papelada.

Sir Bruno da Weblândia
Nov 2 · 4 min read

há algumas semanas surgiu uma pequena história na minha cabeça. me deixou surpreso porque, pela primeira vez em muito tempo, não era sobre mim. não diretamente. preciso contá-la então, mas não pelos métodos habituais; a paciência já foi embora. enfeitar um texto com palavras bonitas que não descrevem nada para encher uma linguiça que o leitor esfomeado supostamente quer não me parece o ponto principal disso tudo. então vou só contar, logo. aí vai.

tem um homem. ele é tremendamente parecido comigo. na verdade, sou eu como me imagino. uma idealização da imagem do eu num longo intervalo entre duas olhadelas no espelho. enfim, ele está sempre de terno. o corpo desse homem também é parecido com o meu, só que mais proporcional. ele tem dois filhos, que o amam muito, e ele ama os filhos, também. a presença de uma esposa é enigmática (e um pouco problemática), mas ela está lá. nosso protagonista trabalha num escritório confortavelmente bagunçado e com uma paleta de cores cinza e azul, com pitadas de algumas outras cores. lá fora, na janela, podemos ver o futuro, mas um futuro que não sei ao certo. talvez com películas no vidro, o céu é de um azul arroxeado — quem sabe final de tarde? há muitos papéis nesse escritório. a prerrogativa de tal sessão do prédio corporativo é justamente analisar e organizar esses papéis. há informações neles; de indivíduos. tirando a celulose, o homem de terno está quase sempre sozinho. levemente enebriado pela rotina, suas olheiras parecem macias e doces, como alguém cansado mas de coração gentil. gosto de pensar que ele é parecido comigo.

algo surge repentinamente. é um outro homem, um pouco mais jovem, mas já adulto. não sei como ele se parece. sei que tem um sorriso bonito e sabe fazer piadas. às vezes tem cabelo cacheado; mas, repito, não sei como ele se parece. a questão é que ele chega. chega e faz uma piadinha. o homem do terno gosta e ri. é uma risada singela, simultaneamente doce e cansada, como ele. e, ah, o homem do terno tem um relógio que gosta muito. não sei onde isso importa, mas ele tem. puxa de vez em quando, do terno. o jovem gosta do seu novo chefe. pensa cousas legais sobre a risada e o sorriso e o terno e o relógio e as olheiras.

paulatinamente, as piadas e os risos vão dando mais cores ao escritório e se tornando mais importantes. as olheiras do chefe nunca vão embora, mas o sorriso dele se destaca cada vez mais. é um contraste bonito de se ver; confortável. o tipo de pessoa com a qual você dormiria um bom sono e acordaria se sentindo em casa, fosse qual fosse o lugar onde estivesse. os papéis, no entanto, eram cousa séria; cousas futuras, de um futuro cousado.

chegaria a hora em que o clima ficaria tão tenro e caloroso que em algum momento muito específico eles se aproximariam sem o mínimo controle dos próprios corpos e dariam um beijo forte e intenso, mas também macio e longo. ah se eles soubessem o tanto tanto que se queriam. mas sabiam. sei lá.

já dizia martha medeiros, “e antes do depois teve muito durante”. o durante eu não sei, não tive tempo de pensar, mas gosto de imaginá-los como pequenos eventos significativos. um dia desses o pessoal lá de cima do prédio ia descer e avisar pro funcionário que este seria movido para outro departamento. com menos papel — estranhamente o dobro de burocracias. o mais novo trocou olhares com o homem do terno e do relógio e das olheiras. um sorriso torto de um para o outro. ainda tinham o resto do dia.

não sei o que acontece. não sei se um outro jovem vem buscar o garoto das piadas, acompanhado de um beijo simples. não sei se o jovem, sozinho, simplesmente vai embora, ou se há um abraço de despedida. talvez minha concepção de despedida tenha mudado e eu não queira pensar sobre isso. o homem de terno vai pra casa, pros filhos, e faz algumas piadas. o breve companheiro de escritório havia despertado algo adormecido. o homem do relógio deixou a esposa ir; ela voou livre, porque ambos eram amigos, de qualquer maneira.

o homem de terno está na rua num dia nublado, logo de manhãzinha, indo para o prédio do escritório. o dia seguinte. seus olhos estavam um pouco pesados. correrrio. também não sei o que acontece nessa ida ao trabalho; não sei como se termina uma história de amor.

mesmo derrotado, sempre acontecendo.

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