Up in the air

A primeira vez que vi o filme Up in the Air (Amor sem escalas, título do filme no Brasil), eu me identifiquei de imediato com a trama do filme e com a história do personagem principal, interpretado pelo George Clooney. O filme conta a história de Ryan Bingham, um consultor, que viaja 300 dias por ano e adora a sua profissão. Só no ano de 2016, tirando os finais de semana, devo ter passado menos de 40 dias na minha casa em São Paulo, devido às constantes viagens a trabalho.

Para quem não vivencia a mesma experiência, viajar tanto traz uma visão romancista da situação, algo ligado a uma vida de pseudo glamour. Passar tanto tempo em aviões, hotéis, comer quase todo dia em restaurantes, parece ser uma vida que muitos gostariam de ter. Porém, o filme também retrata outro lado de quem leva esta vida, onde você acaba adquirindo hábitos que acabam sendo incorporados a sua vida profissional e pessoal.

Quando assisti ao filme, vi que tinha desenvolvido hábitos retratados em várias situações no filme, o que foi bastante cômico, pois fora impossível não realizar comparações e me reconhecer. Mesmo em viagens a lazer, eu acabo colocando tais hábitos em ação.

Não encarem o que vou dizer como sendo uma atitude preconceituosa e peço que olhem pelo lado cômico da situação.

Hoje mesmo, passei por uma destas situações. Peguei um vôo no aeroporto de Congonhas (a passeio). Na fila do Raio X, minha primeira ação (assim como no filme) foi procurar a “melhor” fila, que nem sempre é a mais curta. Com um breve olhar, em segundos é necessário realizar a opção. Automaticamente, comecei analisar quais deveriam ser evitadas. Filas com idosos, pais com crianças de colo, pais com carrinhos de bebê, mulheres cheias de bolsas, joias e acessórios, gente portando várias sacolas e travesseiro de pescoço, começam ser automaticamente descartadas. Por que? A resposta é exatamente a mesma do filme. Estas pessoas costumam realmente demorar na fila e quando se viaja tanto, você acaba chegando no aeroporto no horário mais próximo do seu voo.

Lembro de uma vez que quase perdi um voo no aeroporto Salgado Filho. A fila do raio X estava no saguão. A hora do meu embarque estava muito próxima e eu ainda não havia conseguido passar. Quando finalmente pude ver o scanners, havia um grupo de idosas discutindo com o agente do aeroporto, pois todas elas portavam facas na bagagem de mão, que haviam sido compradas em uma loja de fábrica. Parece óbvio para qualquer pessoa que costuma viajar, que é proibido portar este tipo de objeto na bagagem acompanhada, mas para quem não tem o costume, nem tanto. Na outra fila, um casal com 3 filhos pequenos. O pai, nervoso e enrolado, não conseguia dobrar o carrinho de bebê. A mãe, com um bebê no colo, berrando com o filho mais velho, que devia ter uns 5 anos de idade, que corria e passava de um lado para o outro do detector de metal e o agente alertando a mãe que não deveria permitir aquela atitude. Quando finalmente consegui passar, sai correndo para o portão de embarque e nesta hora, “os conselhos práticos” de Ryan Bingham sobre o tipo de bagagem que você deve utilizar fizeram toda diferença para que eu não perdesse o voo.

Há inúmeras cenas abordadas no filme, além da questão de escolha de bagagem e as filas de raio x, as quais vivenciei e vivencio, entre elas o uso de filas preferenciais, salas VIPs, frequentar tanto determinados aeroportos, hotéis, que funcionários começam a lhe identificar facilmente e lhe chamar pelo nome. Enfim, cada uma daria inúmeras stories.

Entretanto, mais que o lado da comédia no filme, o mesmo também aborda algumas situações que também vivencio e que acabam fazendo parte da vida profissional. Fatos como se acostumar com uma vida solitária, fazer as refeições sozinho, transformam-se em algo tão cotidiano, que hoje não me incomodo mais.

Mas por incrível que pareça, sabe qual o ponto que mais me identifico com o personagem?

Quando ele recebe a noticia que irá viajar menos e ficar mais tempo no escritório. Ryan, o personagem, sente-se tão incomodado, que tem a sensação que seu Mundo está por ser totalmente desconstruído.

Pela primeira vez, após eu passar quase 2 meses alocado no escritório, na segunda quinzena de Dezembro e boa parte de Janeiro, realmente pude ter certeza de que, apesar de extremamente cansativo, senti a angústia de ter uma rotina todos os dias. Uma sensação estranha de tristeza, tédio, aflição, fobia.

Em Fevereiro, consegui uma folga no trabalho e a primeira coisa que fiz foi marcar uma viagem de última hora. No dia, a caminho de Foz do Iguaçu (uma cidade que adoro e nem eu mesmo sei explicar o porquê desta minha conexão tão forte com a cidade), após a correria para chegar ao aeroporto, enquanto estava na sala VIP, o que para muitos é algo incômodo, impessoal, para mim simplesmente eu me sentia como se estivesse em minha outra casa.

Já dentro do avião, preparo-me para o momento que mais gosto, que é a decolagem. O que para muitos gera a sensação de desconforto e pânico, para mim, a sensação de aceleração rápida é puro deleite.

Durante o voo, parei para pensar o porquê desta necessidade e percebi que na verdade fui preparado durante a minha infância, adolescência para ter esta vida, principalmente pela semelhança com a vida profissional do meu pai. Mas isto, eu deixo para contar em outra story.