O perigo da régua

Mozana Amorim
Jul 30, 2017 · 2 min read

Expectativa é um lance doido. Muito. Um desenho animado que a gente cria, enfeita, dá volume, ritmo e riqueza de detalhes. Reparei como nas minhas expectativas eu consigo ver tin-tin por tin-tin o que almejo. Você é assim também? Pois é, este é um problema.

Todo mundo parece se entregar às delícias de expectativas cotidianamente. De como as coisas deveriam ser. De como as situações deveriam transcorrer. Sobre as oportunidades que vão surgir. Sobre como as pessoas tem de agir, sentir e ser. Não parece loucura isso? A mim parece. E o buraco mora ainda mais embaixo, porque é bem difícil controlar esse hábito. Ele não ocorre isoladamente, caso a caso. Acontece em massa, ainda que se manifeste de modo absolutamente individual. E parece natural que toda a gente tenha. E a um só tempo sabemos que não é um solo nada confiável de pisar.

Mas, não raro, erguemos acampamentos de ficar sobre ele mesmo assim. E de repente, é possível que a vida ali já comece a acontecer, nesse terreno de areia movediça, onde tudo é tão veloz quanto subjetivo. Agora já esqueci que era uma querença minha, parida em meus desejos e necessidades. Esqueci que sonhar em demasia me engolfa e elegi o sonho como a minha realidade.

Eis as novas lentes dos óculos que uso para viver mundo: querendo, esperando, medindo. A régua é minha, do tamanho do meu desassossego, da dificuldade de olhar a realidade e apenas aceitá-la.

E o perigo da régua é medir de forma equivocada uma circunstância, numa medida que só faz sentido na minha interpretação.

Entretanto, ver e aceitar fatos parece ser o primeiro passo razoável para descobrir as soluções possíveis.

Quem vive precisando de uma realidade que caiba exata no seu sonho, provavelmente tem trabalho extra para digerir algo que não se encaixa. Duelo. Eu versus eu.

Sim, eu sei que não é de propósito e nem de maneira consciente. Porém, é preciso permissão cá dentro para que a expectativa venha fazer parte. Ela é filha do futuro que almejo, pode me nutrir de energia para buscar o meu desejo. Tudo fofo. Mas, quando me sequestra ela me atrapalha.

Saber das nossas expectativas exige de todos nós atenção permanente. Lidar com elas é um convite insistente ao amadurecer, a compreender o que escondem nos bastidores das necessidades. Conviver com elas é me ensinar novas medidas sem réguas, pautadas em diálogo interno e externo, em compartilhar e abrir mão. Ao mesmo tempo, prática de autoconhecimento e de libertação.

30.07.2017

#30textosem30dias

Mozana Amorim

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Sou tantas. Comunicadora, astróloga e facilitadora. Inquietamente interessada no Humano. Levando a sério esse lance de escrever.

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