Sua vidinha não é apenas uma "vidinha" — ou porque você deveria se importar com os dados que compartilha

Era um post irônico no Facebook dizendo: "ninguém está monitorando sua vida, porque sua vida é entediante”. Sua vida, pelo menos a digital, é um universo inteiro, isso sim!

Por saber um pouquinho do assunto, resolvi escrever a minha visão. A idéia é falar sobre alguns exemplos de dados que deixamos por aí, o que pode ser feito com eles, o porque de ser difícil se incomodar, e porque você deveria se importar com o assunto.

Somos multitarefa na nossa vida digital! Não nos damos conta de quantas interações distintas são comuns de realizarmos no nosso dia-a-dia, mesmo que você considere o seu perfil entediante. A quantidade de informações que pode ser levantada em relação a nós é gigantesca.

Peguei algumas interações normais pra mim que podem ser comuns para você também. A idéia é lembrar como são suas interações em cada um desses lugares e talvez fazer você enxergar quais tipo de dados você deixa e que podem dizer muito sobre você (recomendo esse texto com exemplos).

  • redes sociais (Linkedin, Twitter, Facebook e Instagram)
  • diversos sites que você entra através de uma pesquisa no Google (quantas palavras-chave diferentes você não deve deixar de rastro?)
  • leitura e escrita de emails
  • lojas virtuais de diversos setores: eletrônicos, roupas, ingressos, livros, companhias aéreas, reservas de hotel, promoções
  • internet banking
  • ferramentas de comunicação
  • ferramentas de geolocalização (Maps, Waze)
  • cursos online
  • sites de backup e sincronização como Dropbox
  • votação de propostas políticas
  • Netflix
  • pagamentos (Paypal)
  • música (Spotify, Soundcloud)
  • plano de saúde
  • telefonia

Dentro dessa lista, existem interações que demandam menos tempo, como internet banking ou plano de saúde. Existem interações com tipos totalmente diferentes de dados, tais como telefonia e votação de propostas políticas. Todos esses distintos dados, quando cruzados, podem resultar em um completo perfil sobre você. Mas dentro de todas essas interações, a mais complexa, dispendiosa e completa de todas, é o Facebook. E ele sozinho merece uma sessão inteira.

Facebook

Segue uma lista com os dados que o Facebook coleta e está nos termos de política e privacidade nunca lido por nós(sobre esse assunto, deixo o Terms and Conditions May Apply pra assistirem):

  • conteúdo gerado por você
  • dados ao criar um conta (nome, telefone, data de nascimento, gênero)
  • mensagens trocadas (imagine o universo que isso é)
  • localização de uma foto
  • quando um arquivo foi criado
  • tipo de conteúdo que você visualiza ou é mais engajado, a frequência e a duração dessas atividades
  • dados de quando se faz o uso de "tags", envia uma mensagem ou faz alguma coisa com algum contato (exporta, envia para outra pessoa ou atualiza)
  • grupos que você está conectado; as pessoas desses grupos que você interage mais
  • dados de pagamentos: cartão, endereço de entrega e contato
  • dados do aparelho: sistema operacional, versão de hardware, configurações, força do sinal e da bateria, identificadores de aparelho, localização através de GPS, bluetooth e WiFI
  • nome da sua operadora, qual seu navegador, linguagem e timezone
  • número do telefone e endereço IP
  • dados de site “terceirizados”: sites que você entra usando seu login do Facebook, sites com o botão de like ou que usam serviço de publicidade do Facebook

Uma mero like em uma página pode dizer muito sobre você e sua personalidade. Um pedacinho de um texto muito interessante sobre internet centralizada:

"O que é mais assustador do que ser meramente observado, é ser controlado. Quando o Facebook pode conhecer-nos melhor do que nossos pais com somente 150 likes, e melhor do que nossos cônjuges com 300 likes, o mundo parece bastante previsível, tanto para os governos quanto para as empresas. E previsibilidade significa controle."

