garantias. Em seu lugar, me deu verbos, expressões e exemplos para eu me virar. E é assim que estou fazendo hoje. Mevirando eu danço, feito bailarina, com explicações conforme a música e o espectador. Mevirando eu converso com tudo o que me rodeia e faz sentido, pessoas e ideias. Mevirando eu realizo o que considero valioso: encontrar, estudar, compreender, aprender o Humano. Mevirando eu descubro mais de mim e de Nós, distantes dos rótulos. Mevirando eu me sinto mais feliz e inteira.

29.07.2017

#30textosem30dias

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