Ele era um homem quieto

Para aqueles que ajudaram.

Seus olhos cansados encaravam, vez ou outra, a arma em seu colo e o telefone ao lado do sofá.

Um longo suspiro e o Capitão levantou, trazendo em seguida a mesa onde o telefone repousava para sua frente com um só puxão. Sentado ali, na biblioteca de sua casa, ele olhou para a arma. Já havia acostumado-se com a sensação do aço gelado contra sua mão mesmo quando não estava segurando o objeto. De certa forma, pensou, tal constância era reconfortante.

Checou seu relógio de pulso. Ainda deveriam faltar uns quinze minutos até o fim da conversa. Iria Alexandre ligar logo após sair dali? Ou talvez deixasse para vir pessoalmente? Conforme as possibilidades se amontoavam em sua cabeça, o Capitão ia checando o relógio incessantemente e sentia uma enxaqueca se formando aos poucos.

Salvo pelo jardineiro lá fora e os carros na rua, os sons do mundo se faziam ausentes. Havia chovido mais cedo, e o ar agora parecia querer oprimir e derrubar tudo com seu peso e umidade — o cheiro da terra molhada, que normalmente encheria o Capitão de calma, agora suprimia todos os outros odores de forma exagerada. Não importava o que tentasse fazer, era como se aquele miasma de incerteza não pudesse ser dissipado por nada além do tocar do maldito telefone.

Sabia, entretanto, que esse não era o cerne do problema. Não, era muito mais que isso — a insolência e orgulho de Alexandre e, até um ponto, seu próprio descaso haviam sido os elementos formadores da ruína na qual os dois agora se encontravam. Dentro de seu peito e mesmo com a saudade, o Capitão não podia deixar de sentir um arder raivoso. Como pudera Alexandre ser tão irresponsável?

A memória da primeira vez que Alexandre entrara em sua sala, durante aquela manhã de Maio, era ainda a última coisa que o Capitão via todas as noites, antes de dormir. A ocasião fora fruto de uma insubordinação — o rapaz não havia aparecido para um posto de guarda após ir a uma festa e dormir demais. Disseram ao Capitão para apenas ser ríspido e obter um pedido de desculpas formal, pois os pais de Alexandre já haviam conversado com pessoas no escalão superior e garantido que nada fosse acontecer com ele.

Não havia nervosismo ou vergonha na fala do rapaz, o que deixou o Capitão um pouco desnorteado desde o início. Era claro que o pedido de desculpas não iria acontecer — ele parecia ciente de seu status privilegiado. Ao mesmo tempo que tentava lidar com a situação, o Capitão se encontrava percebendo cada vez mais a aparência do rapaz: seus olhos verdes; a farda que parecia estar um pouco apertada; as veias salientes nos braços. Sentiu-se errado, como sempre, mas em sua idade e experiência já estava acostumado a ter de lidar com tais questões de forma discreta.

Ficou pensando naquilo por vários minutos após Alexandre ir embora. Odiou-se por completo ao se pegar lembrando da textura da mão do rapaz quando a apertou e das notas de seu perfume, que insistiam em permanecer na sala mesmo após ele ter saído. Foi mais cedo para casa, ainda imerso em detalhes: a forma como Alexandre mexia as mãos quando falava, seu pomo de adão subindo e descendo. As duas mãos apertavam o volante com força enquanto o Capitão dirigia e tentava, sem sucesso, parar de pensar no assunto.

Alexandre estava sempre lá quando o Capitão chegava de manhã ao quartel, dando voltas na pista de corrida. Independentemente do clima ou do quão cedo o Capitão chegasse, Alexandre era sempre o primeiro cabo de pé. Durante a tarde, quando não estava de serviço, lia sentado nos bancos — cada semana um livro diferente. O Capitão buscava, sempre que possível, obter informações sobre o rapaz, mas para as pessoas com quem falava — sempre fingindo um tom desinteressado — esse parecia ser apenas outro cabo.

