MEMÓRIAS DESCARTÁVEIS SÃO MARCA DA GERAÇÃO Z

Aplicativos como o Pokémon GO fazem sucesso por cada vez menos tempo. Isso revela uma tendência no consumo de informações, que é cada vez menos atrelado à formação de memórias.

Fernanda Santos
Juliana Chacon
Marcela Rodrigues

Atualmente, a rapidez com que as informações circulam é enorme e pode trazer muitas consequências para quem não sabe filtrá-las. A geração z é a geração que está à mercê dessas consequências, pois o consumo é cada vez mais rápido, descartável e imediato. À medida em que jogos e aplicativos vão aparecendo, outros que eram tendência são esquecidos. A superficialidade na informação devido à impaciência de obtê-la fica cada vez mais comum e pessoas que formam suas opiniões através de manchetes no Facebook se multiplicam.

O consumo imediato de entretenimento não é de hoje, mas vem se propagando devido a rapidez da informação. Na rede social Snapchat, o tempo máximo para mostrar uma fotografia ou um vídeo é de dez segundos, depois disso não é possível mais vê-los, a não ser que sejam salvos antes de serem publicados, (recentemente o Instagram também adotou a ideia). Os jogos que são grandes lançamentos e prometem revolucionar o mercado de jogos, dificilmente ficam no ápice de consumo por um ano ou mais. Esses comportamentos da mídia reforçam a forma superficial como estamos nos adaptando a consumir informações, sendo uma questão de oferta e demanda desse tipo de conteúdo. Um grande exemplo é o Pokémon GO.

O Pokémon GO foi lançado no Brasil no dia três de agosto de dois mil e dezesseis. Em menos de um dia, o aplicativo já tinha sido baixado por mais de 50 milhões de pessoas e foi o mais baixado na história da App Store. Na cidade de Santos não foi diferente: centenas de pessoas se juntavam na Praça das Bandeiras, no Gonzaga, atrás dos pokémons. Em qualquer lugar pelas ruas da cidade, crianças, jovens, adultos e idosos estavam na caça pelos monstrinhos. Na propaganda eleitoral da candidata à prefeitura de Santos Carina Vitral, o convite para caçar pokémons e conversar sobre cidades mais humanas declarava a febre do jogo na cidade e poucos foram os que escaparam. Mas, a mesma propaganda já não poderia ser usada no segundo turno, caso houvesse oportunidade, devido à queda de usuários do jogo. No final de agosto, mais de quinze milhões de usuários desinstalaram o aplicativo e isso pôde ser confirmado nas ruas e nas praças de Santos. Atualmente, dificilmente se encontra jogadores de Pokémon GO na Praça das Bandeiras, que antes abrigava multidões.

Praça das Bandeiras, em Santos-SP, aglomerando jogadores de Pokémon GO.

Na questão do imediatismo, o Pokémon GO é um mero detalhe diante de muitas outras tendências do entretenimento que já vieram à tona.

O professor André Luis Marques Ferreira Rittes afirma que o imediatismo não é uma característica específica da geração Z. Rittes acredita que isso está ligado a determinadas fases da vida do indivíduo em que o desejo de que as coisas aconteçam mais rapidamente é constante. Segundo o professor esse desejo prevalece principalmente no término da vida escolar. “Nessa hora existe uma vontade que as coisas aconteçam de uma maneira rápida, até porque quando a gente está na escola parece que o tempo não passa, a gente demora para chegar no fim do ensino médio”, afirma.

Rittes conta que o imediatismo se torna um problema quando a memória é dissolvida. Ele explica que a geração Z tem uma tendência maior à dissolução da memória. Se tratando da memória fotográfica, antes da era digital havia um cuidado maior para manter as fotografias, atualmente esses registros são, na maioria das vezes, descartados. “As pessoas que têm a foto hoje, digitalizam, jogam dentro do PC, jogam no Facebook e vão construindo bem ou mal uma memória. As pessoas que têm facilidade de registrar minuto a minuto, não têm esse registro como coisa de memória, mas sim como registro do momento. E aí depois que o HD enche, e o cartão de memória também, descartam tudo. A memória de verdade só pode ser feita no contato de gerações diferentes”.

