O poder do círculo é o poder das pessoas

Para quem trabalha com desenvolvimento humano, os processos que levam alguém a se aproximar de camadas melhores de si mesmo é algo inestimável. Amamos proporcionar às pessoas jeitos de avançar em seus próprios caminhos, em suas jornadas de crescimento. E existem diversas e valiosas formas e metodologias que permitem esse florescimento.
Nos dias de hoje, damos muito mais espaço aos conflitos e divergências do que à busca por soluções. Acho que aprendemos a problematizar tanto os problemas, que exercitamos bem menos a saída deles. É fácil enumerar as adversidades, os erros e quedas e frustrações. Ponto para nós que estamos atentos e somos realistas. Será mesmo? Gosto da visão de que “não são as pesquisas que nos ensinarão a conviver melhor. São as conversas em espaços seguros e respeitosos”, da instrutora de círculos de paz e justiça restaurativa Kay Pranis*.
Por que desaprendemos a arte de parar e conversar?
Os modelos de competitividade, aceleração dos processos e exigências de mercado nos dão uma medida meio alucinante de muito falar, e quase não ouvir. Estamos afastados e isso se choca com a nossa ancestral necessidade de estarmos juntos. Nossos DNAs se precisam e não estamos dando a devida atenção a isso. Na competição, apenas um pode vencer. E nessa luta de um contra o outro, dificilmente haverá o diálogo ou a beleza do encontro. A disputa nos rege e, com ela, a nossa capacidade de conversa, escuta e apreciação é extremamente empobrecida.
A prática do círculo é uma das formas de conversa mais qualificada e ancestral de que temos notícia. Sentar em roda, contar e ouvir histórias que importam é algo que fazemos desde tempos imemoriais. O lugar da fala. O lugar da escuta. E um centro comum. O fogo que aquecia a todos. A luz que iluminava igualmente em todas as direções. A intenção de estarmos ali: juntos. Sou apreciadora das conversas circulares. Nelas não existem posições ou lados, existe um centro. Existe partilha, respeito e confiança. Eu ofereço ao centro minhas percepções, meus aprendizados e dúvidas. E sou acolhida.
Estar em um círculo é estar, a um só tempo, exposto e amparado. Um grupo que conversa com essa qualidade, ganha consistência e poder. As pessoas tem espaço de acessar e mostrar suas vulnerabilidades e serem compreendidas. Isso é pura potência, ainda que soe hippie demais aos ouvidos pragmáticos, que costumam separar o pessoal do profissional, o objetivo do subjetivo, a realidade da aspiração, o acerto do erro. Essa prática tem apoiado mundo afora de forma profunda processos consistentes de tomada de decisão, soluções de conflitos, planejamentos. Pode ser mais acessível e eficiente do que muitas reuniões intermináveis, em que mais se discute do que se realiza, mais se desfila inteligências individuais e pouca sabedoria coletiva.
Desenvolver pessoas é apreciar o encontro. E experimentar a prática do círculo, na verdade, é nutrir esses encontros, dando poder às pessoas e às suas histórias.
Um grupo que conversa com qualidade jamais é o mesmo. Ele abre espaço para compreender suas necessidades, e permite que as capacidades floresçam no que tem singular e plural. Ele pode avançar com potência, equilíbrio, em um ambiente positivo para cooperar e criar juntos e competente para resolver os desafios.
*Kay Pranis é Instrutora e facilitadora de Círculos de Construção de Paz no mundo todo. Atua no desenvolvimento de Processos Circulares para o sistema judiciário, escolas, vizinhanças, famílias e empresas.
24/07/2017
#30textosem30dias
