
Selva de pedra, menino microscópico
Dois, entre dezenas. Dois, entre centenas. Dois, entre milhares. Parecidos com Miguilim e Dito, do sonho mais Rosa. Iguais de personalidade, iguais de inocência. Desiguais de sertão. Estes habitam um Mutum diferente daquele previamente ficcionalizado. Um lugar bonito, entre prédio e prédio. As chapadas deste Mutum carecem de sertão, verde e cumplicidade. A regionalidade daqui se assemelha à dura poesia concreta, que esmaga a elegância e a dignidade. Um, entre os dois, é o novo Miguilim.
Roupas largas, da mesma cor do concreto e da poluição paulistana. Devido aos amassados e arranhões evidentes que a vida deu em suas roupas, aquele conjunto provavelmente é o único do sertanejo urbano. Este que carece da regionalidade interiorana clichê, mas que é tão forte quanto. Trajes maiores que sua miúda estatura. Ínfima talhe carregada de uma imprudente maturidade adquirida pela obrigação da vivência das falsas polidas e lindas travessias urbanas. Olhos, parecidos com os de Miguilim que, mesmo incapazes de ver a completude do cosmo, não deixam de ir atrás da quintessência, não desistem do puro contrafeito.
Olhos estes que antevêem o outro. Fadiga para ele, para os outros férias. O mundo nas costas, a dor nas custas. É alameda, chuva, é desamor. É súplica e silêncio-grito por ajuda. É passo ofegante por ter vivido na terceira margem do rio Paulista. Acompanhado por seu irmão, a urbanizada versão de um Dito, Miguilim não é dos mais sozinhos. A cumplicidade da companhia o acompanha na dansa entre uma avenida e outra.
Ambos de pele negra, compartilham da carência de um mundo macroscópico. Enquanto Dito aparenta possuir aquela lucidez ímpar que carece os mais velhos, Miguilim, agora também ficcionalizado, é apegado aos seus apetrechos: um boné, uma camiseta, um calção e uma delícia de viver. Semelhante a um Erê yoruba, sinônimo de boa ação ou favor, este é um dos bens que ele mais delonga e anseia. Seus passos são, além de tudo, o arquétipo da criança interior externalizada.
De tantas semelhanças, o Miguilim de Rosa possui uma diferença do nosso particular. O primeiro existe apenas nas belas palavras de um mago de universos. O segundo está nas andanças da vida, de barriga vazia e carece de amor. Porém, também presente em míseras palavras.
