O toque pesado da pele

O ato sexual é o que o tigre é no espaço.
Georges Bataille

Um

Eu te desafio a se encarar nesse mesmo espelho imundo daqui a uma semana e dizer que sua vida não mudou em nada. Que você continua a mesma de um metro e sessenta, que seus pais continuam sem falar contigo, que você não trepa há dois meses, que seu emprego horrível continua pagando suas contas, que tudo é igual porque você se permite ser fracassada.
Eu te desafio.
Olha ao redor. É o século 21, porra. Já teve Dragonball, roda, torre caindo, homem que mandou derrubar as torres morrendo, filho da puta se fodendo, homem na lua — sobre esse último há controvérsias, mas: por que diabos você vai continuar sendo a mesma? Qual é a fronteira que te separa do mundo?

Dois

É uma festa horrível. Só toca umas melodias distorcidas e as pessoas se concentram mais no colorido do copo cheio de álcool e nas telas dos celulares do que nas pessoas ao redor. Encostada nessa pilastra você é só mais uma. Sua fronteira é um comprimido de cinquenta reais na boca mais próxima. Sua fronteira é uma pulsão de vida, um orgasmo demandado pelo seu id que só sabe pedir mais e mais e mais e mais. Foi assim da outra vez. Vai ser assim até o dia em que você decidir acabar com tudo.

Três

Ela se chama Mariana. Tá chorando por causa da ex.
Aquela filha da puta, diz.
Você não sabe consolar as pessoas — ninguém nunca te consolou, por que diabos você vai consolar alguém? Quid pro quo, right?
Olha, você comenta num arroubo de benevolência, eu não conheço sua ex, mas você não pode pautar tua vida em alguém que te fez mal. Relaxa. Vai pra casa, toma um banho e dorme. Amanhã vai ser outro dia.
Amanhã vai ser outro dia? Porra, virou o Chico Buarque agora? Amanhã vai ser outro dia. Pff,
Quer que eu te leve até o táxi? — você pergunta.
Não precisa, ela diz — o nome é Mariana, guarde isso na sua cabeça m-a-r-i-a-n-a.
Tem certeza?
Tenho. Cê não vai perder a festa por causa de uma bêbada.
Ei, não tô perdendo nada — isso, coloca a mão no braço liso dela, parece bunda de neném. Continua a dizer: essa festa tá uma merda.
Mariana ri e diz, tá mesmo.
Agora vocês duas estão rindo & saem juntas da festa & fazem sinal para um táxi.
Você deixa ela…
No Flamengo.
No Flamengo?
É.
Eu também moro no Flamengo.
Porra, por que tu não falou isso antes? Vamos juntas.
Vamos.
Entram as duas no táxi e ele dispara pelas ruas esburacadas do Rio de Janeiro cidade maravilhosa cheia de encantos mil coração despedaçado do brasil alquebrado. Ana Cristina César é o caralho, eu sou mais eu.
Isso. Desce. Paga. Agradece.
Bateu um vento e você se arrepiou, consegue sentir o bico do peito explodindo dentro do sutiã.
Você foi muito gentil, ela diz.
Não foi nada.
Quer subir?
Você pensa: se não rolar nada pelo menos você ganhou uma experiência de vida. Se fosse homem e tivesse uma salsicha nojenta entre as pernas isso nunca aconteceria. Para de reclamar e diz
Lógico
porque, convenhamos, é lógico que você quer subir.

