Ser gay — uma boa escolha.
“Se ser gay fosse uma escolha, ninguém iria querer ser hétero”, li algures na internet.
A frase é comprometedora. Pode até irritar muitos ativistas LGBT que lutam — e ainda bem que lutam! — pelo reconhecimento da homo e bissexualidade como orientações sexuais tão válidas como a heterossexualidade. Nenhuma orientação sexual é uma escolha, caso fosse, e agora sento um pouco mais sério, ninguém optaria por aquela(s) que implicam ainda alguma intimidação, constrangimento e desigualdade sociais.
Se realmente todos pudessem escolher a sua orientação sexual, seria de esperar que todos preferissem ser heterossexuais. E nossa sociedade foi pensada tendo por princípio que todos os indivíduos são heterossexuais e de que esta é a orientação mais “aceitável” para o normal funcionamento da humanidade. A este pensamento é atribuído nome de heteronormatividade. Assim, é muito mais fácil nascer heterossexual e não ter de lutar pelo direito a andar de mão dada na rua com o seu par sem sofrer o risco de levar com uma “boca foleira” ou até um murro.
No entanto, não estou aqui para condenar quem escreveu a frase que citei no inicio deste texto, bem pelo contrário!
Reparem, se, por um lado, todos (em sociedade) esperamos que os demais sejam heterossexuais, também é por nós esperado que assumam um papel enquanto tal. Assim, a heteronormatividade, antes de ser “a salvação da humanidade” tal como a conhecemos (ou tal como achamos que ela deve ser), é também um fardo que implica a concretização de determinados formas de ser e de agir. Ou seja, esperamos que homens e mulheres heterossexuais assumam um determinado papel, porque só assim serão reconhecidos como tal.
Nestas ultimas décadas, muito tem sido feito pelos movimentos feministas no sentido de abolir os papéis que são impostas às mulheres, nomeadamente às mulheres heterossexuais. Já não queremos que elas sejam hiperfemininas, submissas a um marido ou a um pai, escravas do lar, frágeis… Queremos que elas sejam livres! Queremos que sejam elas a construir as suas vidas como desejam e a dar o contributo que acham relevante para a sociedade. E aqui não é relevante se estas mulheres são heterossexuais ou lésbicas, brancas ou negras, cristãs ou ateias — são mulheres numa sociedade patriarcal, opressiva e injusta, e isso basta!
E os homens? Quem tem lutado pela libertação dos homens dos papeis impostos pela heteronormatividade?
Muitos dirão que não é preciso lutar para defender aqueles que já nascem privilegiados. Além da nossa sociedade ser heteronormatividade, ela também é patriarcal, ou seja, os homens detêm todos os privilégios. Mas serão todos os homens privilegiados? Não.
Basta pensar um pouco… Homens brancos e homens negros não tem os mesmos direitos nem são tratados de forma igual, assim como os homens ciganos, os homens sem-abrigo, os homens homossexuais, os homens transsexuais, os homens emigrantes… Afinal, se pensar ainda melhor, esta sociedade privilegia os homens, mas não todos. Se és homem branco, cristão, classe média, heterossexual, cis-género, etc., é provável que sejas uma pessoa “cheia de sorte”. Mas não é o suficiente ter nascido debaixo destes signos para se ser homem previligado, há que exibir inequivocamente a masculinidade como a sociedade exige. Isto passará por aparentar ter baixo coeficiente emocional, ser agressivo, competitivo… e, também, oprimir todos aqueles que se opõe, passiva ou ativamente, ao modelo de homem que a sociedade defende. Este ultimo requisito, muitas vezes passado de geração em geração de forma subliminar, implica, por exemplo, alienar direitos às mulheres, humilhar “os homens fracos”, ridicularizar as minorias… Enfim, este é o pai de todas as “fobias sociais” — homofobia, transfobia, xenofobia…
Então, ainda pensamos que os homens heterossexuais, brancos, cristão, blá blá blá… São privilegiados? Pensamos nós quantos deles realmente querem fazer parte deste grupo e partilhar estes valores? Não haverão homens que queiram ser sensíveis, preferir ballet ao futebol, incluir no seu grupo de amigos pessoas LGBT e frequentar os espaços a estes dedicados? Isto tudo sem comprometer o seu papel de “homem previligiado”? Claro que há! Mas a sociedade é igualmente injusta para estes homens.