A partir desses likes e de todo o conteúdo gerado por você, o Facebook utiliza mecanismos que vão controlar o que aparece em sua timeline. De maneira que tudo que você interage seja mais de acordo com os seus interesses. Um dos problemas disso?

"É possível que essas formas de organização das redes sociais efetivamente causem mais homogeneidade de discursos entre usuários com interesses similares, verdadeiras “bolhas” online, nas quais se ouve apenas o que se quer. Nesses contextos, há menos debate entre pessoas com opiniões diferentes e até mesmo a radicalização de discursos."

Continuando o raciocínio das "bolhas", é muito difícil após ser inserido em uma, ter forças para procurar informações que suportem diferentes pontos de vista dos nossos. Dentro de uma bolha, nossa visão é ofuscada, dificultando enxergar o mundo de outras maneiras. Isso nos deixa tendenciosamente mais frágeis para aceitar tudo aquilo que chega a nós. Podendo muitas vezes esse conteúdo ser de origem muito duvidosa, onde notícias falsas que poderiam ser validadas com uma pesquisa básica, são compartilhadas por milhares de pessoas (Conheça as notícias falsas sobre a Lava Jato que mais tiveram repercussão na internet e Facebook’s failure: did fake news and polarized politics get Trump elected?).

Essas bolhas são invisíveis, não vemos ela ser criada ao nosso redor, e nem temos noção do tamanho da mesma. O Facebook nos dá uma falsa ilusão que estamos escolhendo nosso conteúdo e navegando livremente. A realidade é que toda experiência e conteúdo é controlado por de trás dos panos.

O que eles fazem ou tentam fazer com esses dados.

  • identificar ameaças
  • identificar indivíduos que possam ser considerados uma ameaça política
  • impedir a liberdade da informação
  • explorar comercialmente por milhares de anúncios
  • criar perfis coletivos, por exemplo, identificando a identidade política de uma cidade e influenciando como candidatos vão gerenciar sua campanha política e atingir os cidadãos. (aqui uma reportagem sobre como isso pode ter acontecido na campanha do Trump)
  • mudar o preço de um produto que deseja comprar baseado em sua localização (preços mais caros em bairros mais nobres)
  • obter informações de saúde (prontuário médico): risco para uma pessoa de ser excluída de uma possível vaga de emprego, plano de saúde com preço super alterado ou ser negado em um possível empréstimo. Um exemplo que vi recentemente nesse artigo da Carta Capital sobre a SulAmérica Saúde:

“A empresa SulAmerica Saúde, por exemplo, mantém um aplicativo para dispositivos móveis que colhe dados de localização dos usuários o tempo todo.
Para que ela usa esses dados? Não está claro. Mas saber quais lugares uma pessoa frequenta e em que horários, quantas horas trabalha, se faz horas extra, por exemplo, pode ser definidor de quanto cobrar em um seguro saúde.”

  • por menor que seja, sua navegação fica mais lenta devido aos trackers (ferramentas para captar suas interações) carregados na página

Porque eu acho difícil você se importar! 😴

" Se os Correios estivessem abrindo suas cartas, lendo e, com as informações ali obtidas, direcionando empresas ao seu encalço, você não concordaria, certo? Mas no mundo online pouca gente parece se preocupar."

Nunca subestimamos tanto o valor de nossos dados. Não é possível sentir essas informações sendo distribuídas ou utilizadas em diversos lugares. Essa coleta e direcionamento de dados e informações é invisível aos nossos olhos.

A justificativa também para coletar dados às vezes vêm em momentos de fragilidade da população. Os EUA aumentaram consideravelmente o nível de coleta de dados após o 11/09, tudo com a justificativa que seria para evitar ataque terroristas. Imagine alegar isso depois de um atentado à Copa do Mundo no Brasil. A maioria da população não ficaria relutante nem por um segundo.