Quatro

Anna Sofia Terraleste. Tá na sua carteira de identidade, mas isso não é hora pra ver carteira de identidade e esse 3x4 horroroso que você tirou há seis anos. Guarda isso, menina, tem uma madame jogada no sofá observando o teto. O lugar é confuso, caótico, parece que ela mora com os pais…
Você mora com seus pais?
…e ela sorri e diz que sim, mas eles estão viajando — Suécia — caralho, ela mora com os pais — mas, ei, o que eu tenho a ver com isso?
E você?
Pais, ótimo, tudo que você não precisava falar sobre.
Não falo com meu pai, responde.
E sua mãe?
Minha mãe mora longe.
Onde?
Jacarepaguá.
Tem ônibus pra lá, ué.
Tem, mas é quase outro país de tão longe. E tem que passar pela Barra. Odeio a Barra.
Fresca, ela diz rindo.
Você mal raciocina e já tá na casa de alguém falando sobre seus pais. Nos conhecemos há quarenta minutos, que porra de mundo é esse? No que os celulares nos transformaram? Máquinas de teletransporte mental?
Anna Terraleste, ela diz — você sentou no sofá e a identidade caiu entre as almofadas, ela pegou e leu. É um nome bonito, completa.
Obrigada.
Terraleste. Que sobrenome foda.
Terraleste, você balbucia. Agora são duas retardadas alcoolizadas no sofá carmesim.
Ela levanta e diz, já volto.
Você aguarda.
Ela retorna com um baseado.
Você fuma?
Menos do que gostaria.
Ela ri — por quê?
Sei lá. Só fumei uma vez. Não foi muito legal.
De novo: por quê?
Foi no show do Paul McCartney. Na hora que ele cantou Mr. Kite. Cheguei fodida em casa, briguei com a minha mãe, um horror.
Ela acende e puxa e solta um vapor espesso.
Você tem que se livrar das amarras. Toma.
Puxa. Sente. Solta. Nenhuma alteração.
Ok, diz, é tranquilo.
Lógico que é tranquilo, ela diz, as pessoas que culpam uma porra de uma planta por nada.
Você dá de ombros. Sente algo te puxar e de repente vocês são um corpo só no sofá. Seus olhos estão fechados, tudo que te pertence são as mãos dela e os batimentos cardíacos numa cadência incomum.

