A “patrulha do politicamente correto” arruinou a Princesa Leia?

Eu tenho um problema seríssimo: sou viciada em ler comentários. É uma forma de masoquismo moderno, algo que só serve pra me deixar com raiva, triste e sem esperança alguma na humanidade. Mas fazer o quê? Não resisto.

Por isso, os últimos rumores de que a Disney estaria parando de produzir e vender produtos que tenham a Princesa Leia usando seu famosíssimo biquíni de metal foram um prato cheio pra uma leitora voraz de comentários como eu. Em notícias nacionais e internacionais, vi centenas de marmanjos expressando indignação, usando frases como “a Disney destruiu minha infância!”, “as feministas estão acabando com tudo!” e “o mundo está ficando muito chato!”. Obviamente, a “patrulha do politicamente correto” fez mais uma vítima.

E eu entendo a revolta, de verdade. Apesar de não concordar com a maioria das pessoas que reclamam da constante problematização de coisas (que até outro dia pareciam inofensivas), eu entendo que estamos passando por um processo complicado. É preciso manter a mente aberta e realmente pensar se as acusações de machismo, racismo, transfobia e homofobia que ouvimos por aí têm algum fundamento ou não. E quando a reclamação toca em algo que tem um valor sentimental grande para as pessoas, é natural ficar com raiva. Pra quem já acha que o politicamente correto está estragando tudo, é normal pensar algo como “Ah não! Até a Princesa Leia? Não existe nada sagrado?!” num primeiro momento. Se você foi uma das pessoas que teve essa reação, eu te convido a pensar um pouquinho mais sobre ela.

Até uma pessoa que nunca viu Star Wars saberia a qual biquíni me refiro sem precisar da imagem ali no topo. O figurino de “Slave Leia” se transformou num ícone desde o lançamento de O Retorno de Jedi, em 1983. Quando a gente pensa em Star Wars, pensa no sabre de luz, no capacete do Darth Vader, no penteado que parece um fone de ouvido, num alienígena verde baixinho e num biquíni dourado.

Apesar de saber que o traje em questão é um dos maiores fanservices da história, não tenho nenhum problema com a presença dele no filme. Não acho a exposição da personagem gratuita nem de mau gosto. Aquele é um momento em que Leia está sob o domínio de Jabba The Hutt, um dos criminosos mais nojentos e repugnantes da galáxia. Ela está lá como escrava dele, sendo humilhada e objetificada. Mas a vingança vem quando Leia consegue se libertar. Mais do que isso, ela estrangula furiosamente o seu captor, usando a mesma corrente pela qual ele gostava de puxá-la. Esse momento catártico demonstra que o traje de escrava não é só uma roupa humilhante, é também um símbolo de força. O pontapé inicial da história pode ter sido um pedido de ajuda vindo dela, mas Leia é a maior badass da saga. Rebelou-se contra o Império, testemunhou a aniquilação do próprio povo, salvou o namorado, enfim: Princess Fucking Leia.

O que me traz de volta à questão central deste texto. Princesa Leia é a moça do biquíni de metal? Sim. Mas é muito mais do que isso. É injusto que ela seja representada por tanto tempo como nada mais do que um símbolo sexual, especialmente numa fanbase historicamente dominada pelo sexo masculino. A própria Carrie Fisher já demonstrou que não gosta da maneira como retratam a personagem e até deu um conselho à Daisy Ridley, estrela do novo filme da série: “não seja uma escrava como eu”.

E sabe, o filme ainda está lá. George Lucas (ainda) não lançou uma nova edição que cobre a Carrie Fisher dos pés à cabeça com uma burca de computação gráfica. A Slave Leia ainda é existe e é um patrimônio cultural nosso. A Disney não está tirando isso dos fãs.

Mas não é melhor que a nova geração de fãs de Star Wars tenha acesso a produtos e brinquedos que representem Leia Organa como a personagem incrível que ela é? Não é meio absurdo que frequentemente na mesma coleção de brinquedos todos os personagens estejam vestidos, enquanto a Leia precisa estar usando a “roupa” que ela aparece usando em UMA cena de UM dos filmes?

E claro, sabe quem mais queria a Leia como um enfeite, quase nua, usando aquela roupa humilhante o tempo todo, né? Pois é.

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