O Porquinho da Índia

Os porquinhos da índia são pequenos e frágeis e sabem muito bem disso: vivem se escondendo. Eu tive a infeliz idéia de adquirir um. Foi o bicho de estimação mais sem graça desde as tartarugas. Em poucos dias eu já estava meio esfastiado dele, mas não o suficiente para deixá-lo aos cuidados de outra pessoa — “meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada”, também.

Em Antonina, tínhamos uma linda cadela, raça pastor belga, de pêlo completamente preto, a qual atendia pelo nome de Funny — que Deus a tenha. Ela foi o ser vivo mais formidável que já existiu.

Túlio, o porquinho da índia, tinha horários de banho sol, nos quais sua gaiola ficava fora de casa, sempre fora do alcance de Funny.

Um dia eu esqueci (juro) a gaiola fora de casa — Freud explica. A cadela foi solta para que guardasse a casa durante o período que minha família estivesse na igreja.

Enquanto eu louvava ao Senhor, meu bichinho virava jantar. Quando regressamos à casa, vimos uma gaiola deitada, jornais rasgados e tufinhos de pêlo espalhados pela calçada.

Meu pai me deu a maior bronca. Insistia para que eu imaginasse toda angústia e aflição da pobre criatura obliterada pela cadela ensandecida.

Túlio sofreu, Funny se divertiu. Minha irresponsabilidade custou uma vida, mas, tal qual os abortos nas novelas da Globo, isso trouxe alívio.

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