A luta do jornalismo em plena democracia

Estamos diante de acontecimentos ligados diretamente à liberdade de imprensa — e precisamos manter os olhos bem abertos.

Desde a disputa eleitoral de 2016, da qual saiu vitorioso, Donald Trump tem constantemente falado duas intrigantes palavrinhas: fake news. O termo, que significa “notícia falsa”, em inglês, ganhou popularidade, tanto no que diz respeito à discussão, quanto à pratica em si, e hoje está cotidianamente em pauta.

Das acusações de assédio desde os tempos em que apresentava O Aprendiz até críticas por conta de suas atitudes machistas (grab them by the pussy [sic]), LGBTQfóbicas e xenofóbicas (como o muro na fronteira com o México e as medidas anti-imigração), para Trump, tudo o que não lhe agrada é falso.

Os ataques à imprensa se solidificaram após o início de seu mandato. Em 2017, chegou a barrar CNN, The New York Times, Los Angeles Times, Politico e BuzzFeed do briefing diário com Sean Spicer, então porta-voz da Casa Branca. Para Trump, estes veículos foram considerados publicadores de notícias falsas e inimigos do povo americano (uso esse adjetivo para traduzir, ao pé da letra, a opinião do presidente, pois eu uso estadunidense).

Em tempos nos quais o jornalismo enfrenta grandes dificuldades, principalmente financeiras (vejamos o que aconteceu com dezenas de publicações do Grupo Abril), quaisquer críticas a informação de credibilidade que chega, com muita luta, à população, só deixam a situação mais delicada. Contudo, é justamente nestes momentos que o jornalismo deve cumprir, como nunca, sua missão.

Cansados do desaforo, cerca de 350 veículos de comunicação dos Estados Unidos publicaram, na semana passada, editorais (tipo de texto que expressa a opinião do veículo) contra as atitudes de Trump à mídia.

O movimento, caracterizado pela hashtag #EnemyOfNone [inimigos de ninguém, numa tradução livre], surgiu no The Boston Globe, jornal que ficou conhecido mundialmente pela investigação de casos de pedofilia na igreja católica retratada no filme Spotlight: Segredos Revelados, vencedor do Oscar. No dia 16 de agosto, a capa do Globe estampava a frase “journalists are not the enemy” [jornalistas não são o inimigo]. A adesão chegou a jornais como o The New York Times e, também, a pequenas publicações espalhadas pelo país.

Insistir que verdades de que você não gosta são fake news é perigoso para a força vital da democracia. Chamar jornalistas de “inimigos do povo” é perigoso, e ponto final.
— The New York Times

Quando líderes políticos — principalmente chefes de estado — se acham no direito de apontar dedos sobre a imprensa, se torna, automaticamente, um processo de censura — coisa básica, qualquer um sabe. Garantida pela Constituição estadunidense, a liberdade de imprensa é colocada em xeque pelo presidente. A mídia, como chanceler da informação, não pode ser ameaçada ao monitorar a classe política e, uma vez cumprindo seu papel, ela evita abusos de poder das autoridades.

Agora, falando da nossa realidade, estamos diante de três acontecimentos ligados diretamente à liberdade de imprensa:

1. As eleições
Se nos Estados Unidos as eleições presidenciais foram terreno fértil para a disseminação das fake news (como assim até o Papa tá apoiando o Trump?), no Brasil, temos a faca e o queijo na mão para que a situação seja exatamente a mesma. Apesar das medidas que Facebook e Twitter, por exemplo, vêm tomando, é preciso manter olhos atentos.

2. A discussão sobre o futuro do jornalismo
Apesar de já estar em pauta desde que a Internet surgiu e assustou os jornais e muito se falar de que eles morreram, a realidade não é bem assim. O debate sobre o futuro do jornalismo precisa focar em como a função será exercida, e não na heresia de, sem mais nem menos, falar que o jornal impresso vai morrer. Seja no papel ou no digital, nunca se precisou tanto de um jornalista.

3. A reabertura das investigações sobre a morte de Vladimir Herzog
Após o Brasil ser condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, o Ministério Público Federal de São Paulo reabriu o caso da morte de Vladimir Herzog (até hoje, tentativas de esclarece-lo e responsabilizar os culpados foram barradas pela Lei da Anistia). Torturado e assassinado pelo regime militar, Herzog se tornou um grande símbolo da imprensa, à época, fadada à repressão das autoridades.

No momento em que nos vemos diante de cenários que lembram, de alguma forma, o que foi realidade para a imprensa durante quase 20 anos, seja com as declarações de um presidente ou, até mesmo, as subintenções de um grande (aqui, você que escolhe a entonação que quer dar a “grande”, mas, cuidado, é justamente sobre isso que vou falar) nome que se inspira nele e em nas peças principais da manutenção daquela realidade, é porque precisamos, urgentemente, parar e refletir. Queremos que tudo o que, hoje, é vergonhoso para a história recente do país, aconteça de novo? Se a sua reposta for sim, a democracia não é para você. Mas o jornalismo sempre será.