Havia também, é claro, as redes sociais. O Capitão acompanhava as fotos e status postados e o fazia sempre antes de dormir, o que tornava o processo mais difícil ainda do que apenas com a insônia regular. Notava seu quarto maior, vazio de alguma forma, carecendo emoção e vida. Os movéis que um dia tanto gostara agora pareciam só móveis: sua história e significado eram lentamente erodidos pelo tempo na medida em que não agregavam nenhum valor novo. Eram apenas coisas.

A batalha em sua mente era constante. Não conseguia naturalizar seus atos e ao mesmo tempo os entendia como naturais. Os casais na rua eram agora abundantes, mesmo na cidade pequena onde ele morava. No mesmo dia podia ver até uns três. Sabia que não errado, mas não entendia como fazer para não sentir que o erro ainda estava lá o tempo todo. A imagem da palma da mão de Alexandre estendida sob a mesa, no momento em que tudo começou, confortava-o ao mesmo tempo que carregava consigo um gosto agridoce. Em um momento, quando lembrava do rosto do rapaz contra o seu e do perfume que preenchia todo ar ao seu redor, durante o primeiro beijo, a contradição parecia irrelevante. Em outro, era um ferro em brasa que insistia em queimar seu peito e lembrá-lo do erro de seus hábitos.

Vrrzzzom. O jardineiro agora passava com o cortador de grama perto da janela. Quase como uma criança que acorda de um sonho apenas para cair em outro, um atlas em uma das estantes de livros da biblioteca capturou a atenção do Capitão e ele se viu imerso novamente em memórias — desta vez de um tempo diferente.

Estava na cozinha de sua casa, com apenas doze anos. O vapor saía das panelas no fogão enquanto seu pai cortava as batatas e sua mãe preparava os ovos para a salada de maionese. Sentado na mesa, o pequeno Júlio discorria sobre o relevo do Rio Grande do Sul. No ar, pairava o cheiro do tempero verde recém cortado.

- Júlio, — começava a mãe — ano passado tu não tirou mais que cinco em Geografia!

- Acho que vou melhor esse ano, mãe.

Segurou as lágrimas ao sentir os fragmentos das memórias se misturando em sua cabeça. Houvera um dia em que ele lembraria de toda sua infância com facilidade, do tempo em que era Júlio e não o Capitão. A imagem da sala de sua casa antiga se formou — porta-retratos antigos nas paredes, o fogo crepitando na pequena lareira perto da TV de tubo. Estava sentado na poltrona de seu pai com cobertores e almofadas ao seu redor enquanto sua mãe tentava tirar sua temperatura com um termômetro.

- Olha, acho que tu não vai poder ir amanhã. Essa febre não tá dando sinal de baixar.

A voz de Júlio estava rouca demais para dizer que era o aniversário do professor e que sim, ele achava que conseguia levantar e ir pra aula. Sem problema nenhum, ia adorar. Ia ser tão legal sair de casa! Não foi à aula por quatro dias enquanto se recuperava e, quando voltou, sentiu pela primeira vez a mistura de alívio e animação que se sente quando se está apaixonado.

É claro que, como sempre acontecera em sua vida, os frutos de tal infatuação foram tornando-se progressivamente mais amargos. O tempo todo, enquanto tentava permitir que sua mente continuasse vagando para longe do problema, a situação presente se fazia constante em sua mente. Queria esquecer aquilo — o telefone, a arma, a biblioteca — mas não conseguia. O sofrimento insistia em perseguí-lo, e ele nunca fazia o suficiente para escapar de suas garras. Aparentemente, estava fadado a ser seu próprio carrasco.

Tentou pensar nos momentos em que a vida não era assim. Poucos, é claro, mas não inexistentes. A verdade é que sim, houvera um momento em que o Capitão e Alexandre dividiam tudo e, dentro desse contexto, a necessidade por segredo apresentou uma oportunidade para conhecer outras cidades e lugares. Nos fins de semana livres, iam almoçar em municípios minúsculos e passavam as tardes explorando e encontrando a vida na inocuidade do desinteressante.

Dentre todos os locais visitados, o melhor certamente fora São Agustino, uma cidade pequena na Serra. Programaram-se para passar apenas um sábado, mas perceberam que não haveria tempo suficiente para ver tudo assim que chegaram. A cidade era coberta por uma simplicidade reconfortante, um sentimento de liberdade quase atemporal. Ali, o Capitão sentia-se extremamente próximo da liberdade com a qual tanto sonhava.

