BLACKBIRD

“Não tem problema, Gus. Logo a gente vai tá em Tramandaí e tudo vai ficar bem.” Ela havia dito, tocando o ombro dele gentilmente. “Vai ficar tudo bem. Tu vai ver só…”

As palavras de Mariana se misturaram a uma rajada de vento enquanto Gustavo caminhava pela rua. A voz da amiga ia e vinha dentro de sua cabeça, dizendo muito e ao mesmo tempo nada. Ao sentir frio e colocar o capuz, deu aos estranhos por quem passava a exata noção do tipo de pessoa que era aquele menino de rosto pálido: um tanto irônico, um tanto problemático.

Sentiu o celular vibrar, mas não era seguro tirá-lo do bolso ali, então o deixou vibrar e vibrar e agradeceu a si mesmo por tê-lo posto no silencioso antes de sair. Sua mente, ultra ciente de tudo e todos ao seu redor, ia de um estímulo visual ao outro: Senhoras pegando o ônibus, cujas mãos enrugadas seguravam barras de metal que poderiam muito bem residir no fundo de seus olhos aflitos; o sol lentamente cedendo seu lugar para uma noite que há muito tempo já dominava o interior daquele jovem andante. Assim como Gustavo, com seu passo apressado e feroz, o mundo seguia indo para qualquer direção que o levassem.

Depois de um tempo caminhando, chegou ao bairro. Alguns moradores já o reconheciam e Gustavo se viu abanando para jovens semelhantes a ele, mas cujos problemas provavelmente iam muito além de questões existenciais.

“Poxa” Disse Pedro, após Gustavo bater em sua porta. “De novo? A gente é amigo faz uns sete anos e tu nunca me visitou tantas vezes. É pra ser um negócio recreacional, meu.”

Gustavo limitou-se a sorrir e segundos depois já estava dentro da casa do amigo. O lugar cheirava a incenso e arroz queimado. Enquanto ia da sala para a quarto, viu o pai de Pedro na cozinha, andado para lá e para cá enquanto uma nuvenzinha escura saía de uma das panelas e dirigia-se ao teto. Quem faz arroz às seis da tarde?

Lá dentro, a situação foi a mesma de sempre. Pedro seguia lançando olhares preocupados em direção ao amigo durante o processo, apesar das constantes explicações de Gustavo que aquilo fora exatamente o que sua psiquiatra lhe recomendara — mesmo que indiretamente. Depois de um tempo, o amigo entrou na onda e os dois abandonaram o plano terrestre. Enquanto sua cabeça ia se esvaziando e esvaziando, Gustavo brincava de pega-pega com suas memórias, que tomavam as mais estranhas formas e contornos. Viu-se de novo naquele dia em que deixou de ser criança e tornou-se adulto e então deixou de ser adulto e tornou-se idoso e finalmente voltou a ser criança novamente. O dia em que tudo mudou.

Acordou nos braços de Pedro, chorando, e engoliu o próprio grito.

Já era quase noite quando voltou para casa. Havia se tornado relativamente eficiente na modalidade olímpica conhecida como “Caminhada rápida da sala até a segurança e paz de seu quarto”. Desta vez, porém, iria ter que se contentar com uma quase medalha. A mãe lhe pegou do braço antes que ele pudesse chegar até o quarto e, no breve instante em que seus olhares se encontraram, Gustavo quis entrar para dentro de si mesmo até virar um grande e impossível nada. Se viu, mais uma vez, naquele dia em que o fizeram errado, que arrancaram sua humanidade e tudo se tornou escuro enquanto ele chorava, pensando que nunca mais veria seu pai ou sua mãe ou o céu azul ou qualquer outra coisa. Tudo isso em um segundo, e então o olhar — como todo resto — se quebrou.

“Onde tu estava, Gustavo? ” Perguntou ela.

“Eu tava com a Mariana, na Redenção, mãe. ” Ele disse, já se preparando para escapar.

“Fica aqui. ” Ela manteve a mão ainda em seu braço. “E não vem inventar história. Eu falei com a Mariana e ela me disse que tu saiu depois das seis. Já são onze horas, Gustavo. Onde tu estavas? ”

Os dois beiravam o precipício. Em um mundo melhor, ele poderia chorar nos braços dela e os dois pediriam desculpas por tudo que deixaram de fazer um pelo outro. Talvez encontrassem um campo comum e a vida de Gustavo pudesse deixar se ser uma eterna caminhada rápida de uma desilusão até a outra. Não foi o que aconteceu.

Estava agora deitado na cama, os braços jogados para os lados e um pé com meia e o outro sem. O ar era leve e quase não se ouviam os sons vindos lá de fora, daquele mundo ruim como remédio amargo. Gustavo abria e fechava seus punhos enquanto pensava se deveria estar irritado com Mariana ou não. Sentiu que, independentemente de um possível ressentimento, ele não poderia ser estúpido a ponto de afastar a única pessoa capaz de abraçar sua sujeira. Sua mente então vagou por diversos compartimentos; ele lembrou dos braços de Pedro e riu interiormente da aleatoriedade de tudo aquilo. Daqui a alguns dias, iria para Tramandaí e já até havia conseguido contato lá para eventuais escapadas da realidade. Era um homem mais velho, dissera Pedro, que por alguma razão haviam apelidado de “Verão”. Pois bem, o contato de Verão já estava no celular de Gustavo. Ele não brincava com o negócio.

Acordou com os raios de sol em seu rosto e o silêncio lhe dizendo que ainda era muito, muito cedo. Levantou, colocou sua cueca, pegou a guitarra e sentou-se perto da janela. A poltrona gelada contra suas costas nuas lançou um arrepio por seu corpo e ele abriu a janela, inalando o ar gélido. Lá fora, todo tipo de coisa deveria ter acontecido. Será que alguém havia tido seu coração quebrado, o rosto banhado em ácido? As noites de Porto Alegre eram sempre muito previsivelmente imprevisíveis. Pensou naqueles que haviam perdido suas vidas e nos que a haviam ganhado. No final, não conseguiu decidir quem havia levado a melhor.

Será que iria conhecer alguém em Tramandaí naquele verão? Seria Verão alto, com cara de galã, ou um daqueles senhores de aparência inofensiva, que geralmente não se associa com o tráfico? Seria o nascer do sol mais bondoso contra seu rosto após as eventuais noites na praia?

Seus dedos então começaram a correr entre cordas e acordes, gerando a melodia daquela música dos Beatles que ele gostava tanto. Eram seis horas da manhã e mais um dia se erguia nas costas do último. Talvez fosse essa a razão para ele suportar sua existência: não era divertido ver tudo se construir e cair novamente?

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