O de comê está na mesa

Comer. Uma das coisas melhores na vida.
Eu adoro. Desde sempre.
Descobri, depois de muito, um outro raro prazer: cozinhar.
Levei muito tempo para desconstruir a imagem do fogão como signo de submissão feminina, assim como a cozinha.
Hoje, tudo isso me significa magia. O que é senão juntar tantos elementos, dar temperaturas e consistências para que criem novas formas, cheiros e gostos? Pura alquimia.
Sim, sou alquimista. E pratico cozinha intuitiva. Leio receitas pra não seguir. Invento pratos enquanto caminho da zumba para casa, da reunião para o mercado, da cama para a cozinha, enquanto no mercado escolhendo vegetais.
Meus pratos são abusados: eles nascem por vontade própria, já com suas definições de forma e fundo, acompanhamentos inclusive. E eu aprendi com eles sobre não seguir tudo sempre à risca (um salve ao meu libertário ascendente em aquário) e vou recriando as ideias um pouquinho aqui, um pouquinho ali. E já temos um nem sei quê prontinho, enchendo a casa daquele perfume de comida fresquinha deliciosa.
Lembro quando minha avó dizia pra gente: “vamos que o de comê está na mesa”. Este era o nosso passaporte para aquele mundo dela, imenso de cores, sabores, texturas, mesa farta feita para caber. Universo tão rico, marcado de uma intensidade que nem ela suspeitava e que eu, só bem mais tarde, reconheceria o poder.
Amo os olhos curiosos que chegam sugados pelo olfato na porta da cozinha: “nossa, o que você está fazendo que tem esse cheiro tão bom?”
Adoro me ver fazendo do alimento a magia, do amor o tempero, da cozinha o templo e daquele fogão a minha liberdade.
25.07.2017
#30textosem30dias
