Tem sobremesa com gosto de saudade

Hoje a panna cotta não tinha o mesmo gosto.
Parecia doce demais, densa demais, estranha demais. Sei lá, parecia que tudo faltava.
Fiquei me perguntando se ela sempre teve esse sabor e eu nunca percebi. Estranheza.
Talvez, faltasse somente a nossa alegria. O fresquinho das nossas conversas e risadas de sempre.
Eu tentando “inovar” no mousse de chocolate meio amargo politicamente correto. E você firme na panna cotta com calda de frutas vermelhas de-li-ci-o-sa. Lá estava eu me dando meio mal, meio-amargo, e você gargalhando de mim.
Hoje faltou foto e selfie. E sobrou silêncio. Sobrou prato, calda e morango. Faltou você mexendo o cabelo pra lá e pra cá, cheia de caras e bocas. E sobrou saudade.
Quando alguém falta, tudo muda.
É como se as pessoas dessem significado a coisas e momentos. Eles por si só se esvaziam, pequenos.
É diferente, ainda que haja algum gosto.
Hoje eu fui comer panna cotta sozinha, por conta própria. Ela estava lá, só não tinha aquele sabor. De passeio-papo sem noção, de caminhada-descoberta sem foco, de doce-felicidade sem relógio, de alegria pura e simples. E aí eu entendi, surpresa, o que faz da nossa sobremesa tão especial, incrível e magnífica. Não é ela. Somos nós.
Por isso, quando tem gente, faz muito mais sentido. É com alma que se vai. E vamos. E tem doçura, aventura e pastelão. E tem espaço-abertura para qualquer momento de encontrar.
E hoje a panna cotta não terá gosto algum. Até que sejamos de novo eu e você, a nossa mistura, essa nossa receita-segredo de guardar amizade.
22.07.17
#30textosem30dias
