1953

Uma cidade em construção e uma moça do interior do estado assistia a destreza dos guindastes colossais e a eficiência dos operários nordestinos darem vida aos arranha-céus da capital paulista, que crescia para onde podia: para cima, para os lados, criando bairros ao engolir vilas, e para baixo, soterrando córregos e escurecendo rios com a lama da indústria.

Em meio a tanta fuligem, a jovem interiorana tentava se mesclar àquela realidade — na fala puxava menos o “r”, que por qualquer deslize poderia entregar suas raízes; e qual melhor maneira de camuflar-se do que perdendo-se nas largas avenidas e ruelas da cidade?

A independência e autonomia que até hoje surpreende os desavisados foram alguns dos melhores aprendizados da juventude numa megalópole — conhecera a cidade até melhor que os próprios paulistanos.

Como seus pés desprenderam a quietude da sola acabou por criar o hábito de frequentar o imenso Parque do Ibirapuera, há pouco tempo inaugurado, e reservava as suas tardes para bater perna ou simplesmente a sentar-se num dos bancos de tronco de árvore onde se debruçava sobre seus livros.

Todas as tardes fazia o mesmo trajeto de seu apartamento na Rua da Consolação até descer no ponto da R. Vinte e Três de Maio, chegando ao seu destino. Mas a rotina do cotidiano não deixou passar despercebido o jovem franzino de óculos fundos e redondos, dono de um tímido sorriso e de gestos ternos, que não disfarçava o nervosismo e o vislumbre de alegria quando reconhecia o ônibus dela a chegar. Todos os dias seguiam caminhos diferentes, ele indo para a faculdade e ela para o parque; enquanto ela chegava, ele já estava indo, e a breve troca de olhares era o cumprimento cortês entre os dois.

Uma tarde amena e primaveril, quando ela descera no ponto não o encontrou e murchou como se o inverno tivesse roubado a estação. Seguiu cabisbaixa até o banco que ficava em frente ao lago, sentou-se mas não teve ânimo para tirar seu livro da bolsa — era como se pressentisse que algo estava por vir.

Fechou os olhos e tocou a grama com os pés. Tinha saudades da sua origem e o contato direto com a grama a fazia lembrar de uma infância feliz no casarão antigo em que a família morava. Respirou fundo e sentiu o cheiro da terra úmida mas com uma leve fragrância refrescante. “O que era aquilo?”

Ao abrir os olhos um susto. O jovem companheiro do ponto de ônibus parado a sua frente com um pequeno buquê de crisântemos amarelos nas mãos — diria que um pouco trêmulas, pois havia sido pego de surpresa enquanto admirava a paz no rosto dela.


A memória do primeiro encontro dela com a promessa da sua vida nem a velhice consegue tirar.

Os 64 anos em que permaneceram juntos e amorosos se eternizam no olhar dos filhos — agora um pouco apreensivos com a saúde do pai que dorme no leito do hospital.

Ao lado dele sempre um pequeno buquê de crisântemos e sua companheira; o cabelo castanho claro deu vez aos fios brancos que cobriam a sua cabeça e o rosto enrugado pelo tempo não apagaram a doçura dos olhos.

Como é difícil dizer adeus a parte de sua própria vida. O coração aperta e afunda cada vez mais no peito só de imaginar que aquele segundo pode ser o último, o temor dos olhos não abrirem mais; o egoísmo aceitável do amor: tantos anos de cumplicidade e paixão que paralisam pelo medo da morte roubar aquele mísero instante.

Até que o último olhar resista, a longa expiração cesse, o sentimentos viverá guardado na lembrança do parque e do buquê.