Cartas que não chegam

Clara Schianta
Aug 25, 2017 · 2 min read

Poderia começar dizendo que sinto sua falta, mas você já sabe e não diz nada sobre isso. Poderia dizer que me arrependo, mas você leria sem acreditar e talvez revire os olhos. Poderia descrever o amor que guardo por você, mas me rasgaria em pedacinhos por trazer a tona um sentimento de confusão — o qual nenhum de nós merece.

Começo pela verdade, começo por mim.

Desconfiada por natureza mas quando me entrego o faço sem ressalvas, sem pesar as consequências, sendo egoísta ao máximo quando se trata da minha felicidade e a de quem quero bem. Me fecho num mundo onde não vejo outras responsabilidades senão as que devo com quem amo, mas infelizmente o mundo é muito maior que meus sonhos e meu passado faz parte desse mundo — Me moldou até ser a pessoa que sou hoje mas por vezes desperta na minha cabeça e revira minha alegria ao avesso.

Não sei em que ponto comecei a desandar, há tempos não sentia essa liberdade no sentir correndo pelas minhas veias, como tudo devia ser; o que importa é que desandei, comecei a desacreditar em mim, no que tinha alcançado, no que estava vivendo tão intensamente e quando me dei conta estava completamente embaralhada com tudo jogado no chão e você em minha frente.

Deveria claramente ter dito, você com certeza me ouviria, um dos tantos erros que cometi foi confiar mais no meu silêncio do que em você, mas agora não adianta ficar pensando no que não fiz.

E foi assim, pura e simplesmente, por medos incongruentes, alavancados por um desespero irracional, que deixei de lutar por mim, pela minha felicidade e por nos. É nesse momento que me vejo arrependida por não ter dito o que sentia, por não ter compartilhado tudo — inclusive minhas dores.

Para uma carta que não chegará, ela é um pouco do que gostaria de ter sido, muito do que vivo e ainda tudo aquilo que amo.

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    Clara Schianta

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    Piena di meraviglie, paure e un sacco di sogni.