Ser homem heterossexual e cis-género implica ser coisas que não se escolhem; coisas que a sociedade põe no prato sem que se seja pedido e mesmo sem que se goste. Aparentemente, este sistema que favorece estes homens parece funcionar perfeitamente, mas muito mais há a dizer para além das aparências. Por exemplo, é sabido que, embora as depressões tendam a ser mais prevalentes em mulheres, estas são muito mais difíceis de curar em homens. Também se sabe que, em média, as taxas de suicídio são maiores entre os homens. Porque? Porque, muito provavelmente, “os homens não podem demonstrar que são frágeis”, caso o façam, são “como as mulheres”, o que significa ser fraco. A sociedade criou um arquétipo de homem que exclui o direito de este escolher o que quer ser e o que quer parecer. Se, por um lado, os homens heterossexuais cis-género tem mais liberdade e poder, por outro há um preço a pagar: o de não ir muito além daquilo que a sociedade definiu que ele fosse. Assim, há toda uma limitação nos pensamentos, nos comportamentos e, notem, nos sentimentos.
Lembro-me do meu último ano de mestrado, quando conheci um amigo gay brasileiro. Ele era um ativista e juntos frequentamos, extracurricularmente, uma disciplina do curso de sociologia dedicada ao estudo do corpo, do género e da sexualidade. Pouco tempo levou a que ele me inserisse no seu grupo de amigos. Eram vários rapazes e raparigas, uns homossexuais e outros não, mas todos tinham em comum algo: eram brasileiros e estavam longe de casa.
O que mais me chocou — e mais tarde foi também o que mais contribuiu para que desenvolve-se um novo pensamento — foi a forma como esses amigos desse meu amigo eram livres! Os rapazes gays não queriam ser tratados como tal, tinham de ser chamados de “viados”. As raparigas achavam imensa graça a isso e gostavam de partilhar as suas vidas sexuais. Por outro lado, os rapazes heterossexuais brincavam com a sua própria sexualidade, imaginando como seria beijar outro homem e quem gostariam de beijar, se assim fosse. Não havia, naquele circulo, julgamento ou constrangimentos, as pessoas eram realmente livres e super à vontade. Como a descontração e a aceitação eram significativos, investia-se tempo e energia a fazer coisas divertidas como conversar até tarde a beber cerveja, guerras de pistolas de água no jardim de bikini e sunga, longos passeios, maratonas de filmes…
Aqueles “viados” orgulhosos e livres, bem como os seus amigos e amigas, viviam num clima de liberdade e alegria que não era semelhante a nada que tinha até então conhecido. Se um dos rapazes heterossexuais quisesse chorar pela namorada que deixou no Brasil, ele faria-o sem problemas, mas se também quisesse calçar os saltos altos de uma das amigas, também, sem problema. Todos ali eram gays! Porque todos ali estavam alegres! A heteronormatividade não entrava naquele grupo, ficava bem longe. Ali havia apenas pessoas que queriam partilhar ideias, emoções, histórias, sentimentos… E diversão. Nunca, jamais, as expectativas sociais relacionadas com o genéro e a orientação sexual se sobrepôs à identidade de cada um. Isso é a verdadeira liberdade.
Eu sei que a orientação sexual não se escolhe, mas, ainda assim, se se escolhesse, talvez a maioria quisesse ser gay e não heterossexual. Aqueles que tiveram de lutar para conquistar direitos, que tiveram de enfrentar provações e discriminação, tendem a ser aqueles que demonstram mais recetividade às diferentes formas de se ser. Tendem também a criar à sua volta espaços (físicos ou não) de maior expressividade, liberdade e orgulho face à identidade de cada um.
Todos os dias eu agradeço por ter conhecido estas pessoas e por poder ter passado tempo com eles. Se é para escolher, eu escolho a minha identididade, a liberdade, a justiça e a amabilidade. Estarão estes valores de que lado, dos heteressexuais ou dos LGBT? Não interessa… Sejamos todos… Gay!