sobre o caos e o conforto

Pietro Camargo
Sep 1, 2018 · 3 min read

I’d forgot how to daydream
So consumed with the wrong things
But in the dark, I realized this life is short
And deep down, I’m still a child
Playful eyes, wide and wild
I can’t lose hope
What’s left of my heart’s still made of gold

Às vezes nos pegamos no escuro e nem entendemos direito o por quê. Parece que tudo está bem, até de repente, não estar mais. Seja por uma não identificação com a rotina que nos é dada, por uma grande apatia em relação à vida ou simplesmente por banalidades que acabam nos correndo por dentro, acabamos nos perdendo. E me vi perdido por esse caminho nos últimos meses.

Desde que me entendo por gente, existe uma voz na minha cabeça constantemente me dizendo que eu não sou bom o suficiente. Isso só fez com que, eu, isolado no meu próprio mundinho, afastasse cada vez mais um mundo melhor e mais real que me esperava lá fora. Acho que era mais fácil me esconder e me anular do que me sujeitar e me submeter à aprovação dos outros, que hoje percebo não valer de muita coisa. Felizmente, essa e muitas outras travas eu perdi ao adquirir uma maturidade e uma estabilidade que eu não julgava possíveis encontrar. Ao decorrer dos anos, me vi em meio a tantas pessoas e experiências transformadoras que, aos poucos, feliz, me tornei aquilo que sempre quis: a melhor versão de mim. Pela primeira vez eu me sentia completamente confortável na minha pele e me sentia grato por tudo o que eu era e conquistara. E descobri que quando estamos no nosso melhor, os outros percebem e, consequentemente, nos querem. Ao projetarmos o bonito, o polido e o agradável, a vida e as pessoas correspondem da mesma forma e tudo nos é devolvido na mesma moeda. Descobri também que o mesmo acontece quando estamos no nosso pior. Um eterno aqui se faz, aqui se paga.

Confesso que fiquei surpreso quando me percebi mal. “Como assim estou me sentindo desse jeito? Mas eu já passei por tudo de ruim que eu tinha para passar! Eu estava bem! Eu evoluí! Eu me encontrei!” Se isso tudo era verdade, por que então parecia não valer mais de nada? Diferentes certezas que sempre tive caíram uma a uma por terra. O problema foi a ingenuidade ao pensar que eu já tinha decifrado completamente minha cabeça e meu coração após algumas crises aqui e ali. Entendi que certezas não existem e nada é eterno. Somos feito de fases, e só percebi que uma boa tinha acabado quando me vi imerso de cabeça e me afogando em uma ruim.

Não foi fácil me acolher e me respeitar nessa nova etapa. Me vi completamente perdido dentro de um caos que, agora entendo, foi causado por mim, por escolhas que fiz, pensamentos que cultivei e negligências que cometi. No final, tirei uma lição dessa desordem mental e sentimental: nós só mudamos pela dor e pelo amor, e tinha chegado a hora de eu, com esse constante e desmedido aperto no peito, por amor a mim mesmo, me transformar em um novo eu. É difícil deixar pra trás uma versão minha da qual tanto me orgulho e que ainda me vejo tão conectado. Nessa jornada de autoconhecimento, me enxergar pela lupa do amor e do respeito próprio tem sido meu porto seguro, e me acolher e refletir pelo o que estou passando é o melhor que aprendi a fazer. As coisas ficam mais simples quando percebo que estou sempre em constante evolução e os momentos ruins só servem para me fortalecer e calejar. Eu, que sempre fui sozinho e que me desacostumei com a solidão ao ponto de passar a temê-la, me encontro cada vez mais confortável na minha própria companhia. Eu entendi que eu tenho a mim, e pela primeira vez em muito tempo, isso basta.

    Pietro Camargo

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    entre um ataque de nervos e outro, um texto novo por aqui.