Sense8 e binge-watching

Ou: Passei as últimas doze horas na frente da televisão e já não sei mais quem sou


Estamos vivendo um momento interessante para a televisão. Já passamos por The Wire, Sopranos, Breaking Bad e agora Mad Men. A golden age dos homens difíceis de Brett Martin está acabando. Talvez um dos poucos sobreviventes seja Frank Underwood, mas com uma pequena diferença: House of Cards foi feita pra ser devorada, assistida em uma tacada só. Binge-watched.

Até pouco tempo atrás meu hábito de assistir temporadas inteiras em um dia era motivo de piada pros meus amigos. Hoje, é a regra do jogo. A Netflix sabe que não precisa mais dosar os episódios como a televisão faz e não precisa estender uma temporada por meses porque não fatura com publicidade. Mas como McLuhan (mais ou menos) previu, essa diferença tecnológica traz também mudanças drásticas no conteúdo e no formato. A TV de binge-watching é diferente da TV episódica semanal. “O meio é a mensagem”, blá blá blá.

Dito isso, não consigo decidir se a sensação de filme de doze horas melhora ou prejudica Sense8, nova série dos irmãos Wachowski, original Netflix. A premissa é interessante: oito pessoas desconhecidas, cada uma em um canto diferente do planeta, têm uma espécie de conexão mental que permite que eles se comuniquem e compartilhem habilidades e conhecimento. O problema é que Sense8 parece tão confortável no formato Netflix que não tem pressa alguma para apresentar o plot. Claro que uma trama afobada que não encontra tempo para apresentar os personagens e mostrar o que está em jogo perde o interesse da audiência, mas aqui os Wachowski simplesmente erram a mão. Tanto que a lentidão do primeiro episódio quase me fez desistir. As críticas que li antes do lançamento concordavam comigo e a explicação é simples. Os três primeiros episódios foram liberados para algumas publicações antes do público geral. A série só engata mesmo a partir do quarto.

E se Sense8 não te fisgar no quarto episódio, não fisga mais. É nesse ponto que estamos confortáveis no universo da série, familiarizados com os oito protagonistas e começando a entender as possibilidades da conexão entre eles. A cena bonitinha e heartwarming em que todos cantam a mesma música chega a passar a sensação de que a série está trapaceando, forçando o espectador a criar uma simpatia por aquilo tudo. Mas funciona.

A partir daí fica difícil não continuar assistindo. Os personagens são carismáticos (alguns mais do que outros) e vastamente diferentes. Aliás, a diversidade é um tema presente em toda a série, desde a abertura até as diferenças de etnia, sexualidade, gênero, religião e cultura entre os oito. Alguns criticam dizendo que há muita “propaganda gay” e que Nomi, a personagem trans, é definida por sua identidade de gênero e que há muito destaque para esse aspecto da vida dela. Na minha opinião, isso não passa de bobagem preconceituosa fantasiada de crítica. Opiniões desse tipo só demonstram que Sense8, apesar de seus problemas, é uma série extremamente importante.

A vantagem que o formato maratona traz é que temos menos tempo pra analisar e refletir sobre esses problemas. Elementos como a escala enorme e a produção visualmente impecável são, infelizmente, incapazes de salvar o roteiro frouxo. Alguns diálogos são simplesmente dolorosos e algumas das oito subtramas são confusas ou fracas. O arco maior que deveria conectar todos os personagens é preguiçoso, o antagonista é mal construído e tão plano quanto uma folha de papel. As cenas em que os personagens combinam as habilidades são simplesmente fantásticas: o problema é que elas são tardias e escassas. Ah, o Sayid de LOST também aparece esporadicamente pra explicar mais ou menos as coisas.

Existem problemas, mas eles não ferem tanto a experiência de assistir à série como um todo. O grande triunfo de Sense8 é, na verdade, criar personagens interessantes que puxam o espectador pro universo da série. É difícil reclamar do roteiro quando se está apaixonado pelo bom humor do Capheus, pelo carisma da Kala ou pela força da Sun. Quando o último episódio acaba, você percebe que tem um carinho enorme por essas oito pessoas, uma simpatia que se instalou sorrateiramente enquanto você reclamava dos diálogos ruins. Eu não consegui largar Sense8 até terminar. Quer elogio maior que esse?

Like what you read? Give Marina Paulista a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.