Exploraram museus e prédios antigos. No domingo, decidiram visitar uma cachoeira que ficava perto do hotel onde estavam. Após uma caminhada longa, que fez as juntas e o ego do Capitão doerem, finalmente chegaram ao local. A cachoeira era enorme, formando bolhas na área onde a água que caía encontrava o riacho lá embaixo.

Ficaram nus e tomaram banho juntos até o entardecer. Voltaram em ônibus diferentes para não causar suspeitas, e no caminho de volta inteiro o Capitão lembrou da sensação de estar nos braços de Alexandre e da forma como seus corpos se tocavam. Não dormiu em momento algum aquela noite e trabalhou o outro dia com uma vitalidade e disposição que há muito tempo não sentia.

Assim passaram os próximos meses: em idas e vindas de aventura enquanto o Capitão se apaixonava cada vez mais pelo rapaz. Foi então que chegou a fatídica quinta-feira na qual o Capitão foi convocado para uma reunião com seu superior. Não pode deixar de pensar na primeira vez em que havia conversado com Alexandre ao entrar na sala e se sentar na mesma posição em que o rapaz havia sentado. Durante a conversa, sua mente muitas vezes tentara fugir para memórias mais alegres, sem sucesso.

A conversa foi breve e direta: a informação sobre o caso dos dois já havia se espalhado a um certo ponto e seria ideal impedir que a mesma chegasse aos ouvidos de mais pessoas. Não era uma questão de preconceito, dissera o superior, mas sim de manter a integridade da imagem das forças armadas. Assegurou o Capitão de que seu posto seria mantido, mas que o rapaz teria que ser transferido — dessa vez de verdade.

O Capitão saiu de lá com o coração praticamente pulando do peito e um profundo senso de vergonha correndo por suas veias. Ao mesmo tempo que sabia que a informação era sabida por relativamente poucas pessoas, sentia o olhar de todos ao cruzar o pavilhão. Dirigiu para longe do quartel, entrando em ruas desconhecidas e desertas, e então chorou como nunca havia chorado antes. Sentiu o velho horror tomando conta de sua mente enquanto a sensação do fogo em brasa contra seu peito retornava e o fazia chorar ainda mais.

Acompanhava agora o movimento das cortinas na biblioteca e a luz que entrava pelas janelas quando o vento as levantava. O peso da arma em seu colo pareceu então maior, mais concreto, como se ele e o objeto pudessem se tornar um só com o passar do tempo.

Pulou do sofá e derrubou a arma quando ouviu o telefone tocar. Se desequilibrou ao atendê-lo e caiu de joelhos em cima do tapete do escritório, sentindo sua maciez contra a dureza dos pensamentos que agora tomavam conta de sua cabeça.

- A-Alô? — Perguntou.

Não ouviu nada além da respiração de alguém.

- Alexandre? Tu tá aí?

A mesma respiração, de novo. Tentou lembrar dos momentos em que ouvira Alexandre respirar, mas não conseguia definir se aquela era sua respiração ou não. Podia ser qualquer outra pessoa.

Sentiu uma pontada em seu peito ao finalmente ouvir a voz do outro.

- Sou eu, sim. Tô ligando pra dizer que…

O tempo todo, as engrenagens no cérebro do Capitão se moviam, tentando captar precisamente o sentido de cada palavra conforme as ouvia. Engoliu em seco e, antes mesmo que pudesse notá-las, as lágrimas já rolavam por suas bochechas, repousando em seu bigode branco.

Deitou-se de barriga para cima no tapete e encontrou o familiar aço frio da pistola com a mão que não estava segurando o telefone. Fechou seus dedos ao redor do objeto e suspirou, seu peito subindo e descendo enquanto ele respirava. Viveu então naquele limbo de possibilidades enquanto as lágrimas tomavam conta de seu rosto e sua respiração se tornava mais e mais rápida.

Uma rajada de vento levantou as cortinas de pano da janela e o Capitão olhou para as nuvens que passavam pelo céu azul lá fora. Estariam elas também, perguntou a si mesmo, em busca de alguém?

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