Se tratando da velocidade da informação, ele cita o filme “Caçadores da Arca Perdida”, de Steven Spielberg. Quem assistiu esse filme no cinema, tinha a sensação que não havia tempo sequer para respirar, mas quem assiste esse filme atualmente, acha que está lerdo demais. Segundo ele, os filmes de super-heróis da Marvel, DC e outros, têm uma velocidade vertiginosa e há muitas pessoas que simplesmente não conseguem acompanhá-los. “A gente tem um aumento da velocidade em todos os níveis, as músicas são mais rápidas, as tramas de livros são mais rápidas. Um escritor como Stephen King não nasceria mais, pela densidade dos livros, ninguém quer mais”. Ele ainda afirma que isso resulta em pessoas lendo manchetes ao invés de ler reportagens, querendo ver o trailer do filme ao invés de ver o filme, querendo ver o compacto do jogo de futebol ao invés de ver o jogo inteiro, ver resumo de livro na internet pra não precisar ler o livro todo.

O psicólogo Luiz Antônio Guimarães Cancello acha que o consumo rápido nasceu muito antes da geração Z. Segundo ele, esse imediatismo nasceu de duas coisas: o clipe e o surgimento de filmes que encurtaram as cenas. Assim como Rittes, ele também cita “Os Caçadores da Arca Perdida” de Steven Spielberg. Cancello ainda indica uma pesquisa que diz que a média que as pessoas veem os vídeos é de 14 segundos, pois só assistem por inteiro o que lhe interessam, quando assistem. Segundo ele, de fato as coisas estão ficando mais rápidas, o que contribui para a diminuição do hábito de leitura e aprofundamento. Para ele, os textos impressos ainda são muito mais aprofundados que as notícias digitais e são poucos os portais de notícias que investem em textos longos e densos, mas isso não é de agora.

No que diz respeito às consequências que o consumo imediato pode trazer ao indivíduo, afirma: “Um cara da minha geração (a geração X), com os valores da minha geração, vai falar que é um consumo que não tem sentido nenhum, não constrói nada, não cultiva nada e tem de fato esse aspecto”. Ele continua dizendo que as outras gerações dificilmente leem uma obra densa e no caso dos objetos o comportamento é automático: quebrou, joga fora. Mas ele faz críticas aos autores que criticam outras gerações com base nos valores das suas, como a afirmação de que tudo é sólido e se desfaz. “E daí que tudo é sólido e se desfaz? E se esse for o modo de vida possível?”, questiona ele. “Mas, a grande preocupação atualmente, é o número de pessoas que vão ter a paciência de estudar, suportar o tempo necessário para se formar”.

O psicólogo explica que há dois tipos de memória: a memória de longo prazo, que fixa as histórias de família, por exemplo e a memória de trabalho, que é uma memória imediata. “Hoje no ambiente de trabalho, você tem que ter essa memória (de trabalho) extremamente desenvolvida, porque são muitas informações que não é possível guardar, de fato”. E isso resulta na falta de paciência para se concentrar em assuntos aprofundados.

Outra característica da geração Z é levantada por Cancello que diz que essa geração é a da ansiedade, pois tudo acontece mesmo tempo e tem que ser rápido. Ele observa que a questão da ansiedade vem crescendo e há também muitos diagnósticos de depressão, que estão atrelados ao fato das pessoas não conseguirem dar conta de tudo isso. O Japão é um grande exemplo nesse aspecto. Só em 2015, mais de 20 mil pessoas se suicidaram. Esses casos acontecem principalmente na fase de passagem da universidade para o mercado de trabalho. Cancello acredita que a geração z e as próximas gerações vão sofrer desse mal por muito tempo.

Teorias sobre o paradeiro da velocidade de informação e do consumo rápido não faltam. Entretanto, os dois professores afirmam que tudo que envolve o futuro são apenas especulações, ou seja: tudo pode acontecer.

Veja nossa linha do tempo e relembre alguns aplicativos virais utilizados pela geração Z:

Confira também um vídeo sobre o assunto: