O que aprendi sobre abrir mais espaço

Eu nunca pensei na possibilidade de abrir espaço entre as minhas vértebras ou articulações. E quando ouvi pela primeira vez, na aula de Gyrotonic*, a minha professora dizer isso, achei super estranho. Na minha cabeça veio a imagem de umas coisas amontoadas e eu empurrando aqui e ali para o bendito e aprisionado ar passar.
À medida que ia ouvindo com mais freqüência: “aaaabre, estiiiica, deixa o ar passar, você pode ir sempre um pouquinho mais”, fui me acostumando com a ideia. Aí já não precisava mais do empurra-empurra imaginário. Eu percebi que o corpo da gente é inteligente e aceita aquilo que mais oferecemos a ele. Em lugar de empurrar, entendi que podia apenas soltar. Não era na marra, mas no jeito que eu iria conseguir ir um pouquinho além. Ou seja: menos força, mais habilidade.
Assim, notei que podia abrir espaços na vida de uma forma totalmente inédita para mim. Em vez de tirar, eu podia ficar maior. Menos empurrar goela abaixo o que não me é engolível. Mais observação e posicionamento. Menos concluir tudo na primeira impressa que fica. Mais existência ao talvez e ao “e se?”. Menos culpa que esmaga por dentro e tira o ar. Mais respiro e aceitação amorosa. Menos necessidade de garantias para a novidade. Mais braço dado com a incerteza.
Para fazer espaço, é preciso aprender a abrir caminho.
E não existe só um jeito. Retirar, arrancar, excluir, jogar fora o que não preciso mais vale, e valerá sempre. Sou uma jogadora compulsiva de coisas fora. Entretanto (adoro usar a palavra entretanto), também pode significar eu dobrar de tamanho. Me aumentar é talvez um dos maiores desafios.
E o grande entendimento que o corpo me ensinou foi que a habilidade é quase como um caminho do meio. Não é fazer força, impor ritmo ou intensidade. É, antes de qualquer outra coisa, perceber. Para isso, é preciso parar e observar. Deixar que o corpo mostre como pode fazer, que ele dê a deixa antes de mim, que ele demonstre como deseja se abrir, porque ele me fala disso o tempo todo. E nessa percepção de aprender, eu posso ir aos pouquinhos. Não tem pressa para abrir espaços. Tem intenção. Ela é a seta que aponta. Ela é a chave. E nela eu posso esperar, desistindo de qualquer agonia. E enquanto espero, afrouxo as rédeas e o corpo pode ser Corpo, que é diferente de ser o meu instrumento.
Assim como na vida, é a intenção que me regula o tamanho e ela é toda minha, no meu tempo e ritmo, na minha condição singular. Importante mesmo é saber que, se não agora, amanhã. Um dia depois do outro, indo sempre um pouquinho mais.
*Gyrotonic é um método de movimento que trabalha com força e flexibilidade simultaneamente, inspirado em princípios do yoga, tai chi chuan, dança e natação. Eu conheci no ano passado e gamei nesse mergulho na minha coluna vertebral, nos meus movimentos que acionam o corpo por inteiro. Dá pra ver mais dessa delicinha aqui https://www.gyrotonic.com e fazer aqui em Sampa no https://www.facebook.com/Respirartes
21.07.2017
#30textosem30dias
