

O submundo das camgirls — meninas que se masturbam na internet por dinheiro
Por Mateus Baldi
Sei que tem gente que não vai acreditar nessa história que estou contando.
Foda-se.
Rubem Fonseca
I. MIL E DUZENTAS PESSOAS
São onze da noite, horário em que o Twitter está mais cheio. Em São Paulo, @IsabelaSchatz apanha dois vibradores no armário e senta em frente ao computador. Observa a timeline com cuidado e twitta perguntando se alguém está pronto para uma live. As mentions pipocam. Sim, estão todos prontos. São seguidores fieis. Ela entra no site Cam4 e ajeita tudo. Cola o link de sua transmissão no Twitter e espera. Em dez minutos, quinhentas pessoas estão assistindo.
Isabela tem vinte anos, pele branquinha e possui peitos tão grandes quanto apetitosos. O Cam4 permite que o dono da transmissão converse com a “plateia”. Isabela pergunta se eles estão gostando. A resposta é imediata: lógico que estão. Mas querem ver ação. Um é bem direto: tira essa calcinha e deixa eu ver sua bucetinha. Isabela hesita — e se excita.
O contador marca quase mil espectadores.
Ok, Isabela pensa, agora sim.
Lentamente, como tem de ser, ela tira a calcinha de renda exibindo a carne rosa depilada que todos estão querendo ver. Lambuza dois dedinhos com um pouco de saliva, simulando um boquete espetacular, e os enfia entre as coxas. A audiência surta. Isabela mete mais rápido. Tira os dedos e começa a estimular o clitóris. Geme. Se contorce. Vira de lado. Os homens querem ver seu cu. Afasta as nádegas e deixa que a internet contemple sua nudez. Molha mais um pouco os dedos e enfia unzinho lá dentro. Isabela não curte anal — diz que está treinando para se aprimorar na arte –, mas gosta de seduzir a audiência com um ou outro dedo estratégico.
Um barulho de sino reverbera.
Isabela acabou de ganhar cinco dólares.
Ela comemora, agradece à alma caridosa — um sujeito chamado Ordenhador — e apanha um dildo roxo. Lubrifica-o e começa a se masturbar.
As doações aumentam.
Ela goza dois minutos depois, o contador marcando mil e duzentas pessoas. Sua conta bancária recebeu, nessa pequena exibição de lascívia, vinte e cinco dólares.
Isabela Schatz — é esse o seu nome na internet — manda beijinhos carinhosos para os fãs, agradece, encerra a transmissão, guarda os brinquedos e vai para o banho. O relógio marca meia-noite e ela se sente plena. Isabela, como milhares de garotas planeta afora, é uma camgirl, uma adaptação para a profissão mais antiga do mundo. Mas quando sai do banho e pega o livro da faculdade, ela não é mais Isabela — agora é Mayra*, estudante de uma universidade conceituada.
II. ANARQUIA E COMUNISMO
Antes de exercer qualquer tipo de (pré-)julgamento, é preciso compreender o design da internet nesse começo de século XXI. É preciso ter um domínio básico dos fatores que compõem o Twitter, epicentro das relações sociais entre a parcela jovem dos usuários. Se o Facebook é o comunismo, onde todo mundo é igualmente feliz, realizado, rico e bonito, obedecendo os padrões rígidos de moral e bons costumes que serviram de base para a educação dos mais velhos, o Twitter é o anarquismo. Na rede do passarinho azul não há governante. As noções de bom senso e respeito foi jogada para escanteio e em seus lugares entraram ações inefáveis que só são compreendidas quando se tem a experiência de usar o Twitter. É nesse meio que perfis de zueira — termo que eleva a ironia montypythoniana às mais altas potências — se proliferam e aglutinam seguidores fieis. É nesse meio que gente como Edu e Sicko criaram perfis visando o culto à nudez e ao sexo — Testosterona e Lol,Hehehe respectivamente. São constantes os tweets em que o aplicativo Snapchat serve de mediador entre usuário e receptador. Numa ponta, os divulgadores; na outra, nuas, as pessoas que tiram fotos ousadas sem roupa nem rosto, doidas para aparecer na internet.
Ficou chocado? Pois saiba que o fenômeno não é antigo.
Desde que a internet foi percebida como a nova roda, a humanidade simplesmente teve um insight coletivo: adaptar as profissões usuais para um nível acima, aproveitando só o melhor e limpando as partes ruins.
E as camgirls não são mais do que isso — se poupam do contato com os clientes e oferecem serviços com a mesma voltagem erótica de um encontro no motel.
O fenômeno chegou ao Brasil com o DreamCam, serviço muito popular na última década onde atrizes pornô se exibiam para os assinantes do site e obedeciam ordens, além de realizar shows com horário marcado. Se naquela época não havia tanta liberdade para o espectador — o preço era caro e o serviço tinha programação, como uma emissora de televisão de baixa qualidade –, hoje qualquer site de webcam permite que as pessoas se mostrem nuas para o bel-prazer alheio. Serviços como o Cam4, Camfuze, Chaturbate e Myfreecams se tornaram bastante populares nos últimos anos graças à facilidade de obtenção da nudez — para os voyeurs — e dinheiro — para as meninas. Perambulando por lá é capaz até de encontrar uma atriz pornô famosa se exibindo e complementando a renda dos filmes. Sammie Rhodes, loirinha bombshell adepta de anal hardcore, é uma das que fazem ponto virtual no Myfreecams.
As camgirls se dividem em dois grupos, basicamente: existem as puramente exibicionistas, que se masturbam de graça e recebem presentes — os tokens; e as que agem como prostitutas, cobrando tokens para tirar calcinha (300), mostrar o cu (500), e gozar (1200 pra cima). Cada token custa, em média, dez centavos de dólar.
III. MAYRA
Mayra tem vinte anos e descobriu a pornografia aos doze. Naquela época, zanzava em comunidades do Orkut e pegava o MSN dos rapazes mais velhos. Mentia a idade e observava eles se masturbando. Quando chegava sua vez de se mostrar, desconversava e desaparecia.
—Eu achava que estava fazendo algo errado — conta. — Que era sujo.
Se teve algum lado bom em ser camgirl, além do dinheiro? Com certeza. Ela diz que descobriu partes do corpo que nem sabia que eram atraentes — de fato, Mayra não tem o tipo de corpo escultural que a maioria adota, mas isso não é problema.
— Tem gente que gosta das chubbies, aquelas que não são gordas, mas tem lá suas curvinhas.
Outro ponto interessante: a mãe dela sabe. Os amigos próximos também. E todos apoiaram a decisão.
— Não é como se eu fosse uma puta. Mas tem gente que não entende. Por exemplo, uma vez um rapaz assistiu ao show e descobriu minha identidade. Chamou pelo nome de verdade e tudo. Assim fica difícil, desmotiva, sabe? Mas por outro lado, existem situações engraçadas. Uma das primeiras pessoas que me seguiram no Twitter foi o irmão do menino que me indicou o site pra eu começar a ser camgirl! Tenho certeza que o meu amigo não comentou nada com ninguém, mesmo com o irmão. Ele é de total confiança minha. Cheguei pra ele uns dias depois e comentei: ê família de punheteiro, hein!
O nome Isabela Schatz veio naturalmente. Essa seria a outra opção, caso não se chamasse Mayra. E Schatz é tesouro em alemão, idioma que ela estuda.
— Sem contar que é muito fofinho, eles usam schatz como os americanos usam honey. É carinhoso e deixa uma aura de ninfeta. Homem gosta disso.
IV. CARLA
Laksmi. Esse é o nome que Carla usa na internet. Aos 31 anos, ela não tem planos de largar a carreira como camgirl.
— Como você começou?
— Meu marido sempre assistiu às camgirls na internet, muitas vezes escondido de mim. Um dia resolvi assistir também. Achei interessante e perguntei se esse negócio dava dinheiro. Ele disse que sim. Morri de vergonha, mas perguntei a ele o que achava de eu me exibir também. Ele sorriu e disse que topava. Descobri que sinto muito tesão me exibindo para as pessoas e isso até deu um up na nossa vida sexual.
Deusa da riqueza e da fartura na mitologia indiana, Lakshmi foi a escolha mais óbvia para Carla, que também é atriz e representante de produtos farmacêuticos. Quando perguntada sobre os limites, ela é bem direta:
— Eu faço de tudo, menos cocô. Também depende do clima. Às vezes estou muito tarada e topo tudo, mas tem dias que estou mais relaxada e gosto de ir devagar, com muita calma.
— Me conta alguma situação engraçada que rolou contigo.
— Uma vez eu estava me exibindo dentro do carro na garagem da minha casa e me pediram para sair só de lingerie. Então eu saí, né. Dei de cara com a vizinha, uma senhora muito religiosa. Eu, totalmente sem graça, não consegui pensar em nada para dizer e entrei correndo dentro de casa. Hoje mal consigo olhar nos olhos dela!
Carla diz que nunca houve situações ruins e espera que continue assim. Ao ser perguntada sobre dinheiro, despista.
— Só transmito nos fins de semana, então varia muito, mas sei de meninas que ganham de dois a seis mil reais por mês.
Quando perguntei como ela se vê daqui a cinco anos, a resposta é tão simples quanto palpável.
— Me imagino com o mesmo corpo, me exibindo na cam, fazendo academia e sendo um sucesso de bilheteria no teatro.
V. TODOS OS GATOS SÃO PARDOS
O sexo no século XXI, parafraseando Philip Roth, transpôs os muros das nossas casas. Ainda que seja uma mancha no carpete da sala, à vista de todos mas ignorada por motivos infelizmente óbvios, a sexualidade livre e plena ganha cada vez mais força graças a uma juventude que se despe de todo e qualquer tipo de preconceito.
Nos sites de camgirls é comum encontrar casais, travestis e homens. São pessoas tão comuns quanto eu e você, leitor desse texto que pega o metrô para o trabalho e senta ao lado de um deles. Na noite em que todos os gatos são pardos, os travestis assistem os casais, os homens gozam com os trans, e os casais, do conforto da cama de casal, os filhos dormindo no quarto ao lado, se excitam juntos enquanto alguma garota cede sua boceta — e seu tempo — em troca de alguns dólares. Vida que, aos trancos, barrancos e gemidos, segue.
Todos os nomes “reais” foram alterados para preservar a identidade das envolvidas. Todavia, Laksmi e Isabela Schatz são facilmente encontradas em sites de camgirls.
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