Mesmo sistemas que já oferecem algum tipo de configuração para que nossos dados não sejam coletados, fazem isso de maneira a dificultar como se encontra esses filtros a serem alterados. Isso reforça o quanto nossas informações são valiosas para essas páginas.

Outro ponto é a distância entre pessoas da área de tecnologia e usuários comuns. Como explicar para uma pessoa que recém ganhou um smartphone que seus dados estão sendo coletados e é por isso que sua TV comprada na internet não foi tão barata quanto ela pensou que iria ser?

Essa distância faz com que páginas, sistemas e aplicativos que têm segurança e privacidade como foco ainda estejam apenas engatinhando em termos de usabilidade para usuários comuns. Também faz com que a dinâmica de seu funcionamento seja um pouco mais complicada para essas pessoas. Por exemplo, usar email com criptografia não é difícil, mas é muito mais fácil usar um gmail da vida (o pixelated tenta mudar isso).

Mas porque você deveria se importar! 👊

  • hoje você pode não se engajar em alguma questão política, mas amanhã pode ser que se engaje, e aí vai lembrar de todos aqueles jornalistas ou ativistas que foram investigados por algum post no Facebook e vai mudar seu comportamento. Provavelmente não vai se expressar da maneira que naturalmente faria em uma rede social, em uma conversa de Whatsapp ou email. É provável que já não vai ter a mesma coragem pra ficar procurando no Google sobre um tópico mais polêmico como tinha antes pra procurar sobre tatuagens.
  • o quão prejudicial é a sensação de ter a certeza de estar sendo vigiado, mas pior ainda é a possibilidade de estar sendo vigiado e não saber exatamente de que maneira se comportar (isso me lembra a primeira frase do livro 1984 e o impacto da mesma)
  • é imensurável a quantidade de dados que nós geramos, e as técnicas de análise não são perfeitas, trazendo grande risco de falsos positivos, trazendo risco físico à população
  • essa perseguição de pessoas a partir da vigilância em massa já acontece em regimes autoritários
  • evidências recentes sugerem que vigilância em massa não é uma ferramenta eficiente para evitar ataques terroristas, mas que métodos tradicionais se mostram muito mais eficientes
  • O quanto o sistema de controle dos nossos dados pode ser frágil, em que funcionários de empresas acessam dados de pessoas famosas ou conhecidas, como aconteceu com a Uber.

E aí?

Até hoje, o Brasil não dispõe de uma lei para regular a coleta, armazenamento, processamento e divulgação de dados pessoais. Regular essa prática não significa impedir que dados sejam coletados e pesquisados para trazer benefícios sociais — como, por exemplo, quando informações da população são usadas para analisar uma epidemia de saúde ou desenvolver políticas públicas para atender a uma parcela específica da população.
Mas é preciso estabelecer princípios e critérios para que isso aconteça e, assim, garantir que nossos dados não sejam usados para atender a interesses comerciais,contra a nossa vontade, ultrapassando limites éticos e legalmente aceitos.

É importante espalhar o conhecimento sobre o assunto, gerar discussões e criar ações que tragam essas pessoas para se comunicarem em uma linguagem comum. Entender os prós e contras da vigilância em massa e coleta de nossos dados.

É fácil pensar como na época da eleição. Somos apenas um voto, não fazemos diferença. Acho que exige um pouco de empatia, sentir que tem outras pessoas precisando disso, assim como conhecemos outras pessoas que não são ta privilegiadas na vida, como nós, lendo esse texto. O quanto o meu conforto ou inércia pode influenciar na sustentabilidade coletiva.

Acredite, apesar das notícias apontarem que existem ladrões, pedófilos ou ataque terroristas sendo articulados na internet, existem muito mais pessoas tentando fazer o bem, precisando desse cuidado. Tentando transformar nossa comunidade, nossa política, nossas vidas. Se você pensa que não precisa esconder nada, ajude a quem precise esconder, um dia você pode precisar também.

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