Por que eu acredito na bicicleta?

Leia de coração aberto, isto é uma singela tentativa de explicar a inspiração do meu sim

Meu pai sempre falava: “Pedalar em linha reta é para moleque fracote, você tem que se arriscar”. Após muita resistência resolvi aceitar a convicção dele, me aventurei na ladeira que tinha perto de sua casa, não só uma vez, mas setes vezes. Meus joelhos sabem bem a consequência dessa ideia paterna, mas a males que vem para o bem, hoje sei andar de bicicleta.

Durante as tentativas algo muito louco e bom, aconteceu comigo. Aquela sensação de ser dono do meu próprio nariz me tocou pela primeira vez. Como é possível um objeto tão simples como uma bicicleta ser capaz de me dar autoconfiança para ir a qualquer lugar sozinho? Eis um mistério que até hoje não sei explicar às pessoas. Talvez eu tenha dado o primeiro passo da minha emancipação individual, descobrindo que poderia acreditar em mim e ir além dos limites imposto pelas pessoas.

Aos sete anos me sentia um super-homem ciclista. Queria ir de bicicleta para todos os lugares, como por exemplo, escola ou supermercado. Infelizmente, meses depois minha poderosa bicicleta vermelha foi furtada na calada da noite. Depois do ocorrido, preferi não insistir na compra de uma nova, fiquei com trauma de perdê-la pela segunda vez. Passei muitos anos sem tocar ou chegar perto de uma bicicleta e, como consequência, aquele sentimento de “confiar no próprio taco” nunca mais apareceu.

Em 2015, o QG da Bike começou a ser pensado. No decorrer da criação do projeto houveram várias provocações e convites. Um momento importante para mim foi descobrir aquilo que me conectava ao meu bairro, o Jd. Rosana (componente do distrito de Campo Limpo), um lugar muito citado nas letras dos Racionais Mc’s, mas na minha mente não havia nenhum significado pessoal.

Para concretizar o projeto, precisava remover as narrativas pejorativas que disseminavam sobre o Campo Limpo e buscar um novo olhar sobre o lugar onde nasci. Hoje tenho outros olhos para o CL, enxergo um polo fortíssimo para mobilização social. Grandes ideias existem lá, como o Banco Popular Sampaio, a União Popular de Mulheres, o Sarau do Binho, a Escola de Notícias, entre outros.

Entender a necessidade das regiões periféricas serem incluídas nas políticas públicas sobre mobilidade urbana foi outro momento importante. Atualmente no distrito de Campo Limpo temos 1,1km de ciclofaixa para atender uma área distrital de 12,8 km². Com isso, grande parte dos moradores não é beneficiada com a (minúscula) malha cicloviária criada.

Com base nessas reflexões, foi construída a primeira oficina do projeto. “Primeiras Pedaladas”, uma oficina com o intuito de ensinar pessoas a andar de bicicleta. É essencial que haja nas pessoas o sentimento de autoconfiança, assim, é possível navegar em águas desconhecidas e tirar de lá novas sensações e descobertas. Ver pessoas aprendendo a andar de bicicleta nas oficinas do QG é a materialização do conceito citado. Ao ganharem confiança em si mesmos com a bike, seus medos são substituídos por sorrisos indescritíveis.

Ensinando a Rosely durante uma oficina do QG da Bike em 2016 (Foto: Gutierrez Silva/QG da Bike)

Esse é o meu propósito ao crer na bicicleta. Ela ressignifica os espaços públicos e muda o olhar sobre a cidade, tudo de forma simples e sem propaganda. Ao aceitá-la em minha vida, voltei a ter aquele sentimento do “sou capaz”, e hoje luto para que os moradores das regiões periféricas possam ter os mesmos direitos dados aos moradores do centro expandido, incluindo as políticas públicas de mobilidade urbana. Assim, seguimos firme acreditando na bicicleta.