Cinco

Mariana é o nome dela, mas você só pensa em Anna. São um corpo só divido em partes diferentes. Você sente a unha raspar sua carne e arrepiar sua pele. Puxa o cabelo dela e toma o controle, corre os dedos pelo interior da coxa, se irrita com a textura do jeans e abre o botão, ela ri enquanto vocês continuam se beijando, aquele risinho frouxo de comercial de celular, mas não dá mais pra parar e ela te beija mais e te ajuda a se livrar do jeans, que agora está na altura dos joelhos e a coxa e a calcinha são todas suas, você abre os olhos e vê rapidinho, naquele afastamento entrebeijos, que é uma calcinha bege e pensa foda-se, homem é que liga pra cor de lingerie, e você se entrega à Mariana e aos dedos da Mariana e à boca da Mariana e à Mariana inteira porque você merece isso, e ela quer você, ela enfia os dedos entre suas coxas e alcança sua boceta molhada atrás da calcinha & agora só te resta comemorar em gemidos o toque pesado da pele contra seu torpor, contra seu clitóris que pulsa uma melodia um tanto quanto indecifrável, algo que só pulsa porque quer gozar, mas não ainda, então você joga ela no sofá e termina de tirar a calça — levando a calcinha bege junto –, beija o interior das coxas dela, sente ocheiro de sexo entre a carne e lambe devagar, saboreia, sente o gosto, percebe o cheiro, você sente algo te invadir e é o Tesão com t maiúsculo de tão forte que é, por isso sua língua desliza e encontra algo muito úmido e quente que provoca gemidos na Mariana de uma forma que você nunca ouviu antes — algo suave mas ao mesmo tempo carregado de prazer, como se você fosse o prêmio Nobel da chupada — e nesse momento você só pensa em fazer ela gozar, te encher a boca de gozo, e continua, e lambe e chupa e mordisca e usa os dedos, lambe cada parte dela enquanto sente seus dedos dentro da boceta encharcada, um vai-e-vem de dois pedaços de pele e osso que se esfregam no ponto g, algo tão pequeno mas capaz de, junto com o clitóris, fazer Mariana se contorcer e abandonar os gemidos em prol de um grito poderoso que vem acompanhado de unhas nos seus cabelos, unhas que te puxam em direção ao esmagamento de nariz contra a vulva, um esporte que você é campeã olímpica, e sente que ela vai gozar, e os dedos não param, então você decide ousar, tira a língua e lambe o cu dela, que, hesitante, permite, mas o gozo já está batendo a porta, postman always rings twice, e eis o segundo apito, um gemido urrático, urrático, isso nem existe no dicionário — mas essa mulher não existia até uma hora atrás, então agora tudo é válido –, um gemido urrático, pois, que te encharca no segundo seguinte enquanto Mariana arfa e sua língua passeia pelo cu agora também encharcado, você sente na ponta da língua ele pulsando de tesão e ela te puxa pelos cabelos, arranha suas costas, o cheiro, a textura, é tudo perfeito nela, você quer ficar grudada pra sempre nesse instante, e então se vê jogada no sofá, no sofá carmesim, no sofá cuja única função agora é servir de espaldar pra sua coluna que se retorce conforme ela brinca com a sua boceta numa vingança terrible noir às suas habilidades orgasmáticas, e isso também não existe no dicionário, mas — ui — o que ela faz também não: a língua dança algo meio Bolshoi, meio Nijinski, conforme descobre os territórios não-mapeados da sua boceta e o polegar dela também roça no seu clitóris e você quer mais, quer que ela crave a língua no seu cu e te masturbe e te encha de tapa e te roce toda e te ganhe novamente a cada novo segundo, por isso agora você está de quatro e ela entendeu o recado, Mariana entendeu o recado, só quer te lamber, te lambe toda, te chupa, te bate, te puxa o cabelo, te masturba, você tá quase gozando e ela aplica um golpe de mestre enquanto diz, você só goza quando eu gozar, e no que consiste o golpe de mestre interrogação resposta o golpe de mestre consiste em te jogar no chão coberto por um tapete macio e te puxar pra perto dela enquanto sua orelha é mordiscada e lambida e beijada e você só sente as bocetas se encontrando e os clitóris se roçando e os gemidos, tudo que há no bairro do Flamengo são os gemidos de vocês duas conforme o orgasmo se aproxima tal qual um tsunami que encharca o tapete inteiro no segundo seguinte, algo inimaginável cheio de gozeprazer no exato instante em que sua visão se turva e vocês ficam abraçadinhas, mudas, até os primeiros raios de sol riscarem o veludo da noite.

Seis

A manhã é um café mal-passado com dois beijos e um muito obrigada. No ar paira um cheiro de baseado com incenso de lavanda.
Por que você me chamou pra subir? Sororidade inconsciente?
Mariana ri — eu percebi que você tava com tesão, toda arrepiada. Decidi arriscar.
Eu tava arrepiada por causa do vento.
Vento?
É, bateu uma corrente de ar e eu fiquei toda arrepiada.
Ela te beija. Ok, eu aceito esse argumento, mas ele invalida tudo? Digo, fiz alguma coisa errada?
Não, pelo amor de deus, de maneira nenhuma. Mesmo. Fica tranquila.
Ela sorri. Vocês ficam abraçadas no sofá.
Que dia seus pais chegam?
Dia quatro.
Quer dizer, hoje?
Hoje é dia quatro?
Você sorri e ela te olha com aquele olhar de: fodeu, fodeu muito.

Sete

Há uma semana você não aparece no trabalho. Seu chefe te ligou, todo mundo te procurou, mas você não atendeu, só ficou trepando com Mariana — mas hoje botou um salto alto e saiu pra rua feliz da vida, parou numa loja de roupas e viu uma blusa que sua mãe iria adorar. Pegou o telefone e ligou pra ela. Combinaram um almoço pro dia seguinte.
E agora você tá aqui. De frente pro espelho.
Anna Terraleste.
Suas fronteiras foram dinamitadas.

Anna Sofia Terraleste tem 25 anos e vive no Rio de Janeiro. Ela agradece ao Mateus pela gentileza de postar esse texto.