Chronos

*tic tac, tic tac

E de repente, reparei. Estava lá. Aquele maldito relógio. O mesmo que atormentava minhas noites de sono.
Suas badaladas soavam como réquiens infernais, ecoantes, imparáveis.
Quanto mais olhava para a porta que continha o artefato, mais me perdia.
Nunca havia percebido ele ali. São coisas vis que passam despercebidas. Nosso cotidiano é frenético demais para trivialidades. Todavia, quando o silêncio chegou, foi inevitável.

*tic tac, tic tac

Perguntei-me a necessidade de um relógio como este em pleno século XXI. A tecnologia evolui, mas as pessoas insistem no antigo.
Quanto mais pensava, mais intimidado ficava pelos sons onomatopéicos. Tempo. O que seria dele sem números para defini-lo? Contamos a partir de Deus, mas Deus parte de onde?

*tic tac, tic tac

Os sons eram ensurdecedores. O que antes era incômodo, agora virara uma tortura. O que eu deveria fazer? Desligá-lo? Não! Ele estava muito acima de mim. Universos de distância, uma longa e sinuosa estrada. Se eu sucumbisse, levaria-me à desolação. Se eu resistisse, levaria-me à cova.
Abro a velha gaveta onde guardo minha arma e seus projéteis. Carrego-a.
Um som estridente se espalha. Vermelho Escarlate. Silêncio contamina o local.

As pilhas do relógio acabaram.

-Iorhan Patias