Para onde o meu olho olha?

A pergunta veio a caminho da terapia, ao olhar para uma árvore. De um de seu galhos, aquelas flores balançando despudoradas à minha frente. Elas invadiram tudo com um lilás de roubar cenas. E eu fiquei ali uns bons segundos: apreciando.
Ao fundo havia prédio, casa, carro e rua. Mas, eu era inteira para aquelas flores, por pouco, um quase nada de tempo. O dia tomou banho naquela cor de fazer sentir coisas boas.
A cena se repetiu logo na árvore seguinte tão menos vistosa ou frondosa. Não havia flor. Somente folhas. De um vermelho bordô, quase vinho, elas me diziam: “beba-nos”. E bebi. Pela primeira vez, bebi folhas vermelhas. Lindas. Atravessavam a rua em que eu apenas caminhava. E ali não era mais apenas rua. Era a rua tomada das cores que invadem olhares e nos enchem de um sentimento bondoso, daqueles que a natureza sempre acorda na gente.
E eu não sei por que meu olho repousou justo ali: nas flores ou folhas, e não no asfalto. Por que um era figura e o outro era fundo?
Não sei dizer.
A única coisa que eu sei é que, meu ou seu, um olhar escolhe aquilo que vê.
20.07.2017
#30textosem30dias
